sábado, 18 de julho de 2026
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Cidades

Vítima de violência doméstica se torna voz do 190 e ajuda mulheres em situação de risco

Após sofrer violência doméstica, cabo da Polícia Militar de São Paulo transformou a própria história em apoio a mulheres atendidas pelo 190.

Por Aline Ferrari | Atualizado em: 14/03/2026 13:00 Siga-nos no Google News
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A história da cabo Kátia Cilene, da Polícia Militar do Estado de São Paulo, é marcada por superação e resiliência. Vítima de violência doméstica no início da vida adulta, ela transformou a própria experiência em força para ajudar outras mulheres e se tornou uma das vozes de atendimento do telefone de emergência 190.

Hoje, após quase três décadas de carreira na corporação, a policial também atua na formação de novos agentes, levando para a sala de aula a importância de um atendimento humanizado em situações de emergência.

Da violência doméstica à carreira policial

Natural de Recife (PE), Kátia se mudou ainda jovem para São Paulo com o então marido. Grávida do primeiro filho aos 19 anos, ela vivia uma rotina marcada por controle e violência psicológica. Impedida de trabalhar, dedicava-se exclusivamente à casa e aos filhos.

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“Eu achava normal. Pensava que precisava melhorar e que a culpa era sempre minha”, relembra.

A mudança começou de forma inesperada. Em um dia em que o marido havia saído com as crianças para a escola, Kátia aproveitou a oportunidade para sair de casa escondida. Como a porta permanecia trancada, precisou pular a janela para ir ao centro da cidade procurar emprego.

No caminho, encontrou duas jovens com um jornal de classificados e descobriu que elas iriam se inscrever para o concurso da chamada “Polícia Feminina”, denominação usada na época para o ingresso de mulheres na corporação.

Com o dinheiro que tinha apenas para a passagem, decidiu fazer a inscrição. A partir daquele momento, passou a se preparar para o concurso em segredo, com medo de ser impedida de continuar.

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Aprovação no concurso agravou agressões

A aprovação no processo seletivo trouxe esperança, mas também aumentou as tensões dentro de casa.

Quando iniciou o curso de formação na Polícia Militar, Kátia ainda enfrentava episódios de violência física e psicológica. Mesmo assim, seguiu determinada a concluir a formação.

Durante os oito meses de treinamento, conciliava os estudos com a rotina dos filhos, contando com o apoio fundamental de uma tia, que ajudava a cuidar das crianças.

Na corporação, encontrou também o incentivo de colegas. Uma companheira de turma costumava lhe dar um conselho que marcou sua trajetória: guardar os problemas no armário, vestir o uniforme e seguir em frente.

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Kátia concluiu o curso como quarta colocada da turma e iniciou a carreira no Copom (Centro de Operações da Polícia Militar), onde passou 28 anos atuando no atendimento do telefone de emergência 190, tornando-se uma das vozes responsáveis por orientar e socorrer pessoas em situações de risco.

Reconhecimento da violência veio décadas depois

Apesar de trabalhar diretamente com ocorrências relacionadas à violência doméstica, Kátia levou muitos anos para reconhecer que também havia sido vítima desse tipo de situação.

A compreensão veio apenas em 2023, durante a participação em um curso da Cabine Lilás, iniciativa voltada ao atendimento especializado de mulheres vítimas de violência dentro do sistema de emergências da Polícia Militar.

Durante as aulas, ministradas por psicólogas, promotoras e representantes da Defensoria Pública, ela passou a reconhecer nos relatos e nas explicações os mesmos ciclos de violência que havia vivido no passado.

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“Eu me identifiquei e percebi que tinha passado por tudo aquilo por muitos anos”, contou.

Kátia chegou a atuar por mais de um ano na própria Cabine Lilás, atendendo mulheres em situação de violência e utilizando sua experiência pessoal para acolher e orientar vítimas que buscavam ajuda pelo telefone.

Em muitas ligações, fazia uma pergunta simples, mas fundamental: “Você falou do seu marido, dos seus filhos, mas e você?”. Para ela, muitas mulheres acabam se anulando dentro da família e deixam de reconhecer a própria identidade e autonomia.

Formação de novos policiais

Atualmente, prestes a completar 30 anos de carreira na Polícia Militar, Kátia atua na formação de novos agentes.

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Ela leciona Tecnologia, Informação e Comunicação na Escola Superior de Soldados (ESSd) e também ministra aulas de Direitos Humanos no Comando de Policiamento de Choque (CPChq).

Nas aulas, reforça a importância de um atendimento técnico, mas também humano, especialmente para quem procura ajuda em momentos de crise.

“Quem liga para o 190 está em um momento de desespero. Às vezes é a única chance que aquela pessoa tem”, afirma.

Uma trajetória de resistência

Ao olhar para o passado, Kátia reconhece que a violência deixou marcas profundas, mas também destaca a importância das pessoas que estiveram ao seu lado ao longo do caminho.

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“É uma ferida que fica”, diz. “Mas, com todas as dificuldades, eu venci. Não sozinha — tive apoio da minha tia, dos meus colegas, dos meus filhos e da minha fé.”

A jovem de 19 anos que saiu escondida de casa para procurar emprego tornou-se uma policial que hoje ajuda outras mulheres a reconhecer que a violência não pode ser naturalizada — e que sempre existe a possibilidade de recomeçar.

Escrito por

Aline Ferrari

Aline Ferrari, estagiária na Redação do Visão Oeste, sob a supervisão da editora Jenifer Oliveira
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