terça-feira, 29 de setembro de 2026
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Opinião

Gloria Steinem morreu. Mas o que fazemos com as perguntas que ela nos deixou?

Podemos começar este texto desta forma: neste mês, o mundo perdeu Gloria Steinem. Mas, se pararmos para refletir, talvez ela esteja bem viva para muitas discussões

Por Solange R. Aroeira | Atualizado em: 29/09/2026 15:31
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Podemos começar este texto desta forma: neste mês, o mundo perdeu Gloria Steinem. Mas, se pararmos para refletir, talvez ela esteja bem viva para muitas discussões.

A jornalista, escritora e ativista feminista morreu aos 92 anos, em 2 de setembro de 2026, em sua casa, em Nova York. Durante mais de seis décadas, Steinem esteve no centro das discussões sobre igualdade de gênero, direitos das mulheres, participação política, liberdade e transformação social.

Será que sua morte encerra essas discussões?

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Ou deixa um legado para reflexão, principalmente neste momento de turbulência no mundo inteiro?

Eu, particularmente, vejo o mundo como um lugar em construção e reconstrução o tempo todo. Minha visão de mundo é a de que ideias, atitudes, ações e crenças estão sempre circulando. Algumas desaparecem, outras retornam e outras ainda reaparecem com novas formas.

Mas talvez a melhor maneira de falar sobre Gloria Steinem neste momento não seja apenas lembrar sua trajetória.

Talvez seja pensar sobre o que fazemos hoje com as perguntas que ela ajudou a colocar no mundo.

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E, no caso de Gloria Steinem, elas continuam absolutamente atuais. O que significa ser mulher em uma sociedade que ainda produz desigualdades?

Como construir autonomia quando tantas mulheres ainda vivem relações de dependência?

Como falar em igualdade sem ignorar raça, classe, deficiência, território, idade e tantas outras diferenças que atravessam a experiência feminina?

E, principalmente: como transformar essas reflexões em políticas públicas capazes de mudar vidas?

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Da mulher que precisa de proteção à mulher que precisa de autonomia

Durante muito tempo, falar em políticas públicas para mulheres significou, principalmente, falar em proteção. E ainda fazemos isso.

Proteger a mulher vítima de violência.

Oferecer atendimento psicológico.

Orientação jurídica.

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Acolhimento.

Encaminhamento.

Tudo isso continua sendo fundamental.

Mas será suficiente?

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Gloria Steinem nos ajuda a olhar para uma questão maior: a mulher não pode ser vista apenas a partir daquilo que lhe falta ou da violência que sofreu.

Ela precisa ser reconhecida como sujeito de direitos, de escolhas, de desejos, de participação e de poder.

Essa mudança de perspectiva é essencial para uma política pública contemporânea.

Uma política para mulheres não pode começar apenas quando a violência acontece.

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Ela precisa estar presente antes.

Na educação.

Na geração de renda.

Na empregabilidade.

Na formação profissional.

Na saúde.

Na participação política.

Na informação.

Na autonomia econômica.

Na construção de redes de apoio.

Na possibilidade de escolher.

Porque uma mulher que não possui renda, informação, rede de proteção ou acesso aos seus direitos pode encontrar enormes dificuldades para romper ciclos de dependência.

Para mim, autonomia não é apenas ter renda. É ter possibilidade real de escolha.

É poder decidir.

É poder dizer não.

É poder sair.

É poder permanecer.

É poder construir uma vida que não esteja determinada pela dependência ou pelo medo.

E é justamente por isso que autonomia também é prevenção da violência.

A violência começa muito antes do primeiro golpe

Aqui entra o pensamento de Heleieth Saffioti, que nos permite compreender que a violência contra a mulher não é apenas um acontecimento individual.

Ela está relacionada às relações históricas de poder e às desigualdades que estruturam a sociedade.

Por isso, quando afirmamos que a violência começa muito antes do primeiro golpe, precisamos olhar para aquilo que acontece antes da agressão física.

O controle.

A humilhação.

O isolamento.

A dependência econômica.

A desqualificação.

O controle sobre o corpo.

Sobre a roupa.

Sobre o dinheiro.

Sobre as amizades.

Sobre as escolhas.

Muitas vezes, quando a violência física aparece, outras formas de violência já foram naturalizadas.

Prevenir significa reconhecer esses sinais.

E significa também educar para relações baseadas em respeito, autonomia e igualdade.

É por isso que falar de autonomia não é mudar de assunto quando falamos de violência.

É falar de prevenção.

Mas de qual mulher estamos falando?

É aqui que o pensamento de autoras como bell hooks e Angela Davis se torna fundamental.

Não existe uma experiência única de ser mulher.

Uma mulher negra pode enfrentar barreiras que uma mulher branca não enfrenta.

