terça-feira, 27 de outubro de 2026
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Opinião

Opinião: A vitória de um povo que decidiu continuar de pé

“Prepare o seu coração pras coisas que eu vou contar.”

Por Redação | Atualizado em: 27/10/2026 16:01 Siga-nos no Google News
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Por: Henrique Matthiesen*

A reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva não pertence apenas a um homem, a um partido ou a uma eleição. Pertence a milhões de brasileiros que, diante da ameaça do fascismo, recusaram entregar seu país ao ódio. Foi uma vitória construída com coragem, lágrimas, indignação e uma extraordinária disposição de lutar. O Brasil esteve diante de uma escolha que ultrapassava as diferenças partidárias: preservar sua democracia ou permitir que o autoritarismo avançasse sobre as instituições, a cultura, os direitos e a própria possibilidade de um futuro melhor.

A juventude tomou as ruas. A União Nacional dos Estudantes (UNE) e a União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (UBES) ergueram suas bandeiras. Uma geração que redescobriu a força da mobilização popular respondeu com milhões de vozes, ocupando universidades, escolas, praças e avenidas. Não aceitou que lhe roubassem o direito de sonhar com um país diferente. Como nos recorda a canção, “sonhos não envelhecem”. Foram justamente os jovens que demonstraram que a democracia precisa ser conquistada e defendida por cada geração. Feliz o Brasil que tem estudantes dessa fibra, capazes de compreender que seu destino está profundamente ligado ao destino de seu povo.

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As mulheres foram protagonistas dessa virada histórica. Organizaram, convenceram, enfrentaram a violência e recusaram o medo. Mulheres negras, indígenas, trabalhadoras, mães e estudantes. Ao lado delas, a população negra, a comunidade LGBTQIA+ e as demais minorias historicamente discriminadas fizeram do voto uma afirmação de existência, dignidade e direitos. Contra o machismo, o feminicídio, o racismo e todas as formas de intolerância, ergueram suas vozes. Não se tratava somente de escolher um presidente, mas de assegurar conquistas, avançar nos direitos e impedir que o retrocesso se tornasse política de Estado.

Nossa classe artística também não se omitiu. Atores, atrizes, músicos, escritores e cantores juntaram sua arte à resistência popular. Emprestaram suas vozes, seus palcos e seu prestígio a uma causa que ultrapassava os interesses individuais. A cultura brasileira, tantas vezes perseguida pelo autoritarismo, voltou a ocupar seu lugar na defesa da democracia. A música tornou-se novamente instrumento de consciência, mobilização e resistência. Afinal, há momentos em que cantar também significa tomar posição diante da história.

Nas redes sociais, outra batalha foi travada. O gigante André Janones, com sua capacidade de comunicação, coragem e disposição para o enfrentamento político, tornou-se uma das figuras marcantes dessa mobilização. Ao seu lado, o extraordinário exército digital de Lula, formado por milhares de militantes, comunicadores e brasileiros anônimos, enfrentou diariamente a máquina de desinformação e a disseminação organizada do ódio. Cada celular transformou-se em instrumento de resistência. Era também ali, entre mensagens, vídeos e debates, que se disputava o futuro do Brasil. Essa militância digital, muitas vezes silenciosa e voluntária, merece seu lugar na história dessa vitória.

Há imagens dessa eleição que nenhuma estatística consegue traduzir. Indígenas deixando suas aldeias, atravessando rios, florestas e estradas para alcançar uma urna. Homens e mulheres que carregam séculos de resistência e que, mais uma vez, precisaram lutar pelo direito de continuar existindo em suas próprias terras. Cada viagem representava muito mais do que um deslocamento: era a afirmação de que os povos originários não aceitariam assistir passivamente à destruição de seu futuro. Gente que aprendeu, ao longo de séculos de violência, que não se pode entregar o próprio destino à vontade daqueles que pretendem governar suas vidas.

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Idosos amparados pelos braços dos filhos e netos, alguns carregados, outros caminhando lentamente, levando no corpo as marcas do tempo e na consciência a responsabilidade de votar. Brasileiros cruzando oceanos, viajando de avião, ônibus e automóvel, percorrendo distâncias imensas para participar da decisão sobre o destino nacional. Gente que enfrentou o cansaço, as dificuldades e o medo porque compreendeu que havia momentos em que a omissão também representava uma escolha. Cada voto carregava uma história, uma memória e a responsabilidade de não permitir que o país voltasse a conhecer os períodos mais sombrios de seu passado.

E o Nordeste! Sua gente, sua cultura, sua altivez. O povo nordestino, tantas vezes insultado por aqueles que desconhecem sua grandeza, foi novamente decisivo para salvar o Brasil. Do sertão veio uma lição de dignidade, traduzida na canção: “Aprendi a dizer não”. O Nordeste não pediu licença para exercer sua consciência política. Respondeu com a força de quem conhece a desigualdade, mas jamais permitiu que a pobreza lhe retirasse a honradez. Sua resistência nasceu da experiência de gerações que aprenderam a enfrentar a adversidade sem renunciar à própria identidade. Como o cavaleiro da canção, compreendeu que o destino de sua gente não pode permanecer nas mãos de quem pretende tratá-la como propriedade.

Foi o povo de Darcy Ribeiro que se levantou. Esse povo mestiço, negro, indígena, caboclo, sertanejo, trabalhador. Um povo que conhece a fome, a exploração e o abandono, mas cuja fibra não permitiu que o banditismo político e o extremismo confiscassem seu futuro. Um povo que, apesar de tantas derrotas impostas ao longo de sua história, preservou a capacidade de reconhecer o perigo e reagir coletivamente. O Brasil profundo, tantas vezes ignorado pelos que se julgam seus donos, demonstrou que a consciência popular não se mede pela renda, pela escolaridade ou pelo endereço de quem deposita seu voto na urna.

Lutamos nas praias, nos campos, nas ruas e nas cidades. Lutamos nas escolas, nas fábricas, nas aldeias e nas periferias. Lutamos nas estradas, nos mares e nos oceanos. Lutamos com crescente confiança, com a palavra, a consciência e o voto. Defenderemos nossa democracia, custe o que custar. E, diante de qualquer ameaça de subjugação, afirmamos: nunca nos renderemos!

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Essa vitória não apaga nossas feridas nem encerra nossas batalhas. Ela nos devolve a possibilidade de construir um país que não tenha vergonha de proteger os pobres, respeitar as diferenças e reconhecer a grandeza de sua própria gente. A democracia venceu porque brasileiros de diferentes gerações, origens e condições sociais compreenderam que havia algo maior do que suas divergências. O país não estava condenado a permanecer prisioneiro do ressentimento, da intolerância e da brutalidade.

Quando a história perguntar quem impediu o Brasil de sucumbir, a resposta estará nos rostos anônimos que fizeram dessa eleição um ato coletivo de resistência. Estará nas mãos calejadas, nos olhos marejados, nas bandeiras erguidas, nos abraços de quem atravessou a noite acreditando que ainda era possível amanhecer. Estará na honradez de um povo que, diante da ameaça de perder sua liberdade, decidiu continuar de pé.

Afinal, como anunciou Guilherme Arantes, “Amanhã será um lindo dia”.

E esse amanhã pertence à brava gente brasileira.

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*Henrique Matthiesen é formado em Direito e pós-graduado em Sociologia

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