Senhoriagem
Em novo artigo, Antônio Carlos Roxo analisa o privilégio do dólar após Bretton Woods e os impactos desse poder econômico nas relações internacionais.

Em 1944, com o fim da IIª Guerra Mundial próximo e a derrota iminente da Alemanha, reuniram-se em Bretton Woods os países aliados para definir o arcabouço financeiro do mundo pós-guerra. O economista inglês John Maynard Keynes, “criador” da Macroeconomia, já consagrado como o grande teórico do capitalismo e chefe da delegação inglesa, preocupado com o relacionamento econômico entre os países e com a necessidade de regular e estabelecer parâmetros para o equilíbrio do sistema, propôs a criação da International Clearing Union, com uma moeda internacional, o Bancor, neutra, sem beneficiar nenhum país. Sinteticamente, baseava-se no multilateralismo: os países não seriam permanentemente superavitários ou deficitários nas suas transações internacionais. As relações entre os países não deveriam ser um jogo de soma zero, um par ou ímpar entre países, isto é, um perde e outro ganha.
Os EUA, como o país que sairia da guerra vitorioso, sem perda da sua capacidade produtiva, credor dos demais, potência militar e econômica, através de seu representante Harry Dexter White, aproveitaram-se da fragilidade da Europa, se contrapuseram e impuseram o dólar como moeda internacional — nada neutra, muito pelo contrário —, durante alguns anos (até 1971) conversível em ouro, depois nem isso. O emissor soberano dessa moeda: os próprios EUA.
Ora, com a moeda internacional debaixo do braço, os EUA financiaram ao longo do tempo seus investimentos e déficits. Milton Friedman, prêmio Nobel de Economia em 1976, o guru conservador dos monetaristas, afirmou certa feita que os EUA não precisavam se preocupar com os déficits enquanto os demais países aceitassem o pagamento das suas dívidas em papel verde, o que o presidente da França, Charles de Gaulle, inconformado, denominou de “privilégio exorbitante”.
É fácil entender a sua indignação. O custo de impressão de uma nota de cem dólares é, talvez, dez centavos de dólar. Com isto, os EUA pagavam a dívida de US$ 100 com papel verde de custo de US$ 0,10. Este ganho é chamado de senhoriagem, um dos sustentáculos da gestação e permanência do seu poderio.
Eis por que Trump e sua corriola no Brasil defendem, a todo custo, o dólar como moeda internacional e fazem todo o empenho e terrorismo para minar a proposta de criação da moeda dos Brics.
Trump defender os interesses e os ganhos do dólar como moeda internacional, apesar de injusto, vá lá, é até compreensível. Agora, brasileiros que se dizem patriotas tentarem minar ou desacreditar a criação da moeda dos Brics (ou outras transações sem a utilização do dólar), ou é estupidez, ou burrice, ou traição à pátria — ou tudo isso junto e misturado!