sexta-feira, 17 de julho de 2026
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Opinião

Quando o mercado erotiza a ausência de limites

Avanço ou retrocesso? Em novo artigo, a psicóloga Solange Aroeira questiona os limites do mercado diante de robôs que simulam resistência sexual e como isso impacta a cultura do consentimento.

Por Solange R. Aroeira | Atualizado em: 30/12/2025 16:00 Siga-nos no Google News
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O avanço da tecnologia costuma ser celebrado como sinônimo de progresso. Mas nem toda inovação representa, de fato, um passo à frente. A recente discussão sobre robôs sexuais com “configuração de resistência”, destacada em reportagem do The Independent, nos obriga a fazer uma pausa incômoda: até onde o mercado pode ir quando transforma tudo — inclusive o limite do outro — em mercadoria?

É verdade que robôs não são pessoas. Não sentem dor, medo ou violação. Ainda assim, isso não encerra o debate. Tecnologias não existem fora do mundo social: elas nascem de interesses econômicos, reproduzem valores culturais e operam dentro da lógica do consumo.

Quando o desejo é capturado pelo mercado, ele deixa de ser apenas expressão subjetiva e passa a ser moldado, embalado e vendido como produto. Nesse processo, o fetiche não surge espontaneamente — ele é estimulado, organizado e legitimado por uma indústria que lucra com a transgressão dos limites.

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Vivemos sob um capitalismo que transforma tudo em experiência consumível, inclusive o corpo, o afeto e a sexualidade. Nada escapa à lógica da mercantilização. Nesse cenário, a erotização da resistência não é um acidente técnico, mas uma escolha simbólica: aquilo que deveria ser limite passa a ser diferencial de mercado. E quando o “não” vira recurso, o consentimento deixa de ser valor e se torna obstáculo a ser contornado.

Defensores desse tipo de tecnologia afirmam que ela poderia funcionar como válvula de escape para impulsos perigosos. Mas essa justificativa, além de carecer de evidências, transfere a responsabilidade do sujeito para o produto. O mercado oferece, lucra e se exime; a sociedade arca com os efeitos culturais. O risco não está em uma máquina, mas na naturalização de narrativas que reforçam relações assimétricas de poder.

Isso não é um chamado à censura nem ao moralismo. É uma exigência de responsabilidade política. Empresas que atuam no campo da tecnologia íntima não estão apenas inovando — estão intervindo diretamente na forma como desejo, poder e consentimento são simbolizados.

Regular não significa reprimir o prazer, mas reconhecer que nem tudo o que pode ser monetizado deveria ser legitimado. No fundo, essa discussão revela menos sobre robôs e mais sobre o nosso tempo. Um tempo em que o mercado se sente autorizado a fetichizar até mesmo a ausência de limites éticos. A pergunta que permanece é simples e incômoda: quem define o que vale tudo quando o lucro entra em cena?

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Talvez o verdadeiro progresso não esteja em expandir infinitamente as possibilidades técnicas, mas em preservar aquilo que não deveria estar à venda.

E em meio aos últimos dias de descanso do ano, me deparo com a manchete: “Robôs sexuais com ‘configuração de resistência’ permitem que homens simulem estupro e deveriam ser proibidos, dizem ativistas.”

Leio, paro, releio. Penso: como assim? Vou pesquisar, buscar o contexto, entender o que está sendo proposto — e, sobretudo, o que está sendo naturalizado. Porque algumas manchetes não pedem apenas indignação imediata; pedem reflexão. Pedem que a gente vá além do choque e encare a pergunta que insiste em ficar: quando a tecnologia avança sem ética, quem paga o preço simbólico desse progresso? Ops! ou um retrocesso com outra configuração?

🔗 Referência: The Independent — Sex robots with ‘resistance setting’ let men simulate rapeand should be outlawed, say campaigners

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Autor

  • Solange R. Aroeira é psicóloga, pedagoga e Secretária das Mulheres, Direitos Humanos e Neurodiversidade em Cotia-SP. Especialista em neurodiversidade e educação especial, atua há mais de 15 anos nas áreas clínica, educacional e de recursos humanos. Palestrante e autora do livro "Como viramos estrelinhas: Finitude", dedica-se a promover ações estratégicas para inclusão social e cidadania plena. Redes sociais: @solangearoeira

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