Uma mulher pobre pode enfrentar obstáculos diferentes daqueles encontrados por uma mulher com autonomia financeira.

Uma mulher com deficiência pode enfrentar barreiras de acessibilidade.

Uma mãe cuidadora pode encontrar dificuldades para ingressar ou permanecer no mercado de trabalho.

Uma mulher neurodivergente pode encontrar obstáculos específicos no acesso aos serviços, na comunicação e no ambiente profissional.

Uma mulher idosa pode enfrentar invisibilidade e dependência.

Não estamos falando de mulheres diferentes apenas porque possuem características diferentes. Estamos falando de mulheres que encontram barreiras diferentes para exercer os mesmos direitos.

Por isso, igualdade não significa oferecer exatamente a mesma resposta para todas. Equidade significa reconhecer as diferenças para garantir direitos.

Quando a desigualdade parece normal

Vamos agora para o pensamento de um homem.

Pierre Bourdieu nos ajuda a compreender outra dimensão importante: a dominação simbólica.

Nem toda violência é explícita.

Existem ideias que são repetidas tantas vezes que passam a parecer naturais.

E aqui estão algumas frases naturalizadas socialmente:

“Mulher tem que aguentar.”

“Isso é obrigação de mãe.”

“Ele é assim mesmo.”

“Ela deveria ter saído antes.”

“Mulher sozinha não consegue.”

Essas frases ajudam a reproduzir uma cultura de desigualdade.

Aquilo que é repetido passa a parecer natural.

Aquilo que parece natural deixa de ser questionado.

E aquilo que não é questionado pode continuar reproduzindo desigualdades.

Por isso, combater a violência contra as mulheres também significa combater aquilo que a sociedade aprendeu a considerar normal.

Precisamos sempre de:

Campanhas educativas.

Formação de profissionais.

Educação para relações respeitosas.

Informação.

Participação social.

Tudo isso também é prevenção.

E quem está ficando de fora?

Judith Butler acrescenta outra provocação importante: precisamos questionar os padrões sociais que definem quem é considerado “normal”, “adequado” ou “aceitável”.

Para uma política pública, essa reflexão pode se transformar em uma pergunta extremamente objetiva:

Quem está ficando de fora da nossa política?

Quem não consegue chegar ao serviço?

Quem não compreende a linguagem utilizada?

Quem não consegue acessar o prédio?

Quem não possui transporte?

Quem não tem com quem deixar os filhos?

Quem depende financeiramente do agressor?

Quem não consegue acessar uma informação digital?

Quem não se reconhece na comunicação institucional?

Quem não consegue participar?

É nesse ponto que a teoria encontra a gestão pública.

Uma política pública começa a ser realmente inclusiva quando passa a fazer essas perguntas.

Talvez esse seja o grande legado de Gloria Gloria Steinem não deixou apenas livros.

Deixou perguntas.

Deixou movimentos.

Deixou organizações.

Deixou gerações de mulheres que passaram a ocupar espaços que antes lhes eram negados.

Ela foi uma das figuras centrais do movimento feminista norte-americano e cofundadora da revista Ms., além de ter participado da criação de organizações voltadas à participação política e aos direitos das mulheres.

Em 2013, recebeu a Medalha Presidencial da Liberdade, uma das maiores honrarias civis dos Estados Unidos.

Mas talvez seu legado mais importante esteja justamente na capacidade de fazer uma questão individual tornar-se uma questão política.

Aquilo que parecia “problema de uma mulher” passou a ser compreendido como parte de uma estrutura social.

E essa mudança de olhar é profundamente importante para quem trabalha com políticas públicas.

Porque quando uma questão individual passa a ser compreendida como uma questão coletiva, o Estado também precisa começar a pensar em respostas coletivas.

Da assistência à transformação

Quando aproximamos Gloria Steinem de Heleieth Saffioti, bell hooks, Angela Davis, Pierre Bourdieu e Judith Butler, encontramos perspectivas diferentes, mas que podem conversar entre si.

Steinem nos provoca a pensar em autonomia.

Saffioti, em estrutura e relações de poder.

Bourdieu, em dominação simbólica.

Bell hooks, em interseccionalidade e transformação social.

Angela Davis, nas relações entre gênero, raça, classe e poder.

Judith Butler, nas normas e exclusões produzidas socialmente.

Juntas, essas perspectivas nos ajudam a construir uma concepção mais ampla de política pública.

Uma política que não apenas atende.

Uma política que previne.

Uma política que não apenas protege.

Uma política que emancipa.

Uma política que não apenas identifica vulnerabilidades.

Uma política que cria condições para que as pessoas desenvolvam autonomia.

