quinta-feira, 04 de junho de 2026
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Opinião

Fevereiro: cada clique, um desafio aceito — emoções e o perfil do universitário na era da pressão permanente

Após dedicarmos o mês de janeiro Branco à saúde mental, recebi o convite de abordar o tema "emoções na atualidade" para um público universitário, em especial aqueles que equilibram trabalho, estudo e vida pessoal. A experiência revelou um cenário que não é uma exceção, mas um retrato do dia a dia.

Por Solange R. Aroeira | Atualizado em: 13/02/2026 18:00
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Após dedicarmos o mês de janeiro Branco à saúde mental, recebi o convite de abordar o tema “emoções na atualidade” para um público universitário, em especial aqueles que equilibram trabalho, estudo e vida pessoal. A experiência revelou um cenário que não é uma exceção, mas um retrato do dia a dia.

Fevereiro já não simboliza apenas o recomeço das atividades acadêmicas. Para muitos estudantes, cada notificação, prazo ou tarefa carrega um desafio automaticamente aceito.

Vivemos uma era onde é raro parar para refletir sobre experiências, emoções e escolhas. A rotina exige respostas rápidas, desempenho contínuo e constante presença — tanto on-line quanto off-line.

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Nesse contexto, é fundamental refletir sobre o perfil do universitário contemporâneo e a maneira como ele vive, produz e sente.

A rotina que não parece crise — mas pesa

O relato é comum: acordar antes do sol nascer, enfrentar deslocamentos longos, trabalhar durante o dia, assistir às aulas à noite e retornar para casa tarde. Ainda restam leituras, tarefas, a organização da vida doméstica e a busca—por vezes frustrada—por descanso.

Nada extremo acontece. Não há um evento marcante. É apenas a vida fluindo… num ritmo desgastante.

Entretanto, os sinais aparecem: cansaço persistente, dificuldade de concentração, irritabilidade, ansiedade e a sensação de nunca fazer o suficiente. Não é um contexto excepcional, mas um modelo de vida que se tornou regra.

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Emoções não são fraqueza — são bússolas

A literatura científica mostra que emoções cumprem funções adaptativas, orientando decisões e organizando vivências. O neurocientista António Damásio foi enfático ao demonstrar que emoção e razão funcionam de forma integrada. Ignorar as emoções não as faz desaparecer — apenas desloca sua carga para o corpo e comportamento.

Reconhecer e nomear o que se sente não é um sinal de fraqueza, mas parte essencial de um funcionamento saudável.

O contexto da sobrecarga emocional

O universitário atual vive dentro de um ambiente marcado por:
● Pressão por produtividade
● Comparação social constante
● Excesso de informação
● Instabilidade econômica
● Acúmulo de responsabilidades

Pensadores como Zygmunt Bauman, Byung-Chul Han e Hartmut Rosa ajudam a compreender essa realidade. Bauman descreve as relações fluidas e instáveis; Han pontua a sociedade de desempenho, marcada pela auto exigência extrema; e Rosa destaca a aceleração do tempo como característica central da modernidade.

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Hoje, viver simplesmente não basta — é preciso performar.

O universitário que trabalha e estuda

O perfil típico desses estudantes aponta para jovens que:

● Trabalham e estudam simultaneamente
● Dispõem de pouco tempo livre
● Assumem responsabilidades precocemente
● Encaram a educação como um caminho promissor de mobilidade social

Para essas pessoas, fracassar parece uma impossibilidade. Existe a pressão interna, as expectativas familiares e o medo de perder oportunidades, o que resulta em um cansaço profundo, mas silencioso.

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Real e virtual sem fronteiras

Com aulas híbridas, plataformas digitais, notificações constantes e grupos de trabalho, as divisórias entre estudo, trabalho e vida pessoal foram dissolvidas. O tempo de descanso deu lugar à disponibilidade contínua.

Embora a multitarefa seja considerada produtiva, ela frequentemente reduz a concentração e agrava a exaustão mental. Dentre os relatos mais comuns dos estudantes, destacam-se:

● Ansiedade
● Cansaço mental
● Procrastinação
● Culpa ao descansar
● Insônia

Quando o corpo se manifesta antes da mente

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Emoções ignoradas frequentemente se traduzem em sintomas físicos, como:

● Tensão muscular
● Dores recorrentes
● Irritabilidade
● Falhas de memória
● Fadiga constante

A saúde mental deixa de ser um tema secundário e se torna um elemento essencial para a permanência acadêmica e uma vida equilibrada.

Regulação emocional e cuidados diários

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Pesquisas em psicologia e ciências do comportamento apontam estratégias úteis para lidar com a sobrecarga emocional:

● Identificar e nomear sentimentos
● Praticar pausas intencionais
● Controlar a autoexigência extrema
● Compartilhar vivências
● Construir redes de apoio emocional

A crença de que é possível sustentar tudo sozinho é um mito da contemporaneidade.

O perfil do egresso universitário

Os universitários formados nesse cenário carregam características marcantes:
● Alta capacidade de adaptação
● Resistência emocional
● Multiplicidade de papéis sociais
● Experiências precoces com responsabilidades

Mas também acumulam desafios como:
● Esgotamento oculto
● Sensação de insuficiência
● Incapacidade de desconectar-se
● Necessidade constante de provar valor

Uma pergunta essencial

Olhando para ontem, quantos momentos foram vividos sem pressa? Quantos estiveram livres de prazos, metas ou cobranças? A ausência de pausas deixa marcas no corpo e na mente.

Cuidar das emoções: estratégia, não luxo

Estamos imersos em um período de intensa demanda emocional. Quem trabalha e estuda carrega uma carga invisível; quem cuida de outras pessoas carrega outra; quem tenta equilibrar ambas acumula ainda mais.

● Sentir cansaço não é fraqueza.
● Sentir medo não é sinônimo de fracasso.
● Precisar de apoio não é motivo de culpa.

O perigo reside em viver anestesiado, sem perceber as próprias emoções.

Fevereiro, além de marcar o início das aulas, metas e expectativas, pode convidar-nos a praticar algo novo: reconhecer nossos limites, nomear as emoções e valorizar o apoio mútuo.

Em tempos de pressão contínua, cuidar das emoções não é apenas uma busca por bem-estar — é uma questão de sobrevivência e qualidade de vida.

 

Autor

  • Solange R. Aroeira é psicóloga, pedagoga e Secretária das Mulheres, Direitos Humanos e Neurodiversidade em Cotia-SP. Especialista em neurodiversidade e educação especial, atua há mais de 15 anos nas áreas clínica, educacional e de recursos humanos. Palestrante e autora do livro "Como viramos estrelinhas: Finitude", dedica-se a promover ações estratégicas para inclusão social e cidadania plena. Redes sociais: @solangearoeira

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