Respondendo às IAs
Em novo artigo, Antônio Carlos Roxo comenta as análises feitas por inteligências artificiais sobre seu texto anterior e rebate interpretações baseadas na Escola Austríaca de economia.
O texto publicado no Visão Oeste, “Poucos têm muito, muitos têm pouco”, a pedido de um leitor, foi analisado pela IA. Digamos que essa primeira abordagem foi de uma IA, suponho, vá lá, mais “neutra”.
Relata a IA: “A coerência temática mantém unidade argumentativa do começo ao fim: desigualdade, concentração de riqueza, regressividade tributária, privilégios de elites e resistência a direitos trabalhistas e sociais. Isto dá consistência ao discurso.” Adiante: “O texto adota claramente uma visão social-desenvolvimentista, distributivista. Crítica ao liberalismo econômico. O autor recorre a exemplos históricos, linguagem persuasiva, e, como fragilidade e limitações, forte viés ideológico.” Ainda: “O texto toca em debates reais da economia brasileira: tributação regressiva, concentração de renda, salário mínimo.” Enfim, diz: “Como texto opinativo, é forte e persuasivo. O texto é eficaz como peça de crítica social e mobilização política. Como análise econômica neutra, é parcial e seletivo.”
A IA acrescenta que não existe só o Imposto de Renda no Brasil. Exatamente. O argumento central do texto é que a carga tributária brasileira, ao se concentrar em impostos indiretos (trata os desiguais igualmente), é extremamente injusta e contribui para sua regressividade. Quem ganha mais, proporcionalmente, paga menos.
Ressalto que artigo jornalístico não se pretende “paper” acadêmico; procura apontar as mazelas estruturais que o país carrega desde a colonização, a começar pelas sesmarias e pela escravização de indígenas e africanos.
Mas o leitor anunciado, não satisfeito, pediu à IA, agora não “neutra”, que fizesse análise sob a ótica da Escola Austríaca, o suprassumo da radicalidade a favor do Estado mínimo e da soberania do mercado. Os cabeças de chave da tal escola são Ludwig von Mises e Friedrich Hayek. Confesso que pouco ou nada de Mises li; um pouco mais de Hayek, talvez. Sei que Mises flertou com o fascismo e Hayek (Prêmio Nobel de Economia), com Pinochet. Como é mesmo o dito popular? Diz-me com quem andas e eu te direi quem és!
Keynes, economista e financista, para ficar no campo capitalista, introduziu em sua análise a importância da participação do Estado como fundamental para o processo produtivo, contemplada no enfrentamento da crise de 1929, crise de realização da produção, com a oferta superando a demanda em muitos decibéis, devido ao rápido processo de perda de confiança, impactando preços, emprego e investimento. O Estado abortou, em alguma medida, a velocidade de espraiamento da crise, irrigando a economia.
A partir de medidas e políticas públicas (Bem-Estar, inclusive) indutoras ao crescimento, a humanidade como um todo teve um período de crescimento sustentado, os chamados 30 anos gloriosos da política keynesiana no mundo após a II Guerra.
Mises, defensor radical do sistema bancário inteiramente sem regulação, política seguida nos EUA à risca, desregulamentação desbragada do sistema financeiro americano, com o pretexto de estimular a inovação, desaguou em outra grande crise do capitalismo, em 2007/2008, com reflexos negativos no mundo, levando à injeção maciça de recursos de diversos países no sistema financeiro em queda livre.
Entendia-se que esse período de cada um por si, de excesso exploratório, desregulamentação radical, privatizações e o mercado senhor do mundo tivesse ficado para trás. Eis que essas consignas se fazem presentes hoje.
Ainda a IA mercadista: “A desigualdade não é o problema principal (…). O importante não é se alguns têm muito mais riqueza que outros, mas se há liberdade econômica, mobilidade social, aumento do padrão de vida geral (…) Os pobres estão melhorando de vida ou não? Os ricos têm riqueza demais?”
A Escola Austríaca, ao relativizar a pobreza, sanciona como positivas as distâncias entre ricos e pobres. Podem melhorar os pobres, desde que a distância permaneça a mesma ou cresça. A ascensão ao espaço VIP deve ser obstruída. Não à toa a propaganda contra cotas, seja para pobres, pretos ou indígenas. Se o pobre alcança a USP, a elite manda seus filhos para o exterior, de preferência para os EUA, nem que seja para escolas de quinta categoria.
Segundo a IA, “O texto atribui a desigualdade principalmente às elites econômicas e ao ‘mercado’” (Não, a desigualdade resulta da estrutura econômica desde a colonização). (…) A crítica austríaca seria: “Favorecimento a grandes grupos econômicos [que] dificultam a concorrência.”
Contraditoriamente, é o grande capital que está por trás de campanhas, dia sim e outro também, da proposta de Estado mínimo, movimentando sua “estrutura” visível e invisível em apoio às candidaturas com esse perfil.
“O texto trata saúde e educação como direitos básicos ameaçados pelas elites. A Escola Austríaca tende a desconfiar de monopólios estatais porque burocracias têm poucos incentivos à eficiência.” Outra falácia. A régua para medir a eficiência pública, por exemplo, do SUS, não é a mesma do mercado; não é o lucro que o move.
Aí vem a paulada: “Hayek criticava fortemente a ideia de justiça social como critério econômico.” Para ele: “O mercado não decide moralmente quem merece riqueza.” Aqui também se tem um grau enorme de discordância. Os ricos e os muitos ricos já nascem (direito divino?) com um pé, para não dizer o corpo inteiro, no topo da estrutura social.
“O texto questiona a meritocracia por causa das diferenças de origem social. Austríacos responderiam que o mundo nunca terá condições iguais; tentar igualar resultados exige crescente coerção estatal; sociedades mais livres tendem a gerar mais mobilidade ao longo do tempo. Além disso, diriam que herança, talento, sorte (nascer em berço esplêndido, né?), esforço e contexto familiar sempre influenciarão resultados humanos.” A questão fundamental é o ponto de partida, não o resultado; é a igualdade de oportunidades, que é negada!
“Em resumo. Enquanto o texto interpreta a desigualdade como consequência do ‘mercado’ e da elite econômica, a IA tenderia a interpretar como consequência de privilégios estatais, intervencionismo e distorções criadas pelos próprios governos.”
Kalecki, notável economista, a partir de posições políticas e intelectuais diferentes de Keynes, chegou a resultados semelhantes. Mostrou que o desemprego é essencial ao sistema capitalista de produção. As políticas de cunho keynesiano levariam ao pleno emprego, que, por sua vez, fortaleceria o posicionamento da classe trabalhadora, o que, para os de cima, seria um “Deus nos acuda”, opondo-se a elas mesmo quando mais beneficiados. Simples: garantir seu lugar de fala, seu estado de segurança, sua inserção e compromisso de classe.