quinta-feira, 04 de junho de 2026
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Antônio Carlos Roxo

SICED – modelo a ser seguido, nacional e internacional

Artigo do economista Antônio Carlos Roxo analisa o papel do SICED (Seminário Internacional de Comércio Exterior e Desenvolvimento Regional) na articulação entre academia, poder público e sociedade para promover desenvolvimento regional, inclusão social e justiça socioambiental.

Por Antônio Carlos Roxo | Atualizado em: 04/02/2026 18:25
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Em 2018, meu plano de trabalho como professor visitante da Eppen/Unifesp tinha como objeto contribuir para furar a bolha em que a academia muitas vezes se situa. Cabe à Universidade pesquisas de longo prazo, aquelas sem respostas imediatas para as demandas da sociedade. Entretanto, há necessidades específicas no presente, às quais não pode ficar insensível.

Betinho, o irmão do Henfil da canção “O bêbado e o equilibrista”, um dos hinos aglutinadores na luta contra a ditadura, ao voltar do exílio reconhecia a necessidade de mudanças estruturais no país, mas alertava que as pessoas passavam fome no aqui e agora, portanto precisavam de respostas sem “delongas”. Surge o programa Fome Zero.

Em decorrência de tais reflexões, criou-se o SICED – Seminários Internacionais de Comércio Exterior e Desenvolvimento Regional, que tem como fundamento juntar a Academia, o Poder Público, Empresas e Trabalhadores e suas entidades para diagnosticar e propor ações para o desenvolvimento socioambientalmente responsável. Nasceu internacional, com a presença marcante da Universidade de Coimbra/Portugal. Congrega os sócios do desenvolvimento, cada um com seus próprios objetivos, contribuindo para que suas ações sejam concretizadas para benefícios de todos.

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Não é jogo de soma zero, um ganha outro perde, mas sim um jogo de soma positiva, ganha, ganha, todos podem ganhar.

No mundo regido por um capitalismo (individualismo) selvagem, onde cada um pensa em seu próprio umbigo e interesses, o SICED pode e deve ser um exemplo a ser seguido, que beneficie ao conjunto da sociedade. Não é fácil, não foi fácil, nem o será no futuro. Problemas complexos exigem respostas complexas.

Neste período, foram realizados oito SICEDs, em cada ano realizando várias atividades, nas mais diferentes entidades, localidades e países, com seu encerramento em novembro.

Mesmo na Pandemia continuou ativo, tendo participado de pesquisa em edital realizado pelo MPF/SP, para diagnosticar os programas de atendimento aos vulneráveis, micro e pequenas empresas, “analisando como estão sendo empregados os recursos e fundos dirigidos a políticas compensatórias e anticíclicas”. Entre outras conclusões, apontava que exigências rígidas de cadastro negativo pelos bancos intermediários dos recursos governamentais eram contraditórias, pois inviabilizavam atingir aos que mais necessitavam de financiamento para pequenos negócios, privilegiando exatamente aos que, por terem cadastro bom, menos os necessitavam.

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Exemplo a ser seguido é o Parque Tecnológico Industrial del Cerro/Uruguai – PTIC, vinculado à Intendência (Prefeitura) de Montevidéu, que, a partir de área de frigorífico falido, no bairro mais pobre da cidade, a transformou em “instrumento de desarrollo, inclusión social y transformación territorial”, com 56 empresas e cerca de 1000 postos de trabalho. Em visita ao empreendimento junto com Mário Perez (vice-presidente para o Mercosul da Associação SICED), também da sua “Comisión Administradora”, seu presidente (Guilhermo Gonsalves), ao mostrar o rio na divisa e uma pequena aglomeração de casebres, disse sobre propostas de construção de muro para segregar as habitações, o que foi negado, dado que a missão era a inclusão daquela comunidade ao Parque. O papel do SICED é divulgar e transformar esta experiência em projetos para outros territórios. Em Osasco, tem toda a área ainda não ocupada da antiga Cobrasma, por que não mimetizar o Parque del Cerro e a transformar em polo tecnológico de economia solidária?

São Geraldo – pequeno município em Minas Gerais de 10.282 habitantes, pelo Censo de 2022 – com o fechamento da estrada de ferro Leopoldina, base de sua economia, entrara em depressão e, qual Fênix, surgiu das cinzas e se transformou em polo noveleiro. Hoje seus filhos não precisam, como antigamente, migrar, há empregos para todos. A cidade tem Departamento Cultural e de Turismo, cujo diretor participa do SICED. Tal transformação pode ser paradigma de reinvenção para tantos outros municípios, do Brasil e exterior!

O SICED se propõe a ser uma ponte entre quem pensa, quem decide e quem produz. Sua declaração de compromisso é enfática:

“A integração desejável dos países da América Latina (especialmente do Mercosul) passa pelo reconhecimento das diferenças culturais, econômicas e sociais, (…..) o que requer esforços/contribuições diferenciadas entre os países para que todos se beneficiem. Este é um processo eminentemente de construção de políticas públicas regionais. A estratégia de integração deve ter como centro a liberdade, a superação das desigualdades e o ser humano. Promover, para tanto, encadeamentos produtivos regionais como forma de propiciar uma inserção internacional com plataforma regional, funcional a uma visão de desenvolvimento com justiça social, econômica, ambiental e de gênero”.

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Autor

  • Antônio Carlos Roxo é Economista pela Universidade Federal de Juiz de Fora, mestre pela Universidade Federal de Minas Gerais e doutor pela Universidade de São Paulo.

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