quarta-feira, 03 de junho de 2026
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Gleides Sodré

O despertar dos portões: a escola como colo, direito e resistência feminina

"Para a criança, atravessar o portão da escola é descobrir que o mundo é vasto e que o outro — o colega, o professor, o funcionário — é um espelho onde ela começa a desenhar sua própria identidade", escreve Gleides Sodré em novo artigo.

Por Gleides Sodré | Atualizado em: 27/02/2026 08:02
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O início de um novo ano letivo é, essencialmente, um rito de esperança. Para a criança, atravessar o portão da escola é descobrir que o mundo é vasto e que o outro — o colega, o professor, o funcionário — é um espelho onde ela começa a desenhar sua própria identidade. Não se trata apenas de alfabetizar letras, mas de alfabetizar afetos, ensinando que o conhecimento é a chave para a liberdade. É nesse ecossistema que a curiosidade se transforma em ferramenta de compreensão, garantindo que o desenvolvimento seja um abraço coletivo, onde o “eu” se fortalece no encontro com o mundo.

No coração dessa estrutura, é preciso dar nome e rosto a quem sustenta o chão da educação: as professoras. A escola brasileira é um território majoritariamente feminino, e reconhecer isso é entender que o ato de ensinar é, também, um ato político de cuidado. Quando valorizamos o magistério, estamos fortalecendo a caminhada de mulheres que educam os filhos de outras mulheres. Esse encontro de trajetórias femininas dentro do ambiente escolar cria uma rede de espelhamento e sororidade institucional, onde o zelo pedagógico se torna a base para que toda a sociedade possa avançar.

No entanto, para as mães, o sino da escola toca um acorde de sobrevivência. Em uma sociedade que ainda romantiza o sacrifício feminino enquanto negligencia as responsabilidades do cuidado, a escola se ergue como o mais poderoso aliado. Ela é a fissura no sistema que permite que a mulher deixe de ser apenas “função” para voltar a ser “sujeito”. Quando uma escola abre suas portas, ela oferece um chão firme para aquela que caminha sobre a corda bamba da exaustão para equilibrar sonhos, trabalho e a gerência solitária da vida.

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A urgência dessa rede é traduzida em números que expõem a ferida da desigualdade. Segundo dados do IBGE (2025), as mulheres dedicam, em média, 21,3 horas semanais ao cuidado de pessoas e afazeres domésticos — quase o dobro dos homens. Esse abismo é o que mantém 57% das mães solo à margem do mercado formal, conforme o Ministério das Mulheres. Para a mãe que cria sozinha, a ausência da escola não é apenas um atraso educativo para o filho, mas o silenciamento de sua autonomia e a interdição de seu direito ao trabalho e à dignidade econômica.

Essa caminhada, que começa no acolhimento da educação infantil, deve se estender com vigor até a formação para o mercado de trabalho. Ao fortalecer o ensino em todas as suas etapas, criamos um ciclo de emancipação: a criança que hoje é cuidada e estimulada será o jovem que amanhã ocupará espaços de decisão com autonomia. Esse processo fortalece a todos — a mãe que pode trabalhar, a professora que exerce sua vocação com dignidade e o aluno que cresce entendendo que a educação é o caminho para romper ciclos de precariedade.

É necessário, portanto, politizar o afeto. A escola organiza a família porque, primeiro, ela humaniza a jornada da mulher. Para a mãe trabalhadora, a escola é o tempo de respirar, de buscar o pão, ou simplesmente de existir além da maternidade. Esse tempo de “escola viva” permite que o reencontro ao fim do dia não seja apenas um encontro de cansaços, mas um momento de qualidade. Investir em uma educação pública, integral e de qualidade é o ato mais profundo de justiça social; é garantir que a maternidade não seja um caminho de solidão, mas um exercício compartilhado de amor, cidadania e liberdade.

Autor

  • Gleides Sodré é Vice-Presidenta do PDT/SP e Presidenta Estadual da Ação Mulher Trabalhista (AMT), liderando o partido em Taboão da Serra. Como Chefe de Gabinete da Prefeitura de Cotia e Presidenta do Fundo Social de Solidariedade, ela conjuga sua expertise política com a atuação como ativista social, defendendo pautas de transformação e dignidade.

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