A palavra que só importa quando as urnas abrem
Levei trinta e cinco anos para conhecer o nome daquilo que é minha obsessão

Vou confessar uma coisa: só há pouco tempo aprendi o nome científico daquilo que sempre busquei fazer. A palavra é acurácia — o grau em que um resultado de pesquisa se aproxima do que de fato aconteceu. Passei décadas perseguindo essa proximidade sem saber que ela tinha um nome. Descobri que essa palavra foi, o tempo todo, a bússola invisível dos meus trinta e cinco anos de vida pública.
A conta é simples. São trinta e cinco anos de estrada, dos quais vinte e sete à frente do Instituto MAS Pesquisa. A diferença entre esses dois números guarda os primeiros 8 anos onde, em sociedade na primeira empresa que havia criado, vi de perto como uma pesquisa pode ser manipulada. De nada valia o rigor de campo do qual eu era responsável — o trabalho de quem bate à porta, ouve o eleitor, entende o território — pois passou a ser sacrificado quando o interesse fala mais alto que o dado. Não vi isso de longe, como observador. Vi de dentro. E foi exatamente por esse motivo que soube, sem sombra de dúvida, que não queria fazer parte desse sistema.
Houve um momento em que a escolha se impôs. De um lado, uma carteira de clientes e o conforto de pertencer a um nome já estabelecido, criado por mim inclusive. De outro, a inquietação de quem já não tinha mais a segurança de ver seu nome como coautor de possíveis fraudes. Escolhi o caminho mais difícil: recomeçar do zero. Dessa ruptura nasceu o Instituto MAS Pesquisa — não como um negócio a mais, mas como um compromisso: o número que a gente entrega é o número que a urna vai confirmar. Sem conveniência, sem ajuste, sem recado.
Hoje a pesquisa eleitoral é maltratada no debate público. É tratada como acessório, como peça de prateleira que cada um usa conforme a conveniência do momento. Todos querem em algum momento “um instituto para chamar de seu”. Vivemos num ambiente de desconfiança de todos contra todos. E, no entanto, nos bastidores, ninguém decide nada sem ela. Os mesmos que atacam os números em praça pública dependem deles, em silêncio, para dar cada passo. Esse é o paradoxo que sustenta o mercado — e é sobre ele que ainda tenho muito a dizer.
Por ora, fico com a ideia que abre esta série. Acurácia é uma palavra discreta. Você pode passar a vida sem precisar dela — até o dia em que as urnas se abrem e mostram a realidade como ela é. Nesse dia, você descobre que era a única coisa que importava.
Até o próximo artigo.