Violência escolar: quando o silêncio também machuca
"Apesar do discurso de inclusão, ainda há um abismo entre o que se promete e o que se pratica. Alunos em situação de vulnerabilidade social, com deficiência, neurodivergência ou pertencentes a minorias étnicas e de gênero, muitas vezes, não encontram espaço real de pertencimento", escreve Solange Aroeira em sua coluna no Visão Oeste.

Estamos prestes a finalizar o primeiro semestre do ano letivo, e não faltam notícias nas mídias convencionais e nas redes sociais sobre a violência na escola, da escola e para a escola.
Participei, no ano passado, de um programa de televisão em que tentei explicar que não falamos apenas da violência na escola, mas das diversas formas de violência que a atravessam.
Todo começo de aula é assim: o som do sinal marca o início de mais um dia letivo. No corredor, vozes agitadas, mochilas arrastadas, professores tentando manter a ordem. Mas, por trás da rotina escolar, muitas vezes ecoa um barulho que não se ouve — o da violência invisível que circula pelos muros da escola.
Ela não se limita a agressões físicas. Está nos olhares que excluem, nas palavras que ferem, nas regras que oprimem, e até mesmo nas estruturas que falham em proteger. A escola é o reflexo de nossa sociedade — querendo você ou não, vou ser direta.
Afinal, são nossos filhos e netos que enviamos conscientemente para a escola, com o intuito de que adquiram conhecimento e aprendam a se organizar em grupo, ou seja, socializar. Ou haveria outros motivos?
Você pode até não concordar com a ideia apresentada neste texto, mas a educação (e, por extensão, a escola) é um reflexo da estrutura social, pois transmite os valores coletivos de uma sociedade.
Sendo a escola o reflexo da sociedade, uma vez que é para todos, podemos afirmar que nossa sociedade está, a cada dia, mais…
… Fragmentada?
A escola acolhe todos os sujeitos — com suas histórias, culturas, lutas e desigualdades — e espelha, de forma nítida, os desafios que enfrentamos como sociedade. Quando vemos o preconceito atravessar as relações dentro da sala de aula, quando crianças e adolescentes naturalizam a exclusão, quando há silenciamento de vozes dissidentes, isso tudo revela uma sociedade ainda marcada por divisões profundas.
… Desigual?
Apesar do discurso de inclusão, ainda há um abismo entre o que se promete e o que se pratica. Alunos em situação de vulnerabilidade social, com deficiência, neurodivergência ou pertencentes a minorias étnicas e de gênero, muitas vezes, não encontram espaço real de pertencimento. A escola universaliza o acesso, mas ainda caminha lentamente na garantia da permanência com equidade e dignidade.
… Intolerante?
Em um tempo em que a diversidade se torna cada vez mais visível e reivindica reconhecimento, cresce também o discurso de ódio e a dificuldade em lidar com o diferente. A escola, como espaço plural, torna-se campo de disputas. Se nela surgem as primeiras manifestações de empatia e respeito, também podem emergir os primeiros traços de discriminação — o que reflete o nível de intolerância que se espalha no tecido social.
… Desafiada?
A escola carrega o peso de corrigir injustiças históricas e, ao mesmo tempo, preparar para um futuro incerto. Espera-se que forme cidadãos críticos, éticos e comprometidos com o bem comum. Mas como fazer isso em contextos de precarização, violência e desvalorização? A sociedade deposita na escola uma expectativa imensa — muitas vezes sem oferecer as condições necessárias para que ela cumpra seu papel transformador.
A violência escolar, infelizmente, não é um fenômeno novo. O que muitos ainda não compreendem é que ela assume múltiplas faces. Especialistas a dividem em três dimensões fundamentais: violência na escola, da escola e para a escola.
Violência na escola: entre alunos, entre paredes
Essa é a face mais conhecida. Acontece dentro dos muros escolares, entre alunos, professores e funcionários. São os casos de bullying, agressões verbais e físicas, ameaças, furtos e vandalismo. É a violência visível, noticiada, gravada em celulares. Mas ela também pode ser sutil, como o isolamento social imposto a um aluno neurodivergente ou os xingamentos disfarçados de “brincadeira”.
Violência da escola: quando a instituição também fere
Pouco se fala, mas a própria escola pode ser agente de violência. Quando uma professora grita com os alunos diariamente, quando um estudante é punido por se expressar, ou quando a gestão silencia denúncias de racismo ou capacitismo, temos o que os estudiosos chamam de violência institucional. A violência da escola se manifesta por meio de práticas pedagógicas excludentes, discursos autoritários, negação do direito à escuta e à diferença. É quando a escola, que deveria ser espaço de acolhimento e emancipação, se torna um ambiente de opressão e medo.
Violência para a escola: o abandono das políticas públicas
Já a violência para a escola é aquela que vem de fora para dentro. É o reflexo do abandono estatal, da falta de investimento em educação, da precarização das condições de trabalho dos professores, da ausência de políticas públicas para lidar com a diversidade, a pobreza e a saúde mental. É quando a escola recebe alunos em sofrimento sem apoio, sem profissionais de suporte como assistentes sociais e psicólogos. É quando vemos docentes e gestores adoecendo sem estrutura, e a falta de itens básicos como merenda, papel, salários dignos e segurança. Essa violência atinge a escola como instituição e, indiretamente, todos os que fazem parte dela.
Combater a violência escolar — em todas as suas formas — é um desafio que exige sensibilidade, formação contínua, articulação comunitária e políticas públicas consistentes.
Mas, sobretudo, exige vontade de transformação. Porque a escola, antes de tudo, deve ser um espaço de dignidade. E dignidade não se ensina com palavras. Ensina-se com exemplo.
Combater a violência em todo o contexto escolar exige mais do que câmeras e punições. Requer um olhar sensível, políticas públicas eficazes, formação continuada para educadores, escuta ativa dos estudantes e envolvimento das famílias. Precisamos de escolas que sejam democráticas, inclusivas e seguras — não só fisicamente, mas emocional e simbolicamente. É tempo de entender que o problema não está apenas “no aluno difícil” ou “na falta de limites”.
A violência escolar é um reflexo das desigualdades sociais, do racismo estrutural, do capacitismo, do machismo e da negação da diversidade. É um espelho do que somos — e também daquilo que podemos transformar.
O primeiro passo? Falar sobre isso. Quebrar o silêncio que também machuca.