O labirinto de “Mr. K”, o pensamento kafkiano e a política do absurdo
Citando o filme "Mr. K" (2024) em novo artigo, a psicóloga Solange Aroeira explica a angústia kafkiana do cidadão diante do poder e aponta caminhos de saída, como a ética e a empatia.
O pensamento kafkiano, inspirado em Franz Kafka, revela a angústia humana diante de sistemas opacos e impessoais, regidos por regras incompreensíveis. É o retrato de uma burocracia que não serve mais às pessoas, mas se serve delas. No mundo de Kafka, a autoridade é distante, o poder é indecifrável e o indivíduo, esmagado por engrenagens que giram sem explicação. Essa lógica do absurdo atravessa também o universo político contemporâneo, um cenário onde a estrutura do poder muitas vezes aprisiona em vez de libertar.
No filme Mr. K (2024), de Tallulah H. Schwab, essa metáfora ganha corpo: um mágico itinerante entra em um hotel e não consegue mais sair. O espaço, aparentemente acolhedor, revela-se um organismo vivo que suga o personagem para dentro de si. Cada tentativa de fuga o conduz a novos corredores, novas portas e novas regras. O hotel é o Estado, a máquina política, a engrenagem do sistema que promete ordem e segurança, mas que se retroalimenta da confusão.
Como na vida política, Mr. K mostra personagens que vivem no automático, repetindo papéis e discursos sem se perguntar por quê. Eles representam uma sociedade adormecida, acostumada a obedecer, a seguir o fluxo. Quando o protagonista tenta romper o ciclo — quando ousa buscar a saída — passa a ser visto como ameaça. No plano político, isso reflete o destino de quem questiona estruturas de poder, denuncia injustiças ou tenta reformar sistemas viciados: quanto mais busca a liberdade, mais o sistema reage para mantê-lo dentro do labirinto.
“Nem sempre a saída é o lugar por onde a gente entra.”
Essa frase do filme ecoa no campo político como um aviso: a saída das crises não virá dos mesmos caminhos que as criaram. O verdadeiro ponto de ruptura exige repensar as bases — questionar o próprio desenho das instituições, a cultura do poder e a lógica da obediência.
O oráculo cansado, que diz “Tudo parecia tão importante na época… o que está além do universo”, representa a exaustão de uma sociedade que já não acredita nas promessas políticas, mas também teme o vazio fora delas. É o cansaço diante de reformas que nunca vêm, de discursos que se repetem, de lideranças que se fecham no próprio quarto do poder.
Caminhos de saída: participação, ética e empatia
No final, assim como Mr. K se descobre prisioneiro do hotel, nós também somos parte de um labirinto político que construímos e mantemos. Mas a esperança não está perdida. A saída do labirinto exige olhar atento, questionamento constante e coragem para agir. Alguns caminhos possíveis:
● Participação ativa: envolver-se na política local, entender processos e votar conscientemente.
● Ética e transparência: exigir e praticar integridade nas ações, desafiando a lógica do poder pelo poder.
● Empatia social: reconhecer que cada decisão afeta outros, e que as estruturas só funcionam quando servem à sociedade e não ao interesse de poucos.
● Educação crítica: promover conhecimento e reflexão sobre sistemas políticos e sociais, permitindo que o labirinto deixe de ser opressor e se torne compreensível.
Assim, a saída do labirinto não é necessariamente física, mas simbólica: é a transformação da consciência, a recusa em aceitar o absurdo como inevitável e o compromisso de reconstruir o mundo político de forma mais humana e justa. Mr. K nos lembra que, muitas vezes, o caminho não está na porta que se abre, mas na forma como escolhemos caminhar pelo labirinto. Recomendo assistir o filme e tirar as suas conclusões. Pense nisso.