quinta-feira, 27 de agosto de 2026
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Opinião

Agosto Lilás: quando a conversa sobre violência também precisa chegar aos homens

Fui convidada para, neste mês de Agosto Lilás, participar de várias ações de enfrentamento à violência contra a mulher

Por Solange R. Aroeira | Atualizado em: 27/08/2026 16:19
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Fui convidada para, neste mês de Agosto Lilás, participar de várias ações de enfrentamento à violência contra a mulher. E uma coisa que tem feito diferença no meu caminhar é perceber que tenho direcionado a minha voz não apenas para as mulheres, mas também para os homens.

Estamos realizando diferentes ações, entre elas o programa Linha em Paz, e temos percebido que essa fala tem ecoado. Tem feito sentido para muitas mulheres que atuam diretamente no enfrentamento à violência doméstica, mas também tem encontrado espaço entre os homens.

E isso, para mim, é fundamental.

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Porque se queremos enfrentar a violência contra a mulher, precisamos conversar com as mulheres, acolhê-las, protegê-las e garantir seus direitos. Mas também precisamos conversar com os homens.

Precisamos falar sobre masculinidade.

Precisamos falar sobre relações.

Precisamos falar sobre poder, controle, autonomia, responsabilidade e, sobretudo, sobre aquilo que ensinamos aos nossos meninos desde a infância.

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Em uma dessas oportunidades, durante uma fala na cidade de Barueri, em uma atividade relacionada aos 20 anos da Lei Maria da Penha, tive a oportunidade de refletir sobre essas questões. Posteriormente, a cidade de Vargem Grande Paulista, por meio da Secretaria das Mulheres, me convidou para realizar uma fala especialmente pensada para os homens.

O público era majoritariamente masculino.

Eu achei isso extremamente importante e aceitei prontamente.

Porque, se estamos falando de prevenção da violência, precisamos criar espaços em que os homens também possam ouvir, refletir e, principalmente, se reconhecer como parte da transformação que precisamos construir.

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Foi a partir desse convite que resolvi transformar aquela fala em texto. Não como uma receita, tampouco como uma acusação aos homens, mas como uma provocação.

Uma conversa.

Uma reflexão sobre aquilo que ensinamos aos nossos filhos e sobre o tipo de relação que queremos que eles construam no futuro.

Arquivo Pessoal

Amar também é ensinar a caminhar

Qualquer mãe, qualquer pai que ame profundamente precisa compreender uma coisa: amar é dar autonomia para a cria.

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Toda criança nasce dependente. E é responsabilidade de quem cuida dela prepará-la, pouco a pouco, para caminhar com as próprias pernas.

A menina precisa aprender que pode desejar, escolher, trabalhar, conquistar, dizer “não”, dizer “sim” e ocupar os espaços que quiser.

Ela não precisa esperar que alguém autorize seus sonhos.

Mas o menino também precisa aprender autonomia.

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Precisa aprender a cuidar de si, reconhecer suas emoções, assumir responsabilidades, lidar com a frustração e, principalmente, compreender que conquistar alguém jamais significa possuir essa pessoa.

É na infância que começamos a construir homens e mulheres emocionalmente mais maduros.

E é justamente aí que precisamos começar a questionar alguns modelos que foram naturalizados durante gerações.

O homem também precisa ser libertado

Quando falamos em masculinidade tóxica, não estamos dizendo que ser homem é ser tóxico.

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Estamos falando de modelos de masculinidade que podem ensinar comportamentos tóxicos.

Meninos que aprendem que não podem chorar.

Que precisam ser fortes o tempo inteiro.

Que demonstrar medo é sinal de fraqueza.

Que precisam mandar. Que precisam conquistar.

Que não podem ouvir um “não”.

Que precisam ter sempre a última palavra.

Que uma mulher independente representa uma ameaça.

Esse modelo também aprisiona os homens.

Bell hooks nos ajuda a pensar sobre isso ao afirmar que “o amor é uma ação, nunca simplesmente um sentimento”.

Se amor é ação, então amar exige responsabilidade.

Exige cuidado.

Exige escuta.

Exige respeito.

E exige compreender que amor e controle não são a mesma coisa.

Uma mulher autônoma não é uma ameaça

Inspirada pelas reflexões de Clarissa Pinkola Estés, especialmente em Mulheres que Correm com os Lobos, penso na mulher que reencontra sua própria voz, sua força e sua capacidade de escolher.

E existe aqui uma provocação que considero essencial para os homens:

Uma mulher autônoma não é uma ameaça. Ela é uma mulher que pode escolher estar com você sem precisar depender de você.

Isso muda completamente o significado de uma relação.

Porque quando uma mulher não depende de um homem para existir, permanecer ao lado dele passa a ser uma escolha.

E escolha é uma das formas mais bonitas de liberdade.

