Paisagem da janela
"Ao longo das últimas quatro décadas, pude acompanhar o surgimento e o desenvolvimento de partidos políticos, a ascensão e queda dos principais atores e atrizes do cenário de uma política que é local, mas reflete, como um espelho, as relações de poder em âmbito nacional", escreve o sociólogo Marcos Agostinho em sua coluna no Visão Oeste.

“Cavaleiro marginal, banhado em ribeirão
Conheci as torres e os cemitérios
Conheci os homens e os seus velórios
Quando olhava da janela lateral
Do quarto de dormir
Você não quer acreditar
Mas isso é tão normal”
Paisagem da janela,
de Lô Borges e Fernando Brant.
E rapidamente passaram-se 35 anos desde que, em 1990, comecei a pensar em trabalhar com pesquisa e análise de dados. Dados socioeconômicos, território e territorialidade eram meus focos. O recorte político e a escolha do espaço para viver essa trajetória deram-se a partir do círculo concêntrico Osasco/Carapicuíba: um pedaço do Brasil, uma amostra em todos os níveis das diversas facetas de um país.
Ao longo das últimas quatro décadas, pude acompanhar o surgimento e o desenvolvimento de partidos políticos, a ascensão e queda dos principais atores e atrizes do cenário de uma política que é local, mas reflete, como um espelho, as relações de poder em âmbito nacional.
Sou do tempo em que tirávamos “foto 3×4” para colar no título de eleitor, e o voto era só aos 18 anos. Em 1982, aos 15 anos, a pedido de um amigo, fui distribuir panfletos na campanha para vereador de uma liderança do Movimento Negro em SP, candidato em Carapicuíba pelo PMDB. Esse mesmo amigo entrou para o PT e, em 1988, tornou-se, ele mesmo, vereador.
Àquela altura do campeonato, eu já integrava a chapa da oposição ao Sindicato dos Eletricitários de SP, então dirigido por aquele que seria o Ministro do Trabalho de Collor de Mello. Por ter sido liderança estudantil secundarista de certa relevância entre 1984 e 1986, ao ingressar na universidade em 1987, a corrente política do PT na qual militava deliberou que eu migrasse para o Movimento Estudantil Universitário.
Naquele momento, eu nutria profundas divergências com a direção da corrente política, pois acreditava que ela deveria se desvincular e montar um novo partido. Mesmo não querendo, depois tiveram que fazê-lo, só não sei se antes ou depois de serem expulsos.
Havia ainda outra divergência: minha posição era que a corrente deveria investir e me fortalecer dentro do movimento sindical, não necessariamente para meu benefício, mas por perceber a importância do momento político histórico vivenciado, posto que a eleição do Sindicato dos Eletricitários de SP, realizada em 1989, meses antes da eleição presidencial, teria sido um termômetro da cooptação dos trabalhadores para um projeto de país que, em um período muito curto, foi possível provar ser um fracasso.
E Antônio Rogério Magri, aquele que ficou conhecido como o precursor do “sindicalismo de resultados”, e também por dizer que o Plano Collor era “imexível” e que teve sua fama levada à ruína por entender que “cadela também é gente”, pelos serviços ganhou o posto máximo do Ministério do Trabalho!
A concessão dos serviços de distribuição de energia elétrica da Light and Power Company – que durou de 1880 a 1980 – foi interrompida quando Paulo Maluf deu uma de suas famosas “malufadas” ao adquirir para o estado aquela que viria a ser a Eletropaulo – hoje parte do sistema regulado pela ANEEL. Em 1982, dois anos depois, entrei nessa empresa e lá atuei por 9 anos, dentre outros cargos, como técnico em eletricidade na área de concessão denominada “Superintendência Regional Sudoeste” – que hoje abrange os Municípios que fazem parte de dois Consórcios intermunicipais: CIOESTE e CONISUD. A função exercida muito contribuiu com minha formação como sociólogo e cientista político – foi aí que tive contato mais de perto com a administração pública e a política.
Fosse eu historiador, teria todo o cuidado, e dever por ofício, de colocar em ordem cronológica o desenrolar do que vi e vivi na política eleitoral a partir desse período.
Sou do tempo de Francisco Rossi de Osasco – aquele da famosa música “Segura na mão de Deus”, que só perde em popularidade para o “Ei, ei, ei, Eymael, o Democrata Cristão”. Essa mesma Osasco que gerou um Presidente da República por uns dias e que já foi a cidade sede de uma região que outrora recebeu de Geraldo Alckmin a alcunha de “cinturão vermelho”.
