Dor de crescimento existe? Estudo alerta para riscos de ignorar dores em crianças e adolescentes
Pesquisa mostra que a chamada dor de crescimento merece atenção e acompanhamento, pois pode persistir ou voltar na adolescência e na vida adulta.
A chamada “dor de crescimento”, frequentemente tratada como uma fase normal da infância, pode exigir muito mais atenção do que se imagina. Um estudo internacional publicado no Journal of Orthopaedic & Sports Physical Therapy aponta que dores musculoesqueléticas em crianças e adolescentes não devem ser negligenciadas, já que podem aumentar o risco de dores crônicas na vida adulta quando não recebem acompanhamento adequado.
A pesquisa acompanhou 694 crianças e adolescentes durante 18 meses e revelou que 86% dos participantes apresentaram melhora nesse período. No entanto, cerca de 32% voltaram a sentir dor após a recuperação, enquanto aproximadamente 14% continuaram convivendo com o problema, evidenciando que a condição nem sempre desaparece espontaneamente.
Segundo a pesquisadora Tiê Parma Yamato, da Universidade Cidade de São Paulo (Unicid) e da Universidade de Sydney, a dor musculoesquelética ainda é subestimada por muitas famílias e até por profissionais de saúde.
“Não é algo para simplesmente esperar que passe. Embora a maioria dos casos apresente melhora, uma parcela dos pacientes continua sentindo dor ou volta a apresentar sintomas. Por isso, é fundamental acompanhar essas crianças e adolescentes”, explica.
Dor pode comprometer a rotina e a qualidade de vida
De acordo com o estudo, cerca de três em cada dez crianças e adolescentes brasileiros convivem com esse tipo de dor, que pode surgir sem estar relacionada a traumas, quedas ou esforços repetitivos.
Além do desconforto físico, o problema pode interferir diretamente na rotina, levando ao afastamento das aulas, redução das atividades esportivas e prejuízos ao lazer e à convivência social.
As regiões mais afetadas foram:
- Costas (51,3%);
- Pernas (42,5%);
- Pescoço (20,5%).
No entanto, a dor pode aparecer em qualquer articulação, músculo ou osso.
“Dor de crescimento” é um termo que pode induzir ao erro
Embora seja popularmente conhecida como “dor de crescimento”, os pesquisadores alertam que não existem evidências científicas de que os estirões de crescimento sejam responsáveis pelas dores.
Segundo Tiê Parma Yamato, o termo acabou se tornando um senso comum e pode fazer com que famílias deixem de procurar ajuda especializada, acreditando que o problema desaparecerá naturalmente com o tempo.
A pesquisadora destaca que a ausência de uma causa específica faz com que muitos casos recebam esse rótulo, atrasando diagnósticos e tratamentos adequados.
Intervenção precoce pode evitar dores na vida adulta
Outro ponto importante observado pela pesquisa é que crianças mais novas e com melhor qualidade de vida apresentaram maiores chances de recuperação espontânea. Já na adolescência, essa probabilidade diminui, reforçando a importância da intervenção precoce.
Os pesquisadores também identificaram que fatores como qualidade do sono, sintomas psicossomáticos, ambiente familiar e bem-estar emocional podem influenciar diretamente na evolução do quadro.
Por isso, a recomendação é que a avaliação médica vá além dos sintomas físicos, considerando também aspectos emocionais e sociais da criança ou adolescente.
Os especialistas alertam que dores recorrentes na infância representam um fator de risco conhecido para o desenvolvimento de dores crônicas na fase adulta. Dessa forma, acompanhar os sintomas e buscar orientação profissional são medidas importantes para reduzir impactos futuros na saúde e na qualidade de vida.