quinta-feira, 04 de junho de 2026
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Antônio Carlos Roxo

O agro é pop!?

Antônio Carlos Roxo expõe o paradoxo de um setor que se beneficia da pesquisa estatal e de planos bilionários enquanto prega a redução do Estado.

Por Antônio Carlos Roxo | Atualizado em: 29/08/2025 13:38
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A força da cadeia produtiva da agropecuária brasileira é extraordinária, com um avanço de produtividade alicerçado em desenvolvimentos tecnológicos.

A evolução foi muito rápida. Milho e soja, só para exemplificar, rapidamente se posicionaram na linha de frente mundial em volume e produtividade.

Em São Paulo, apesar do PIB robusto do estado, o setor agro não aparece em grande destaque, embora tenha presença marcante em vários produtos — com ênfase no complexo sucroalcooleiro, que responde por mais de 60% da produção nacional.

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Na produção de soja, milho e algodão, os gigantes são outros estados, verdadeiros exemplos de avanço produtivo, cujas necessidades e demandas são regulamentadas em nível federal.

O Zoneamento Agrícola de Risco Climático (ZARC), do MAPA (Ministério da Agricultura e Pecuária), é um modelo agrometeorológico definido a partir de variáveis determinantes para o desenvolvimento da produção, como temperatura, chuvas, umidade relativa do ar, ocorrência de geadas e estiagens, disponibilidade de água e estrutura do solo. Seu objetivo é reduzir os riscos climáticos e orientar a escolha do momento ideal para o plantio, considerando a região, o produto e o solo.

Dentro deste escopo, existe o vazio sanitário: um período sem plantio entre duas safras. Trata-se de um descanso da terra para diminuir a incidência de pragas e doenças, sendo uma forma eficaz de combate à ferrugem, pois reduz a necessidade de aplicações de fungicidas e a resistência aos produtos utilizados em seu controle.

A alta eficiência produtiva e tecnológica, somada ao predomínio da agricultura de larga escala, que transformam o país em um dos maiores produtores mundiais de alimentos, têm seu principal exemplo no Mato Grosso (MT).

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Em 19/08/23, o MAPA autorizou a semeadura de soja a partir de 1º/09/2023, atendendo a um pedido da AMPA (Associação Mato-grossense dos Produtores de Algodão). Em resposta, a Aprosoja-MT (Associação dos Produtores de Soja e Milho de Mato Grosso) emitiu um manifesto de protesto, afirmando que o vazio sanitário de 90 dias seria mais eficaz contra a proliferação da ferrugem asiática. A previsão anterior para o plantio era 16 de setembro, o que representa uma antecipação de 15 dias.

É notável o grau de conhecimento técnico, meteorológico e produtivo do setor. A eficiência do processo é tal que duas associações do mesmo campo se confrontam por uma diferença de 15 dias no calendário de semeadura — um período que, para elas, faz toda a diferença.

Isso demonstra a sofisticação do agro, do plantio à colheita, com cada decisão sendo milimetricamente acompanhada. Não há dúvidas de que o agro é extremamente evoluído. Mas, a que custo?

A Embrapa (uma estatal) teve e tem um papel fundamental nas pesquisas e no desenvolvimento de sementes e práticas agrícolas adequadas a cada tipo de solo, com repercussões positivas em toda a cadeia produtiva do agronegócio.

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Já a Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) propõe, para o Plano Safra 2025/2026, R$ 599 bilhões sem recursos. Desse total, R$ 25 bilhões seriam destinados à equalização de juros, R$ 417 bilhões para o custeio e comercialização e R$ 180,1 bilhões para investimentos, com taxas de juros anuais variando entre 0,5% e 6%.

O que causa espanto é que, apesar dessas benesses financiadas com recursos de impostos, é justamente no agro que se situam os maiores defensores do “Estado Mínimo”, ou seja, da redução drástica do papel do Estado.

Como, então, afirmar que o agro não depende da intervenção do setor público? A questão parece se resumir, hipocritamente, à defesa de um Estado Mínimo para políticas sociais (enquanto o Brasil tem um dos piores índices de desigualdade do mundo). No entanto, para atender ao próprio agro, a pedida por recursos públicos é cada vez maior, uma voracidade permanente que conta com apoio parlamentar irrestrito.

Já imaginaram se tais montantes de recursos, a custos tão baixos, fossem destinados ao financiamento da indústria nacional? Seríamos ou não uma potência industrial mundial?

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Autor

  • Antônio Carlos Roxo é Economista pela Universidade Federal de Juiz de Fora, mestre pela Universidade Federal de Minas Gerais e doutor pela Universidade de São Paulo.

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