quarta-feira, 03 de junho de 2026
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Bruno Sindona

O país que nunca para de votar

"A democracia não se sustenta só no barulho das campanhas. Ela precisa também do silêncio do trabalho. Porque um país que vive em campanha permanente está sempre às voltas com o próximo embate — e nunca com o próximo avanço", escreve Bruno Sindona em sua coluna no Visão Oeste.

Por Bruno Sindona | Atualizado em: 08/08/2025 16:57 Siga-nos no Google News
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No Brasil, as eleições parecem nunca terminar. Mal se encerram as urnas, já começam as especulações para o próximo pleito. Ministros, deputados, governadores, influenciadores e até prefeitos de cidades médias se lançam na corrida presidencial antes mesmo de enfrentarem os desafios reais de seus cargos. O resultado é um país que fala muito de poder, mas avança pouco. Um Brasil que vota demais e governa de menos.

Criou-se a cultura da campanha permanente. A política passou a ser um espetáculo contínuo, alimentado pelas redes sociais, pelos bastidores e pelos discursos diários que colocam a disputa acima do projeto. O tempo de trabalhar virou tempo de palanque. E isso não é saudável para uma democracia que ainda amadurece.

Debater ideias e cobrar resultados é essencial. Mas transformar a eleição em obsessão — ou em carreira — é perigoso. Quando os agentes públicos vivem para a próxima disputa, deixam de viver o presente. E abandonam o que realmente importa: governar.

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Essa politização constante traz consequências sérias. Gera instabilidade institucional, paralisa reformas estruturais e esgota a paciência da população. O cidadão, convocado a tomar partido o tempo todo, muitas vezes só quer ver o país funcionar.

Em democracias mais maduras, o debate eleitoral tem hora para começar e para terminar. Nos Estados Unidos, por exemplo, a corrida presidencial aquece de fato nos 18 meses anteriores ao pleito. Antes disso, o foco está no governo. Na Europa, governos — mesmo sob críticas — têm tempo para mostrar a que vieram. E a oposição, tempo para preparar suas propostas.

O Brasil precisa reencontrar esse equilíbrio. É preciso respeitar os ciclos democráticos: eleição, governo, oposição, nova eleição. Quando esses ciclos se misturam, todos perdem. A política perde profundidade, os governos perdem rumo e o povo perde a paciência.

Está na hora de firmarmos um pacto pela governabilidade. Não importa quem vença: é preciso permitir que governe. Isso não significa silenciar a crítica, mas garantir espaço para que a política pública aconteça — longe do ruído incessante das urnas.

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Essa responsabilidade é de todos. Do Judiciário, que às vezes extrapola seu papel. Da imprensa, que muitas vezes vive do conflito. Dos partidos, que parecem mais interessados em estratégias do que em ideias. E de nós, cidadãos, que muitas vezes alimentamos esse ciclo.

A democracia não se sustenta só no barulho das campanhas. Ela precisa também do silêncio do trabalho. Porque um país que vive em campanha permanente está sempre às voltas com o próximo embate — e nunca com o próximo avanço.

 

Autor

  • Bruno Sindona é empreendedor de impacto, membro do Conselho de Desenvolvimento Econômico Social Sustentável da Presidência da República e nascido em Osasco. Atua na transformação urbana com projetos que unem estética, dignidade e propósito coletivo

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