quarta-feira, 03 de junho de 2026
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Opinião

Quando crescer deixa de ser um processo natural

"A adultização infantil transforma brincadeiras em responsabilidades e apaga os limites entre o que é ser criança e o que é ser adulto", explica a psicóloga Silvia Rezende em novo artigo.

Por Silvia Rezende | Atualizado em: 29/08/2025 20:24
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Era uma manhã comum em uma escola pública de São Paulo quando a professora percebeu algo inquietante: Lara, de apenas cinco anos, recusava-se a participar da roda de histórias. Preferia ficar sozinha, mexendo no celular da mãe, com os olhos fixos em vídeos de maquiagem e desafios adultos. A cena, embora triste, não era incomum. Cada vez mais, crianças como Lara estão sendo empurradas para um mundo que não lhes pertence — o mundo dos adultos.

Esse fenômeno tem nome: adultização infantil. Trata-se da exposição precoce de crianças a comportamentos, responsabilidades e padrões estéticos que deveriam estar reservados à vida adulta. E o impacto disso é profundo. Segundo o estudo Panorama da Primeira Infância, 84% dos brasileiros desconhecem os benefícios de investir nos primeiros seis anos de vida — justamente o período em que 90% das conexões cerebrais são formadas. Essa ignorância coletiva abre espaço para práticas que aceleram indevidamente o amadurecimento infantil: roupas sensuais, maquiagens, conteúdos digitais impróprios e até exigências escolares desproporcionais.

A infância, que deveria ser sinônimo de brincadeira, descoberta e afeto, está sendo substituída por uma corrida silenciosa rumo à maturidade. Apenas 15% da população reconhece a primeira infância como o período mais decisivo do desenvolvimento humano. Essa percepção equivocada legitima cobranças como autonomia excessiva e desempenho escolar precoce, ignorando que o tempo da criança é outro — mais lento, mais sensível, mais lúdico.

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Especialistas alertam: crianças adultizadas têm maior propensão à ansiedade, depressão e baixa autoestima. A erotização precoce, por exemplo, não só distorce a imagem corporal como aumenta a vulnerabilidade a abusos. E o uso excessivo de telas, redes sociais e influenciadores mirins — que muitas vezes reproduzem padrões adultos — preocupa pais e educadores, que se veem diante de um dilema: como proteger sem isolar?

No cotidiano escolar, os reflexos são visíveis. Professores relatam dificuldades de socialização, queda no desempenho e comportamentos inadequados. E o mais alarmante: apenas 2% da população sabe que a primeira infância vai de 0 a 6 anos. Isso mostra o quanto ainda precisamos falar sobre esse tema.

Mas há esperança. A Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal reforça que amor e carinho são os cuidados mais importantes nessa fase, segundo 76% dos cuidadores entrevistados. E é justamente nesse afeto que reside a chave para reverter o quadro. Combater a adultização infantil exige uma mobilização coletiva: famílias, escolas, gestores públicos e toda a sociedade devem se unir para criar ambientes seguros, onde o brincar seja valorizado e o tempo da infância respeitado.

Preservar a infância é mais do que proteger — é investir no futuro. À medida que cresce o reconhecimento sobre os impactos da adultização, também se intensifica o movimento por mudanças concretas. Treinamentos, materiais informativos e políticas públicas são essenciais para fortalecer a rede de proteção. Afinal, crianças não são miniadultos. São sujeitos de direitos, que merecem crescer em ambientes adequados à sua fase de vida.

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O recado é claro: é hora de deixar que Lara — e tantas outras crianças — brinquem, sonhem e cresçam no tempo certo. Porque cada infância preservada é uma sociedade mais saudável, justa e humana.

 

Autor

  • Silvia Rezende é graduada em Pedagogia e Psicologia pela PUC-SP, com especialização em Terapia Comportamental Cognitiva (IPq HC FMUSP/USP). É coordenadora técnica da Clínica LARES e professora do IPq HC FMUSP/USP, atuando também como psicóloga colaboradora no IPq e no PROSOL (FMUSP).

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