O CAPS não é o consultório do psiquiatra
Coluna de Pedro Jardim no Visão Oeste
Um paciente chega pela primeira vez ao CAPS. Um profissional o acolhe e explica o que o serviço oferece: atendimento individual, grupos, oficinas, trabalho com a família. Ele ouve tudo e faz uma única pergunta: “Quando eu passo com o médico?”.
Isso acontece o tempo todo. No começo me incomodava bastante, porque eu saía do acolhimento com a sensação de ter falado sozinho por vinte minutos. Com o tempo, passei a achar que a pergunta do paciente diz mais sobre o jeito como apresentamos o serviço do que sobre ele.
Mas Pedro, você está dizendo que o psiquiatra não é importante? Claro que é. A equipe mínima prevista pela Portaria 336/2002 inclui médico, com psiquiatra nos CAPS de maior complexidade. Muita gente precisa de medicação, e há quadros em que sem ela o resto do cuidado nem se sustenta. Meu incômodo começa quando a consulta passa a ser o serviço inteiro.
Por que o paciente pede o médico? Vejo pelo menos quatro motivos. O primeiro é que saúde ainda é entendida como ausência de doença, e nessa lógica o caminho é diagnóstico, receita e alívio. O segundo é que quase sempre a pessoa chega depois de muito tempo aguentando sozinha, e quem está no limite quer o que promete resposta rápida. O terceiro é que a receita é concreta, dá para segurar na mão, enquanto “construir um projeto terapêutico” não significa nada numa primeira conversa. O quarto é o que mais me incomoda: em alguns serviços, nós mesmos reforçamos isso. Se a agenda do psiquiatra é a única com data e fila organizadas, e o resto do cuidado fica “conforme a demanda”, o usuário aprende rápido onde o serviço realmente está.
Daí tiro uma conclusão que talvez desagrade colegas: recitar a lista de atividades não funciona. Quando digo “temos oficina, grupo, psicólogo, assistente social”, o paciente ouve um cardápio sem referência nenhuma. Funciona melhor partir do que ele trouxe: o que está pesando, o que ele deixou de conseguir fazer, quem está por perto. Assim a equipe responde a algo concreto, e não a uma lista.
Pense em alguém que chega a um CAPS AD por causa do álcool. A avaliação médica e a medicação podem ser parte importante do cuidado, ajudando com abstinência, ansiedade e impulsividade. Mas essa pessoa talvez tenha perdido o emprego, esteja brigada com a família, deva dinheiro, tenha a saúde clínica comprometida e, às vezes, um processo na justiça. Nada disso se resolve numa consulta só, nem com um único profissional. Cada uma dessas necessidades entra no projeto terapêutico singular, construído com a pessoa, e a equipe contribui conforme o que o caso pede, com as fronteiras entre as profissões bem menos rígidas do que o organograma sugere.
Também não vou dizer que psicoterapia é melhor que medicação, porque depende do quadro. Em psicoses e no transtorno bipolar, o medicamento costuma ser central. Em outros casos, a psicoterapia pode ter peso igual ou maior. O que me parece raro é uma coisa só dar conta.
Na prática, o que levo para o dia a dia é simples. Perguntar antes de explicar. Dizer com clareza quando e como será a avaliação médica. Usar a situação do próprio paciente para mostrar o que a equipe pode fazer. Se ele sair do acolhimento ainda querendo o médico, tudo bem. O importante é que saia sabendo quando vai vê-lo e com pelo menos um motivo concreto para voltar também aos outros profissionais.