quinta-feira, 04 de junho de 2026
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Barueri

“Perde a noção da vida passando”: O desabafo de trabalhadores de Osasco e região sobre a escala 6×1

Muito antes de ganhar fôlego no Congresso Nacional, o debate sobre o fim da escala 6x1 já era assunto nos pontos de ônibus, shoppings e lojas de Osasco, Barueri e região.

Por Jenifer Oliveira | Atualizado em: 19/03/2026 12:30
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Muito antes de ganhar fôlego no Congresso Nacional, o debate sobre o fim da escala 6×1 – seis dias de trabalho para um de descanso – já era assunto nos pontos de ônibus, shoppings e lojas de Osasco, Barueri e região. Enquanto Brasília discute propostas, quem vive ou já viveu dentro dessa realidade relata um cotidiano marcado pela exaustão e pela sensação de que o tempo escorre entre os dedos.

A redação do portal Visão Oeste ouviu trabalhadores de diferentes setores da região para entender o impacto dessa jornada.

Para Maria Eduarda Veloso Barbosa, que atuou por dois anos como balconista em um shopping, a escala 6×1 foi um período de “apagão pessoal”. “A pessoa perde a noção do tempo… Perde a noção da vida passando”, desabafa. Hoje atuando como vendedora, ela se posiciona firmemente a favor do fim desse modelo de trabalho.

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A trabalhadora relata que o salário muitas vezes não compensa o desgaste: “Não tinha tempo para mim, nem para a minha família. Em um dia de folga, eu precisava dar conta de tudo, quando meu corpo só suplicava por energia. Foi um verdadeiro pesadelo que intensificou minha ansiedade”, relembra.

Quem também sente o peso físico é o operador de empilhadeira Daniel Gomes da Silva. Para ele, o modelo atual é um convite ao adoecimento. “Trabalhar seis dias seguidos gera um alto nível de estresse que, muitas vezes, resulta em burnout”, afirma Daniel, destacando que o único dia de folga acaba sendo engolido por tarefas domésticas e cansaço.

Além do crachá: o impacto na vida familiar

A discussão não atinge apenas quem está na linha de frente. A executiva de vendas Daniela Braga nunca trabalhou no regime 6×1, mas viu o casamento ser afetado por ele durante oito anos. “Meu marido perdeu muitos eventos importantes por não conseguir estar presente devido à escala”, conta.

A analista fiscal Lygia Silva reforça que a folga única ignora o “trabalho invisível” de casa. “Apenas uma folga não é suficiente para ter qualidade de vida, pois o trabalho doméstico também é exaustivo”, pontua.

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Já Glauber Matheus, vendedor automotivo, resume o sentimento de muitos: “Qualidade de vida não é só dinheiro, é ter tempo de fazer algo para si mesmo ou passear com a família”.

Foto: Marcos Santos / USP Imagens

O contraponto: produtividade e responsabilidade econômica

Nem todos, porém, veem o fim da escala como uma solução simples. O produtor audiovisual Cezar Beinlich acredita que o esforço individual dita o resultado. “Escala 6×1 é o básico se a pessoa pensa em ser alguém na vida. Quanto mais produzo, mais ganho”, afirma, ressaltando que não se importa em trabalhar todos os dias para manter seu padrão de vida.

Há também quem encontrou vantagens no modelo atual. Alexandre Castro, agente de monitoramento, conta que sua jornada das 6h às 12h na escala 6×1 é menos cansativa que plantões anteriores. “Consigo ter mais tempo livre para estudar e treinar todos os dias, o que não era possível em outras escalas”, explica.

Já o seminarista Enzo Souza, formado em Gestão Financeira, defende um meio-termo. “O ideal seria caminhar para modelos mais humanos, mas com planejamento. Mudanças profundas podem gerar impactos em pequenos negócios”, adverte, sugerindo que a transição precisa ser estruturada para não prejudicar a geração de empregos na região.

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Cabo de guerra em Osasco e região: bem-estar do trabalhador x impacto nos negócios

Na região, o cenário reflete uma divisão de forças entre empregador e empregado. O Sindicato dos Metalúrgicos de Osasco e Região e o Sindicato dos Comerciários de Osasco e Região lideram a defesa pelo fim da escala, alegando saúde e dignidade ao trabalhador.

“A escala 6X1 impõe jornadas desgastantes, que prejudicam o convívio familiar, a saúde física e mental e a qualidade de vida”, frisa Gilberto Almazan, presidente dos Metalúrgicos.

Por outro lado, a Associação Comercial e Empresarial de Osasco (ACEO) assinou um manifesto com outras 100 entidades patronais pedindo cautela e uma “modernização responsável”, temendo o aumento de custos para o setor produtivo e pequenos lojistas.

Pressão em Brasília

O recado vindo de Brasília na última terça (17) teve tom de ultimato. O ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos, afirmou que o Governo Federal não descarta apresentar um projeto de lei em regime de urgência caso perceba uma “estratégia de enrolação” por parte do Congresso Nacional para discutir o fim da escala 6×1.

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“Estamos respeitando o trâmite do Legislativo, como tem que ser. Agora, se percebermos que está tendo enrolação, escreva o que estou dizendo: o presidente Lula vai entrar com um projeto de lei com regime de urgência”, disparou Boulos. Na prática, a manobra pode obrigar a Câmara a votar o tema em um prazo recorde de até 45 dias.

A proposta do governo, segundo Boulos, foca em três pilares: o fim definitivo da escala 6×1, a implementação do regime 5×2 e a redução da jornada de 44 para 40 horas semanais — sem redução salarial.

Enquanto as discussões avançam, trabalhadores como a estudante de Direito Isabella Moraes seguem esperançosos: “Sou contra [a 6×1] não por mim, mas por todas as pessoas que merecem a oportunidade de uma vida justa”.

Reportagem produzida com a colaboração da estagiária Aline Ferrari.

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Escrito por

Jenifer Oliveira

Jenifer Oliveira é editora do Portal Visão Oeste. Jornalista formada pela Universidade Nove de Julho, atua na imprensa regional desde 2016. Com expertise em jornalismo digital, acumula experiências na redação e edição de texto, reportagem e assessoria de imprensa e comunicação.
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