É aqui que, para mim, está uma das grandes mudanças que precisamos fazer. Não basta perguntar quantas mulheres atendemos.

Precisamos perguntar quantas mulheres conseguiram, a partir desse atendimento, ampliar suas possibilidades de escolha.

Não basta oferecer proteção.

Precisamos construir condições para que essa proteção não seja necessária para sempre.

Não basta responder à emergência.

Precisamos trabalhar para transformar as condições que produzem a emergência.

O desafio que fica

Talvez seja justamente por isso que a morte de Gloria Steinem seja uma oportunidade para pensar.

Não apenas para homenageá-la.

Mas para perguntar:

O que ainda não conseguimos transformar?

Quantas mulheres continuam sem renda?

Quantas continuam sendo controladas dentro de suas próprias casas?

Quantas não conseguem romper uma relação violenta porque dependem economicamente?

Quantas não chegam aos serviços públicos?

Quantas mulheres com deficiência ainda enfrentam barreiras?

Quantas mães cuidadoras abriram mão da própria vida profissional?

Quantas mulheres ainda não ocupam os espaços onde as decisões são tomadas?

E quantas políticas públicas estamos construindo para mudar essas realidades? Essas perguntas não pertencem apenas ao feminismo.

Pertencem à sociedade.

Pertencem ao Estado.

Pertencem às cidades.

Pertencem a todos nós.

E a morte não encerra a conversa.

Talvez seja justamente agora que precisamos continuar conversando.

Porque o melhor tributo que podemos prestar a uma mulher que dedicou a vida à transformação social não é apenas lembrar seu nome.

É continuar fazendo perguntas.

É continuar incomodando estruturas.

É continuar abrindo portas.

É continuar criando oportunidades.

É continuar construindo políticas públicas.

E, sobretudo, é continuar trabalhando para que uma mulher não precise ser vítima para ser vista, protegida ou ouvida.

Que possamos transformar o legado de Gloria Steinem em uma pergunta permanente:

O que ainda precisamos mudar para que todas as mulheres possam viver com dignidade, autonomia e liberdade?

Se quiser conhecer Gloria Steinem pelos livros

Para quem, depois desta reflexão, quiser conhecer um pouco mais de Gloria Steinem, seus livros podem ser uma boa porta de entrada.

Não é preciso começar por todos. Cada obra permite olhar para uma dimensão diferente de seu pensamento.

Se você quer conhecer o feminismo político de Gloria Steinem:

Outrageous Acts and Everyday Rebellions (1983) reúne ensaios e textos sobre feminismo, desigualdade, experiências das mulheres, sexualidade, trabalho e relações de poder. É uma boa porta de entrada para compreender como Steinem transformava experiências individuais em questões sociais e políticas.

Se você quer refletir sobre autonomia e identidade:

Revolution from Within: A Book of Self-Esteem (1992) discute autoestima, identidade e autonomia, mostrando como padrões sociais e relações de poder também podem interferir na maneira como uma mulher percebe seu próprio valor e sua capacidade de escolha.

Se você quer pensar sobre poder, idade, corpo e desigualdade:

Moving Beyond Words: Age, Rage, Sex, Power, Money, Muscles (1994) amplia a discussão para temas como idade, gênero, poder, dinheiro, corpo e expectativas sociais. É uma leitura que ajuda a compreender como diferentes dimensões da vida podem atravessar a experiência das mulheres.

Se você quer conhecer a mulher por trás da ativista: My Life on the Road (2015) é uma obra autobiográfica em que Steinem revisita sua trajetória, suas viagens e os encontros que marcaram sua vida. É também uma forma de perceber como experiências pessoais e encontros com diferentes pessoas contribuíram para a construção de seu pensamento.

Se você quer uma leitura mais provocadora: The Truth Will Set You Free, But First It Will Piss You Off! (2019) reúne pensamentos e reflexões de Gloria Steinem sobre vida, relações, patriarcado, ativismo e transformação social. É uma leitura que combina muito com a proposta deste texto: algumas verdades precisam primeiro nos incomodar para depois nos transformar.

Talvez seja justamente essa a melhor forma de ler Gloria Steinem: não procurando apenas respostas, mas permitindo que suas perguntas encontrem as nossas.

E talvez, ao terminar um desses livros, uma nova pergunta apareça.

E isso já será parte do legado.

Uma última provocação

Talvez Gloria Steinem tenha nos ensinado que uma vida não é medida apenas pelo tempo que dura, mas pelas perguntas que continua provocando depois que termina.

E algumas perguntas não envelhecem.

Elas apenas mudam de mãos.

Talvez essa seja a nossa responsabilidade agora.

Gloria nos deixou perguntas.

O que faremos com elas?

“Morrer parece menos triste do que ter vivido muito pouco.”

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