Da mesma maneira, um homem emocionalmente autônomo não precisa de uma mulher para servi-lo, completá-lo ou validar permanentemente sua masculinidade.

Ele pode estar com ela porque escolhe estar.

Não porque precisa possuir.

Autonomia é também autogerenciamento

Talvez uma das grandes conversas que precisamos ter com os homens seja sobre autogerenciamento.

Antes de querer controlar o outro, precisamos aprender a governar a nós mesmos.

Antes de exigir que alguém controle suas próprias emoções para não nos incomodar, precisamos aprender a lidar com as nossas.

Viktor Frankl escreveu:

“Entre o estímulo e a resposta há um espaço. Nesse espaço está nosso poder de escolher nossa resposta.”

É nesse espaço que mora a maturidade.

É nesse espaço que um homem pode escolher o diálogo em vez da ameaça.

Pode escolher o respeito em vez do controle.

Pode escolher afastar-se em vez de destruir.

Pode aceitar uma separação sem transformar a mulher em inimiga.

Pode ouvir um “não” sem entender aquilo como uma afronta à sua masculinidade.

Isso também é força.

Talvez seja uma das formas mais importantes de força.

O contrário da autonomia é a posse

Uma relação adoece quando uma pessoa acredita que tem direito de controlar a vida da outra.

Quando vigia.

Quando determina com quem o outro pode falar.

Quando controla roupas, amizades, dinheiro, telefone, trabalho ou circulação.

Quando transforma ciúme em prova de amor.

Quando transforma controle em cuidado.

Controle não é cuidado.

Ciúme não é prova de amor.

Posse não é vínculo.

Uma relação madura não deveria ser construída na lógica do alto e baixo.

Do forte e fraco.

Do superior e inferior.

Do homem que manda e da mulher que obedece.

Relações maduras são horizontais.

Eu não estou acima de você.

Você não está abaixo de mim.

Eu não sou dono de você.

Você não é dona de mim.

Somos duas pessoas inteiras que escolheram caminhar juntas.

E o que ensinamos aos nossos filhos?

Talvez essa seja uma das perguntas mais importantes.

O que estamos ensinando aos nossos meninos quando dizemos: “Homem não chora”?

O que ensinamos quando elogiamos o menino por “pegar todas”?

O que ensinamos quando tratamos ciúme como prova de amor?

O que ensinamos quando dizemos para uma menina: “Cuidado para não provocar”?

O que ensinamos quando educamos meninas para serem cuidadoras e meninos para serem servidos?

A violência não começa necessariamente no momento da agressão.

Muitas vezes, ela é precedida por pequenas aprendizagens sobre poder, posse, silêncio, controle e desigualdade.

Por isso, a prevenção também começa muito antes.

Começa na infância.

Começa dentro de casa.

Começa na escola.

Começa na forma como ensinamos nossos filhos a lidar com o “não”, com a frustração, com a diferença e com a liberdade do outro.

Uma conversa que precisa continuar

Eu saí daquela conversa com os homens ainda mais convencida de que precisamos ampliar os espaços de diálogo.

Não podemos falar sobre violência contra a mulher apenas quando uma mulher já foi agredida.

Precisamos falar antes.

Precisamos falar sobre educação.

Sobre masculinidade.

Sobre responsabilidade afetiva.

Sobre autonomia.

Sobre respeito.

Sobre como construir relações em que ninguém precise diminuir o outro para se sentir grande.

Porque uma mulher inteira não precisa de um homem que a controle.

Ela precisa de um homem emocionalmente maduro o suficiente para caminhar ao lado dela.

E o homem também merece uma relação assim.

Uma relação em que ele não precise representar o tempo inteiro.

Em que possa sentir.

Falar.

Errar.

Recomeçar.

Aprender.

Ser responsável por si mesmo.

Quando uma mulher inteira encontra um homem inteiro, não existe uma disputa para saber quem manda.

Existe parceria.

Talvez seja essa a conversa que precisamos levar para os nossos meninos e meninas:

Não ensinar quem manda em quem.

Ensinar como duas pessoas podem caminhar juntas sem que nenhuma precise deixar de ser quem é.

Porque, no fim, talvez o amor adulto possa ser resumido em uma pergunta:

Como podemos caminhar juntos sem que nenhum de nós precise deixar de ser quem é?

Essa é a autonomia que não separa.

É a autonomia que permite escolher permanecer.

 

Autor

  • Solange R. Aroeira é psicóloga, pedagoga e Secretária das Mulheres, Direitos Humanos e Neurodiversidade em Cotia-SP. Especialista em neurodiversidade e educação especial, atua há mais de 15 anos nas áreas clínica, educacional e de recursos humanos. Palestrante e autora do livro "Como viramos estrelinhas: Finitude", dedica-se a promover ações estratégicas para inclusão social e cidadania plena. Redes sociais: @solangearoeira

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