Entre o mito e a realidade: quem carrega o peso simbólico da violência?
Em novo artigo, a psicóloga @solangearoeira faz uma uma reflexão sobre violência, masculinidade ferida e a histórica transferência de culpa às mulheres.
Na primeira quinzena de fevereiro de 2026, o país foi atravessado por um caso que gerou comoção e indignação: um pai, diante da rejeição e do fim do relacionamento, matou os próprios filhos e, em seguida, tirou a própria vida. A tragédia rapidamente foi transformada em narrativa pública nas redes sociais. No chamado “tribunal da internet”, a mulher passou a ser apontada como culpada — taxada de traidora e responsabilizada pela morte das crianças por não querer permanecer no casamento.
Esse movimento revela algo inquietante: a tendência social de deslocar a responsabilidade do agressor para a mulher, como se a decisão de romper uma relação fosse suficiente para justificar a violência. Pouco se considerou que o ato foi uma escolha deliberada, orientada por retaliação e desejo de causar sofrimento extremo. O foco deixou de ser a autoria e a gravidade da violência e passou a ser a conduta feminina, julgada e condenada publicamente.
Ao acompanhar esse caso, é inevitável lembrar da figura de Medeia, cuja narrativa atravessa séculos como símbolo de vínculos afetivos marcados por ruptura, dor e vingança. Na mitologia, o sofrimento provocado pelo abandono é transformado em gesto extremo de retaliação. Não se trata de equivalência direta entre mito e realidade, mas de um espelho simbólico que ajuda a compreender como emoções intensas, quando atravessadas por relações de poder e desespero, podem se converter em violência.
Na criminologia, esse fenômeno é descrito como filicídio de retaliação — quando os filhos são instrumentalizados para atingir o outro progenitor. A tipologia foi sistematizada por Anita Wilczynski (1995), que aponta que, nesses casos, a violência está menos ligada ao cuidado parental e mais à dinâmica de controle, punição e vingança dentro da relação conjugal.
O que mais assusta, porém, não é apenas o crime em si, mas a reação coletiva que o acompanha. Ao responsabilizar a mulher pela decisão violenta do homem, reforça-se uma lógica histórica: a de que a autonomia feminina ainda é vista como provocação, desobediência ou traição. Como se a ruptura fosse uma afronta intolerável e não um direito.
Esse episódio nos obriga a refletir sobre a forma como a sociedade compreende o fim dos vínculos, a masculinidade ferida e o lugar das mulheres nas relações. Quando a dor se transforma em sentimento de posse, e a perda em desejo de punição, abre-se espaço para a violência. E quando a sociedade relativiza isso, transferindo a culpa para quem decidiu partir, contribui para a manutenção desse ciclo.
Uma leitura crítica necessária
O risco de manter o mito como rótulo feminino é grande:
● desloca a responsabilidade estrutural da violência;
● transforma casos em explicações moralizantes;
● faz com que mulheres carreguem simbolicamente uma herança histórica de culpa;
● invisibiliza a violência masculina ligada à posse, controle e ruptura.
Mais do que um caso isolado, trata-se de um sintoma social. Ele expõe a urgência de discutir saúde emocional, responsabilização masculina, redes de proteção e a cultura que ainda insiste em tratar mulheres como responsáveis pelo comportamento dos homens. Não se trata apenas de compreender a tragédia, mas de impedir que ela se repita — reconhecendo que nenhuma ruptura justifica a violência e que nenhuma mulher pode ser transformada em ré por escolher não permanecer onde não deseja mais estar.