Pra que(m) serve um deputado?
Por que tantos eleitores não sabem em quem votar para deputado? Em novo artigo, o sociólogo Marcos Agostinho analisa o desinteresse do eleitor na escolha de deputados federais e estaduais.

“Jantou no meu barracão
e lá usou
lata de goiabada como prato
eu logo percebi
é mais um candidato
para a próxima eleição”
“Candidato Caô” – Bezerra da Silva
“Essa política sem lógica, sem nexo
Essa política do próprio paradoxo
Essa política larica mais que tóxico
Essa política do fight bem no plexo
Essa política que não respeita sexo
Essa política perdida em circunflexo
Essa política mentiras em anexo
Essa política do choque heterodoxo”
“política” – Ataliba e a Firma”
Qual é o papel dos deputados federais e estaduais para o funcionamento e fortalecimento da jovem democracia brasileira? Seriam eles os responsáveis pela elaboração de leis, fiscalização do executivo e representação dos interesses da sociedade? Será que é essa a visão do eleitorado? Os eleitores conhecem quais são as atribuições desses cargos? E se conhece, reconhece nesses parlamentares seus legítimos representantes? O que determina o grau de interesse dos eleitores na escolha dos parlamentares? Vamos seguir com a conversa!
Muito se fala em um contexto político polarizado, no qual tanto a esquerda quanto a direita disputam o domínio do cenário político. Polarização que, diga-se de passagem, existe desde que o mundo é mundo – e a terra é redonda – e não surgiu com Lula x Bolsonaro.
Para um presidente e um governador não basta apenas ganhar a eleição, é necessário garantir que a maioria dos deputados eleitos faça parte de sua base de sustentação. Porém, passadas as eleições, qual é a relação entre os deputados e seus eleitores? Quais seriam as causas e implicações do interesse ou do desinteresse em relação à escolha de deputados para a qualidade da representação democrática?
Faltando uma semana para as eleições de 2022, o Instituto MAS Pesquisa realizou uma pesquisa regional na área correspondente à Região Metropolitana Oeste de São Paulo para medir a intenção de voto aos cargos em disputa. Quando perguntamos em qual candidato a Deputado Estadual o entrevistado votaria, apenas 27% havia feito sua escolha. No caso das candidaturas a Federal o índice foi ainda menor, apenas 22%! Agora, por que um elevado percentual de eleitores admite não saber em quem votar para os cargos de deputados federais e estaduais mesmo faltando poucos dias para as eleições? O que indica? Seria sintoma do quê?
Fonte: MAS
Fonte: MAS
Pesquisas que começam a ser realizadas agora em 2025 passam a dar mais ênfase às razões e motivos que levam às escolhas de deputados federais e estaduais, enquanto o voto para presidente mobiliza paixões e debates, a escolha dos representantes no Legislativo é frequentemente relegada a segundo plano, com significativa parte do eleitorado votando sem pensar critérios ou até mesmo anulando o voto.
Dos dados segmentados por sexo, idade, escolaridade, renda e religião, emergem nuances interessantes que ajudam a compreender melhor o quadro do desconhecimento e desinteresse do eleitorado.
- Sexo: Os dados indicam que tanto homens quanto mulheres apresentam altos índices de desconhecimento sobre as funções dos deputados, embora mulheres tendam a reportar um pouco mais de insegurança em relação ao tema. Isso pode estar relacionado a fatores culturais e a menor presença feminina em espaços de discussão política.
- Idade: Jovens, especialmente entre 18 e 24 anos, figuram entre as pessoas menos informadas. E o desinteresse é acentuado por uma percepção de que a política não dialoga com suas demandas, reforçando o ciclo de alienação. Por outro lado, faixas etárias mais avançadas demonstram ligeira melhora no que tange ao conhecimento, mas ainda insuficiente para garantir escolhas conscientes.
- Escolaridade: Eleitores com ensino superior completo apresentam menor desconhecimento, mas não estão livres do desinteresse. Já entre os que possuem apenas ensino fundamental, o desconhecimento é maior, o que evidencia a importância da educação política nas escolas.
- Renda: O estrato de baixa renda é o mais afetado pelo desconhecimento, possivelmente devido ao acesso restrito à informação qualificada e à sobrecarga de preocupações cotidianas. Entre as pessoas de maior renda, há mais acesso à informação, porém o desinteresse persiste, muitas vezes por uma crença de que o Legislativo não impacta diretamente em suas vidas.
- Religião: O segmento religioso revela diferenças sutis: evangélicos e católicos demonstram níveis semelhantes de desconhecimento, porém, entre os que se declaram sem religião o desinteresse tende a ser maior, sugerindo uma possível correlação entre engajamento comunitário e interesse político.