Os nomes, as pessoas citadas aqui, de projeção nacional, são acompanhados de tantos outros líderes paroquiais, não menos importantes, e que ilustram momentos históricos do país no que diz respeito ao domínio político durante um período de determinado partido político. Falo isso ao me deparar com o momento atual daquela que foi uma das maiores agremiações políticas do país: o PSDB!
Um partido que já ocupou a Presidência da República, o governo dos principais estados do Brasil, capitais, a Presidência do Congresso Nacional… Hoje definha e em breve será incorporado ao Podemos, outrora PTN, que já foi chamado de partido “nanico” e cresceu graças a um “Projeto Vitória”, em coligação com tantos outros “nanicos” capitaneados por sua maior liderança, Renata Abreu, filha de José de Abreu, ex-deputado federal por São Paulo e fundador do Centro de Tradições Nordestinas (CTN). A ascensão desse partido, que cresce sob a batuta de uma liderança feminina, tem tudo a ver com a conquista de duas prefeituras que simbolizam a região: Osasco e Itapevi. Essas conquistas contribuíram para a ocupação de mais espaço político e fortalecimento do agora PODEMOS.
Por muitos anos, o PMDB dominou o cenário político nacional. E assim também na região metropolitana oeste de SP. Guaçu Piteri em Osasco, Furlan em Barueri, Beto Piteri em Jandira, Luiz Carlos Neves em Carapicuíba, Mário Ribeiro em Carapicuíba, Silas em Itapevi, e assim por diante. Em seguida, o PSDB dominou a cena, com Celso Giglio, Fuad, Furlan, Braz Paschoalin, João Caramez, Carlão Camargo, Roque de Moraes, Raul Bueno e suas respectivas cidades de Osasco, Carapicuíba, Barueri, Jandira, Itapevi, Cotia, Vargem Grande Paulista, Pirapora do Bom Jesus…
Acompanhei do nascedouro a ascensão de João Caramez, ex-prefeito de Itapevi, que sucessivamente elegeu Sérgio Montanheiro e, em seguida, sua esposa Dalvani Caramez para ocupar a cadeira majoritária da cidade; chegou a ser Secretário da Casa Civil durante o Governo Mário Covas. Como na política não há espaço para ser “emocionado”, é com naturalidade que cientistas políticos, profissionais como eu, são valorizados por gerar dados e análises que podem auxiliar na chegada ao poder, mas que, em outro momento, apontam a possível derrocada desta ou daquela liderança.
João Paulo e Emídio em Osasco, Sérgio Ribeiro em Carapicuíba, Dra. Ruth em Itapevi, Bananinha em Pirapora do Bom Jesus, Geraldinho em Embu das Artes, Paulinho Bururu em Jandira… a “era PT” com seu “cinturão vermelho” dominou por uma década, começando a ruir com o surgimento de jovens e ambiciosas lideranças que, distraídas e descontraídas, alcançaram o poder no lastro de leituras equivocadas da conjuntura, causada talvez pelo distanciamento das bases na mesma medida em que lideranças foram absorvidas pela política institucional e máquinas de governo.
Igor Soares em Itapevi e Rogério Lins em Osasco são símbolos da projeção do PODEMOS de Renata Abreu, um partido que ocupou um espaço que já pertenceu a PMDB, PSDB e PT e que agora alavanca a ascensão de novas lideranças. Novos também na faixa etária, prefeitos e lideranças que, se não pertencem ao mesmo partido, trazem ao menos o mesmo perfil, ocupando espaços das gerações anteriores, como Marcos Neves, Elvis Cezar, Gregório Maglio, Formiga, Danilo Joan… de Carapicuíba, Santana de Parnaíba, Pirapora do Bom Jesus, Cotia e Cajamar.
Parece-me que esse é o tempo em que os partidos têm menos importância do que as lideranças. O individual se sobrepõe ao coletivo. O conjunto de ideias de uma agremiação política não consegue mais se sobrepor ao desempenho e à influência pessoal de uma candidatura. Pouco ou quase nada importa na hora da escolha do partido e suas “causas”. Cada vez mais, a depender da quantidade de tempo de permanência deste ou daquele no poder, as semelhanças se acentuam em práticas, formas e fins.
Na verdade, percebam, até mesmo a palavra “partido” paulatinamente tem desaparecido de suas denominações. São poucos os “Partidos disso ou daquilo”. E quem percebeu isso primeiro foram os partidos que buscam o “centro” como forma de sobrevivência. E, como paisagem da janela, eu assisto ao fim do PSDB que, para sobreviver, tem que morrer.
“Conheci os homens e os seus velórios”