sábado, 18 de julho de 2026
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Opinião

Mundos invisíveis e violências escancaradas

"O que nos aconteceu para normalizarmos essa barbárie?" A partir dessa provocação, a colunista do Visão Oeste Solange R. Aroeira expõe dados alarmantes da violência de gênero e defende a inclusão social como prática diária dos Direitos Humanos.

Por Solange R. Aroeira | Atualizado em: 04/09/2025 20:10
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A desigualdade racial e de gênero ainda mata mulheres diariamente no Brasil — e os dados mais recentes mostram que a violência não apenas persiste, como também cresce. O que nos aconteceu para normalizarmos essa barbárie?

Há algumas décadas, o cinema nos apresentou a ideia de mundos paralelos ocultos no cotidiano, como na franquia Homens de Preto (MIB). Extraterrestres viviam entre nós, invisíveis, e cabia aos agentes J e K manter esse universo funcionando sem que ninguém percebesse. A ficção, com sua dose de exagero, apontava para algo mais real do que se imagina: a existência de múltiplas realidades sociais, muitas vezes ignoradas ou marginalizadas.

Hoje, como secretária da Mulher, Neurodiversidade e Inclusão Social em Cotia (SP), com atuação voltada para políticas públicas, percebo que esses “mundos invisíveis” continuam existindo — só que não fazem parte da ficção. São pessoas e grupos que lutam para ter seus direitos reconhecidos, suas vivências respeitadas e seus corpos protegidos.

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Costumo dizer que inclusão social é a prática cotidiana dos Direitos Humanos. Sob esse grande guarda-chuva, estão os conselhos municipais da Mulher, da Pessoa com Deficiência, da Igualdade Racial e, em breve — com a vontade dos nossos legisladores — da população LGBTQIAPN+.

A comparação com Homens de Preto pode parecer ousada, mas é pertinente. Vivemos em um país onde ainda se insiste em negar o direito à existência plena a quem foge do padrão dominante. Realidades são ocultadas não por acaso, mas por estruturas que naturalizam desigualdades e reforçam a exclusão.

Diante disso, me permito fazer uma provocação:

O que nos aconteceu, enquanto sociedade, para que tantas mulheres voltem a morrer pelas mãos de quem deveria protegê-las?

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Os dados do Atlas da Violência 2025 são alarmantes: entre 2022 e 2023, os homicídios femininos cresceram 2,5% no Brasil — um retrocesso que contraria a breve redução registrada em 2018. A estatística não é neutra: 68,2% das vítimas eram mulheres negras. O racismo e o sexismo caminham juntos na reprodução da violência.

Muitos reagem a esses números como se fossem absurdos distantes, “coisas de outro mundo”. Mas não são. São parte da nossa realidade. E, quando menciono que estou à frente da Secretaria da Mulher, não raro ouço frases que expõem o machismo cotidiano:

“Puxa, eu nem bato nela, né, amor?” — uma tentativa de piada que revela o quanto ainda se normaliza a agressão, como se a violência contra a mulher fosse esperada ou até merecida.

É exatamente esse pensamento que sustenta o machismo estrutural — um sistema que atribui aos homens poder e controle, e que posiciona as mulheres como inferiores ou submissas. Essa lógica, reconhecida até mesmo pelo atual Ministro da Justiça, continua a sustentar comportamentos que resultam em violência de gênero, muitas vezes de forma sutil e silenciosa.

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E se ser mulher já é, por si só, um desafio em uma sociedade desigual, o que dizer das mulheres que também são negras, PCDs e LGBTQIAPN+?

Neste contexto, é preciso se perguntar: por que esses números importam?

  1. A violência letal não é uniforme: há uma clara disparidade racial e econômica que torna a mulher negra estruturalmente mais vulnerável.
  2. O lugar do crime — o lar — evidencia o feminicídio como forma extrema de violência de gênero, reforçada pelo machismo estrutural, o que exige políticas mais robustas de enfrentamento à violência doméstica.
  3. Há insuficiência de recursos e políticas públicas: cortes orçamentários, dependência econômica das vítimas e falhas na implementação de mecanismos de proteção agravam o quadro e comprometem a eficácia das redes de apoio.

Quando falamos de políticas públicas, estamos falando de vidas. De garantir que esses mundos — historicamente marginalizados — sejam vistos, ouvidos e respeitados. Não queremos mais viver à sombra, como os personagens da ficção. Queremos que nossas histórias sejam contadas, que nossas vozes ecoem e que o direito à dignidade seja universal.

Mais do que números, são vidas. Mais do que discursos, é urgente transformar estruturas. E, diante disso tudo, deixo a pergunta:

O que passou pela sua cabeça ao se deparar com essa realidade?

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Autor

  • Solange R. Aroeira é psicóloga, pedagoga e Secretária das Mulheres, Direitos Humanos e Neurodiversidade em Cotia-SP. Especialista em neurodiversidade e educação especial, atua há mais de 15 anos nas áreas clínica, educacional e de recursos humanos. Palestrante e autora do livro "Como viramos estrelinhas: Finitude", dedica-se a promover ações estratégicas para inclusão social e cidadania plena. Redes sociais: @solangearoeira

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