sexta-feira, 17 de julho de 2026
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Opinião

Neurodesenvolvimento: lições da Romênia e desafios para o Brasil

Por que afeto e políticas públicas são cruciais no neurodesenvolvimento? Em novo artigo, Solange Aroeira analisa casos da Romênia e Brasil e a importância de um compromisso coletivo.

Por Solange R. Aroeira | Atualizado em: 04/09/2025 20:07 Siga-nos no Google News
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A convite da Secretaria de Educação de Cotia, preparei uma fala sobre neurodesenvolvimento e intervenções multidisciplinares. Durante a preparação, dois episódios históricos chamaram minha atenção: o drama dos órfãos da Romênia e o episódio 7 do documentário da TV Senado, “O Amanhã Começa Hoje”. Ambos revelam como a ausência de vínculos afetivos e políticas públicas eficazes pode comprometer o desenvolvimento de uma geração. Embora esses temas não tenham feito parte da apresentação no evento, serviram como inspiração para registrar e compartilhar estas reflexões.

Romênia: a infância roubada pela institucionalização

Nos anos 1990, após a queda da ditadura de Ceaușescu, o mundo conheceu a realidade cruel das instituições romenas, onde milhares de crianças viviam confinadas em abrigos sem estímulo, afeto ou cuidado individualizado.

Pesquisadores de Harvard e do Hospital das Crianças de Boston acompanharam essas crianças por mais de 20 anos, e os resultados foram alarmantes:

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● Cada ano em instituições correspondia a quatro meses de atraso cognitivo.

● A ausência de vínculo afetivo prejudicava o QI, a linguagem, a capacidade de apego e até a estrutura cerebral.

● Muitos desenvolveram transtornos psiquiátricos persistentes na vida adulta. No entanto, havia esperança: crianças acolhidas por famílias ainda nos primeiros 24 meses de vida conseguiram recuperar grande parte do seu potencial. A lição é clara: afeto e cuidado familiar são insubstituíveis.

Brasil: reflexões a partir de “O Amanhã Começa Hoje”

O documentário da TV Senado destaca os desafios enfrentados no Brasil para garantir os direitos de crianças e adolescentes. Apesar de avanços legais, ainda existem:

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● Crianças em situação de vulnerabilidade social.
● Falhas na rede de acolhimento e proteção.
● Desigualdades que prejudicam nutrição, saúde e acesso à educação de qualidade.

A obra reforça que leis e políticas só têm efeito real quando se traduzem em práticas concretas de cuidado, envolvendo escolas, profissionais de saúde, famílias e comunidades.
Paralelos e lições universais

Os casos da Romênia e do Brasil revelam um mesmo princípio:
● Sem vínculos afetivos, estímulo precoce e apoio multidisciplinar, o cérebro infantil não se desenvolve plenamente.
● Com acolhimento, intervenção integrada e políticas públicas eficazes, é possível transformar trajetórias de vida.

As cicatrizes deixadas pela institucionalização na Romênia são um alerta. No Brasil, temos a oportunidade e a responsabilidade, de não repetir os mesmos erros.

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Um compromisso coletivo

De tempos em tempos, surge entre os políticos a proposta de ampliar a carga horária escolar, é fundamental questionar: qual é o impacto de reduzir o tempo das crianças com suas famílias?

O tempo de convivência familiar na primeira infância é essencial para a formação de vínculos seguros. Além disso, é necessário garantir condições para que os pais possam conciliar trabalho e cuidados com os filhos, sem depender de jornadas exaustivas e de um transporte público precário.

Muitas pessoas acreditam que passar mais horas na escola é sempre melhor, mas o excesso pode afetar o bem-estar físico e emocional das crianças, limitando brincadeiras, interações familiares e experiências diversificadas.

A educação é uma responsabilidade compartilhada entre escola, família e sociedade. Equilibrar o tempo escolar com momentos de convivência familiar, comunicação aberta e participação dos pais é crucial para o desenvolvimento integral da criança.

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De acordo com a Lei nº 9.394/1996 (Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional – LDB), a educação deve “promover o pleno desenvolvimento do educando, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho” (Art. 2º). Isso reforça que o aprendizado não se limita à escola: é preciso integrar brincadeiras, experiências diversas e cuidado familiar.

A ciência e a história são claras: investir no neurodesenvolvimento é investir no futuro do país.
O amanhã começa agora, em cada decisão de cuidado tomada hoje.

 

Autor

  • Solange R. Aroeira é psicóloga, pedagoga e Secretária das Mulheres, Direitos Humanos e Neurodiversidade em Cotia-SP. Especialista em neurodiversidade e educação especial, atua há mais de 15 anos nas áreas clínica, educacional e de recursos humanos. Palestrante e autora do livro "Como viramos estrelinhas: Finitude", dedica-se a promover ações estratégicas para inclusão social e cidadania plena. Redes sociais: @solangearoeira

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