O desinteresse quanto à escolha de candidato a deputado às vésperas da eleição é sintoma de uma crise de representação, agravada por estratégias políticas que priorizam lideranças carismáticas e polarização ideológica baseada em fake news em detrimento do debate sobre as instituições e as questões que as sustentam. Tanto Bolsonaro quanto Lula, principais líderes da direita e da esquerda, respectivamente, reconhecem a importância do Congresso para a governabilidade e têm buscado ampliar sua base parlamentar. Bolsonaro, durante seu mandato, investiu em alianças com o chamado “centrão”, promovendo a distribuição de cargos e verbas para garantir apoio legislativo. Lula, por sua vez, também aposta em coalizões, mas faz uso de uma retórica voltada à reconstrução democrática e ao diálogo social, tentando atrair partidos e movimentos populares para compor sua base, sem deixar de utilizar as mesmas ferramentas de “convencimento” e construção de “base de apoio” tradicionais.
No entanto, essas estratégias raramente envolvem iniciativas de educação política ou campanhas para informar o eleitorado sobre a relevância dos parlamentares. O foco permanece na disputa pelo poder, e não na construção de uma cidadania ativa. O desinteresse, portanto, não é apenas um fenômeno individual, mas resultado de uma conjuntura em que os partidos e líderes priorizam o controle do Congresso como instrumento de poder, e não como espaço de diálogo e representação. Esse ciclo é reforçado pela baixa cobertura midiática sobre o trabalho legislativo e pela ausência de mecanismos eficazes de prestação de contas à sociedade.
Recentemente, o ex-presidente Lula tem enfatizado, em entrevistas e discursos, que “o nível do Congresso determina o que é possível fazer no país”, alertando para a necessidade de eleger parlamentares comprometidos com a democracia e com o interesse público.
Enquanto isso, bolsonaristas têm adotado a tática de concentrar esforços na eleição de senadores, visando criar uma barreira de contenção ao Supremo Tribunal Federal (STF) e limitar decisões consideradas “ativistas”. A estratégia explicitamente reconhece o papel central do Senado na definição dos rumos institucionais e na contenção de eventuais excessos dos demais poderes. A disputa pelas casas legislativas extrapola a mera composição numérica e assume contornos de luta pelo controle do próprio sistema democrático.
Percebemos que assim como acontece com os vereadores, é mais visível e mais palpável para o eleitor uma emenda parlamentar enviada a um município em que será transformada em asfalto, creche ou compra de ambulância. O “trabalho” de um membro do legislativo é mais visível quando se assemelha ao trabalho do executivo. Para citarmos os fatos mais recentes agora em outubro de 2025, envolvendo o tema da segurança pública no Rio de Janeiro, um deputado tem seu trabalho mais reconhecido se enviar recursos para compra de armas e veículos blindados para as forças policiais do que a votação de algum projeto que envolva a mudança de paradigmas das ações policiais.
Essa “confusão” entre as funções executivas e legislativas é alimentada por campanhas eleitorais que privilegiam a imagem pessoal dos candidatos e a divulgação de “emendas” para obras municipais, numa tentativa de demonstrar “trabalho” e proximidade com o eleitorado. Ao invés de debater projetos de lei, fiscalização e representação, a maioria dos parlamentares candidatos à reeleição opta por apresentar-se quase como prefeitos itinerantes, reforçando a percepção de que o Legislativo para ser mais visível tem que ter suas funções confundidas com o Executivo.
A personalização das campanhas, e o foco em ações de impacto imediato, dificultam a compreensão do papel dos parlamentares. Prefeitos, muitas vezes, tornam-se cabos eleitorais de luxo, apresentando deputados como responsáveis diretos por obras locais, numa simbiose que desinforma e reforça o clientelismo. O resultado é a desvalorização do debate sobre políticas públicas estruturantes e o enfraquecimento do vínculo entre eleitor e representante.
Atualmente o contexto político brasileiro está marcado pela polarização e pela disputa estratégica entre Lulismo e Bolsonarismo para dominar o Congresso, tendo à espreita o “centrão”, contribui para a perpetuação desse quadro. Mas será que a grande massa de eleitores e eleitoras se preocupa com isso?
Para muitos brasileiros, as preocupações cotidianas – como pagar contas, garantir o sustento e lidar com a precariedade dos serviços públicos – sobrepõem-se ao interesse pelas eleições legislativas. Há o sentimento de que o voto para deputado é algo distante, quase irrelevante diante das urgências do dia a dia. Essa alienação não é fruto de ignorância, mas sim de uma experiência histórica de exclusão e ausência de respostas concretas por parte do Estado.