sábado, 18 de julho de 2026
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Bruno Sindona

A cidade do futuro não nasce sozinha

Bruno Sindona analisa o impasse do São Francisco Golf Club em Osasco e defende uma solução urbana ousada, inspirada no Parque Villa-Lobos, para transformar a área.

Por Bruno Sindona | Atualizado em: 08/08/2025 16:57 Siga-nos no Google News
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Construir uma cidade é uma tarefa complexa demais para ser assumida por uma única pessoa ou empresa. A história urbana mostra que muitos projetos falharam não por falta de ambição, mas por excesso de isolamento. Há cidades inteiras que foram pensadas, construídas e simplesmente não foram ocupadas. É o caso de Ordos, na China, que nasceu para receber um milhão de pessoas, mas nunca viu suas ruas ganharem vida. Mais recentemente, o projeto The Line, na Arábia Saudita, chamou a atenção do mundo com a proposta futurista de uma metrópole linear no meio do deserto, mas ainda não conseguiu o investimento necessário para sair do papel.

Esse desafio também aparece em empreendimentos menores, tanto públicos quanto privados. O Brasil viveu um período positivo nos primeiros quinze anos deste milênio, quando começaram a surgir projetos mais ousados. O Ilha Pura, no Rio de Janeiro, por exemplo, pretendia reinventar a convivência urbana na cidade mais famosa do país. Mas a crise econômica e os efeitos da Operação Lava Jato na economia do estado interromperam o sonho, e o projeto continua inacabado. Em São Paulo, o condomínio Parque Global, um dos mais ambiciosos da capital, luta há mais de 20 anos para ser entregue, e só agora começa a entregar suas primeiras unidades.

O que esses casos têm em comum? Primeiro, alguém que ousou sonhar grande. Depois, o encontro com a realidade. Fazer algo novo e de grande escala nunca é simples — no Brasil, talvez menos ainda.

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Em Osasco, um caso emblemático ganhou destaque nos últimos anos: o São Francisco Golf Club. Existem muitas opiniões sobre o tema, mas há algo difícil de negar: é um enorme desperdício. Discutir o futuro do terreno exige, antes de tudo, reconhecer que uma área equivalente a 0,5% de toda a cidade está reservada para um grupo pequeno de esportistas amadores.

Tomo meu café da manhã olhando para esse campo. Nasci em Osasco e, mesmo assim, só entrei no clube pela primeira vez quando fui convidado por um amigo golfista que visita a cidade de vez em quando. A experiência foi melancólica. Não porque o local seja proibido — a portaria permite a entrada de visitantes —, mas porque ele não acolhe, boa parte do perímetro sequer tem calçada e a maioria das pessoas não se sente à vontade para atravessar os portões.

O golfe, por natureza, é um esporte de elite. E a realidade de Osasco é totalmente diferente. Lá dentro, percebi que a vista de fora para dentro é mais bonita do que a de dentro para fora. A construção é antiga e charmosa, mas o ambiente tem um ar de decadência. Existe uma lanchonete simples, com poucas opções. Os frequentadores mais antigos se organizam de forma informal, muitos “penduram” contas, como se estivessem em um clube de bairro — o que reforça a ideia de que aquele espaço é para conhecidos, não para a população.

E por que isso me incomodou? Porque o que mais falta nas periferias brasileiras são áreas verdes de lazer. A Região Metropolitana de São Paulo é cinza e apertada. Um espaço como esse deveria ser um refúgio para todos — não apenas para quem joga ou para quem, como eu, pode vê-lo da janela da sala.

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O caso do campo de golfe vive hoje um impasse. A população da região não aceitou o projeto como foi pensado. Houve protestos, ações judiciais, debates públicos. Os donos do terreno querem, com razão, transformar o patrimônio em valor. A empresa responsável sofre com a paralisação. Os compradores de unidades na área ou nos arredores também sentem o prejuízo. No meio de tudo isso, o povo da cidade continua sem acesso ao espaço.

Minha carreira começou, por acaso, reestruturando um empreendimento parado. Até hoje sigo fazendo isso. Muitos empreendimentos que eu mesmo idealizei precisaram ser redesenhados no meio do caminho. O cenário muda. A legislação muda. Uma decisão judicial pode surgir do nada. A inflação sobe. O custo da obra dispara. A taxa de juros varia. E o projeto fica ali, sofrendo, travado pelas circunstâncias — enquanto todos os envolvidos também sofrem.

Na maioria das vezes, só muda algo quando entra um novo agente: uma empresa, um investidor, novos compradores. No caso do campo de golfe, não vejo saída sem a presença do poder público. Mas não para mediar apenas, mas assumir um papel de autor da solução, propondo algo que atenda a todos envolvidos, gerando valor e reduzindo danos.

Fala-se nos bastidores que o valor de venda da área gira em torno de R$ 1 bilhão, com pagamento ao longo de dez anos. Parece muito, à primeira vista. Mas, para uma cidade como Osasco, isso significaria algo em torno de R$ 150 por habitante por ano. É um investimento pequeno se olharmos por esse ângulo. Ainda mais considerando que o poder público pode buscar financiamentos, contrapartidas e parcerias — sem precisar bancar tudo sozinho. Os terrenos vizinhos poderiam ser incluídos num plano de desenvolvimento urbano. Seria possível oferecer benefícios para quem topasse ajudar na requalificação da área e compensar os impactos, dando prioridade, evidentemente, às empresas já envolvidas.

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O Estado de São Paulo poderia participar, ajudando a transformar toda a zona oeste. Ali perto já existe uma prova de que isso funciona: o Parque Villa-Lobos. Também era uma área particular, adquirida depois de anos de disputa. Hoje é um dos maiores símbolos de qualidade de vida da cidade de São Paulo. E o entorno virou uma referência urbana — ainda limitado pela presença do CEAGESP, mas isso já é outra história.

A cidade do futuro não nasce sozinha. Ela exige diálogo, escuta, negociação, propósito coletivo. O campo de golfe de Osasco pode ser apenas mais um projeto interrompido, como tantos outros. Ou pode se tornar um marco. Um símbolo de uma nova forma de fazer cidade: participativa, inclusiva e corajosa.

 

Autor

  • Bruno Sindona é empreendedor de impacto, membro do Conselho de Desenvolvimento Econômico Social Sustentável da Presidência da República e nascido em Osasco. Atua na transformação urbana com projetos que unem estética, dignidade e propósito coletivo

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