quinta-feira, 04 de junho de 2026
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Antônio Carlos Roxo

A fé e a política

Antonio Carlos Roxo argumenta que a fé, como prática ética, deve ser uma bússola para a justiça social, e não um pretexto para o ódio e a violência. Leia o artigo.

Por Antônio Carlos Roxo | Atualizado em: 27/11/2025 18:34
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Em recente encontro sobre Fé e Política no Centro Pastoral Diocesano, recordei um artigo que escrevi para O Diário (26/09/1995), motivado por uma palestra do então bispo Dom Francisco. Nele, apresentava a fé como compromisso com Deus e, por isso, como uma opção de vida que se manifesta tanto pela mediação religiosa quanto, no cotidiano, pela ética da prática. No campo social, sua dimensão é histórica: a política é uma dimensão interna da fé, enquanto prática social, pois é a fé realizada no âmbito coletivo. Se não se realiza na prática, permanece abstrata, ingênua e acrítica. A mensagem cristã, portanto, deveria inspirar a ação política dos cristãos. Em sua função profética, a fé não pode se eximir da solidariedade com as lutas e esperanças justas do povo.

No artigo de 1995, escrevi que “a fé dá critérios de orientação política na perspectiva de libertação e participação, no respeito à liberdade de consciência religiosa e na busca do bem comum e da justiça social”. Ela é uma bússola para a prática: um compromisso de vida que se concretiza no engajamento diário, nas lutas comunitárias e na participação ativa na vida concreta. Não pode, sob qualquer pretexto, ser subvertida para atender a demandas terrenas de glória e conquistas efêmeras. Ainda que alguns se autoproclamem arautos da fé, sua efetivação só se dá no exercício da ação — na obra. Sendo histórica, perde totalmente o sentido quando não orienta o agir.

A fé se dá na concretude, embora historicamente tenha sido muitas vezes interpretada de forma obtusa, inclusive para justificar a escravidão, seja indígena ou negra. Quando foi proclamada a abolição, muitos defendiam que os escravos “não estavam preparados” para a liberdade. O mal maior sempre encontrou seus defensores “cristãos”. O país chegou ao cúmulo de investir recursos para atrair imigrantes europeus — inclusive como forma de “embranquecimento populacional” — recursos que poderiam ter sido destinados à qualificação dos libertos.

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A fé deve pregar a vida, não a morte. Por isso, não se pode aceitar, sob nenhuma opção religiosa, a morte recente de 121 suspeitos de ligação com o tráfico no Rio de Janeiro, sob o pretexto de combater o Comando Vermelho. Além de não atingir seu objetivo declarado — os líderes se evadiram —, não havia, nem há, qualquer proposta de ocupação permanente do território pelo Estado. Muitos admitem que tais operações acabam apenas abrindo espaço para outro grupo criminoso com maior vínculo institucional: a milícia. No rastro de sangue, a comunidade permanece refém, sem presença pública efetiva.

Os pobres e, especialmente, os pretos são a “carne” oferecida aos abutres nessa e em tantas outras operações. Segundo pesquisa (Folha de S.Paulo, 7/11/2025), o risco de negros serem mortos pela polícia no Rio é 4,5 vezes maior do que o de brancos.

A relação entre fé e política não tem por objetivo que uma domine ou conduza a outra. No entanto, queira-se ou não, a ação na política deveria ser norteada pela fé — entendida aqui como consciência ética, compromisso com a justiça e o bem comum. Não se pode admitir que alguém, ao se envolver na política, precise negar sua fé; ao contrário, é nesse espaço que ela deveria funcionar como mecanismo de controle moral das ações.

Bater no peito e encher a boca de injúrias religiosas não significa crença nem compromisso. Muitas vezes são apenas palavras vazias. Basta ver as manifestações constantes de “cristãos” que destilam ódio contra os que pensam diferente. A acolhida entusiástica — e sem qualquer reflexão — por parte de muitos diante da mortandade no Rio encaixa-se exatamente nesse quadro. Esquecem-se de que, dentro dos princípios cristãos, está o “não matar” e o “não desejar o mal ao próximo”. O problema é considerar pobre e preto como “próximo”, não é mesmo?

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A hipocrisia é tamanha que governadores de outros estados vieram prestar solidariedade ao governador do Rio, firmando — ironicamente — um Consórcio da Paz. Fingem desconhecer que a criminalidade brota, inexoravelmente, das más condições de vida: falta de lazer, de escola, de educação, de comida e de perspectiva.

Muitos apoiam ações violentas em nome de um “Jesus” nada misericordioso, esquecendo-se de outro Jesus — este sim misericordioso — que confrontando hipócritas e fariseus pregou a paz, o amor e a compaixão.

 

Autor

  • Antônio Carlos Roxo é Economista pela Universidade Federal de Juiz de Fora, mestre pela Universidade Federal de Minas Gerais e doutor pela Universidade de São Paulo.

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