sábado, 05 de setembro de 2026
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Brasil

Quase um terço dos usuários de internet no Brasil já sofreu tentativa de golpe

Pesquisa aponta que 32% dos usuários de internet no Brasil sofreram tentativas de golpes com dados pessoais.

Por Aline Ferrari | Atualizado em: 03/09/2026 18:50 Siga-nos no Google News
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Cerca de 45 milhões de brasileiros com 16 anos ou mais, o equivalente a 32% dos usuários de internet no país, afirmam ter sofrido tentativas de golpes envolvendo seus dados pessoais. Desse total, 20% relatam que foram vítimas efetivas das fraudes. Os dados fazem parte da terceira edição da pesquisa Privacidade e proteção de dados pessoais: perspectivas de indivíduos, empresas e organizações públicas no Brasil, divulgada na última segunda-feira (31), em São Paulo.

O levantamento foi realizado pelo Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br), área do Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR (NIC.br), ligado ao Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br). A pesquisa ouviu 2,5 mil pessoas com 16 anos ou mais em entrevistas realizadas pela internet em dezembro de 2025.

O estudo buscou entender como os brasileiros percebem questões relacionadas à privacidade, quais práticas adotam para proteger seus dados, quais riscos enfrentam e como avaliam o uso de informações pessoais por empresas e outras organizações.

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Segundo Winston Oyadomari, um dos coordenadores da pesquisa, esta foi a primeira vez que o Cetic.br perguntou diretamente aos entrevistados se eles haviam identificado tentativas de golpes ou se chegaram a ser vítimas.

“Esse é até um tema difícil, porque as pessoas ficam constrangidas e abaladas com as tentativas de golpe”, explicou o pesquisador em entrevista à Agência Brasil.

Aplicativos de mensagem são o principal canal usado pelos golpistas

As tentativas de fraude aparecem em diferentes canais digitais e de comunicação. Os aplicativos de mensagens foram apontados como o principal meio de abordagem, citados por 84% dos entrevistados que relataram tentativas de golpe.

Na sequência aparecem as ligações telefônicas, com 79%, sites ou aplicativos falsos, com 71%, SMS, também com 71%, e-mails, com 69%, e redes sociais, com 67%.

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A pesquisa também identificou diferenças relacionadas ao dispositivo utilizado para acessar a internet. Pessoas que utilizam apenas o celular relataram mais tentativas por meio de sites e aplicativos falsos do que aquelas que também utilizam computadores.

Para Oyadomari, uma das possibilidades é que determinadas limitações ou características dos dispositivos possam aumentar a vulnerabilidade dos usuários.

Os impactos dos golpes também ultrapassam os prejuízos financeiros. Entre as consequências relatadas estão estresse e mal-estar, que podem afetar tanto as vítimas quanto seus familiares.

Outro problema apontado é o roubo de acesso a contas. Ao assumir o controle de um e-mail, por exemplo, criminosos podem dificultar o acesso do cidadão a serviços vinculados à conta Gov.br e até a serviços públicos e políticas de assistência.

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Menor escolaridade está associada a impactos maiores

O nível de escolaridade também aparece como um fator relevante nos resultados da pesquisa. Usuários com menor escolaridade relataram com maior frequência as situações relacionadas às tentativas e às vítimas de golpes.

De acordo com Oyadomari, isso não significa que pessoas com menor escolaridade estejam necessariamente mais expostas às fraudes, mas que os impactos podem ser maiores quando elas são atingidas.

O cenário reforça a necessidade de combinar políticas de proteção de dados com iniciativas voltadas ao desenvolvimento das habilidades digitais da população.

A avaliação dos pesquisadores é de que não basta orientar as pessoas sobre a importância de proteger informações pessoais. Também é necessário ampliar a capacidade dos usuários de reconhecer riscos e utilizar ferramentas digitais de maneira mais segura.

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Brasileiros usam inteligência artificial para tratar de assuntos pessoais

A pesquisa também analisou, pela primeira vez, a relação dos brasileiros com ferramentas de inteligência artificial generativa sob a perspectiva da privacidade.

Embora trabalho e estudos sejam os principais motivos para utilizar essas plataformas, com 73% das menções, os usuários também relatam compartilhar informações relacionadas à vida pessoal.

Preferências e gostos, como filmes e músicas, aparecem em 58% dos casos. Sentimentos e emoções são mencionados por 54%, enquanto dados de saúde, como sintomas e resultados de exames, chegam a 52%. Fotos próprias ou de pessoas conhecidas são compartilhadas por 50% dos usuários.

Também aparecem informações financeiras, como orçamentos e investimentos, citadas por 41%, e dados pessoais, como nome, endereço, data de nascimento e CPF, mencionados por 37%.

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Apesar da utilização frequente, existe preocupação com a forma como essas informações são tratadas. Entre os usuários de IA generativa, 66% afirmaram estar preocupados ou muito preocupados com o uso de seus dados pessoais pelas empresas responsáveis pelas ferramentas. O índice sobe para 72% entre pessoas com maior nível de escolaridade.

Segundo Oyadomari, a utilização das ferramentas e a preocupação com a privacidade podem coexistir. Os usuários reconhecem os benefícios da tecnologia, mas ainda têm dúvidas sobre a transparência das empresas em relação ao tratamento das informações fornecidas.

O compartilhamento de dados de saúde merece atenção especial. Considerados dados pessoais sensíveis pela legislação brasileira, essas informações podem incluir sintomas, exames e outras questões relacionadas à saúde dos usuários.

Empresas ainda avançam de forma limitada na proteção de dados

A pesquisa também avaliou as práticas adotadas por empresas brasileiras. Entre as organizações entrevistadas, 69% afirmaram armazenar dados pessoais de clientes ou usuários.

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A biometria foi o tipo de informação mais frequentemente armazenado, citada por 31% das empresas, seguida pelos dados de saúde, com 26%. Entre as organizações que armazenam informações pessoais, 9% também disseram guardar dados de menores de 18 anos.

O levantamento aponta estabilidade na adoção de estruturas formais de governança e adequação à Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD).

Entre as empresas pesquisadas, 40% realizam reuniões específicas sobre proteção de dados, enquanto 32% contrataram consultorias ou assessorias externas especializadas. Em 20% das organizações existe uma área ou funcionários dedicados ao tema e apenas 16% afirmaram ter nomeado formalmente um encarregado de proteção de dados, o chamado DPO.

Entre as medidas mais adotadas estão alterações em contratos vigentes, mencionadas por 30% das empresas, criação de políticas para o uso de dados de funcionários, com 29%, e desenvolvimento de políticas de privacidade, com 28%.

Órgãos públicos ampliam estruturas de proteção de dados

No setor público, a pesquisa identificou avanços na criação de áreas ou responsáveis por privacidade, principalmente nas administrações municipais.

A parcela de órgãos públicos que destinam parte de sua estrutura para questões relacionadas à privacidade passou de 36%, em 2023, para 42%, em 2025. Entre as prefeituras com até 10 mil habitantes, o percentual subiu de 31% para 37%.

Nos órgãos federais e estaduais, estruturas relacionadas à proteção de dados estão mais presentes no Ministério Público, com 100%, no Judiciário, com 94%, e no Legislativo, com 83%. No Executivo, o índice é de 74%.

Também houve crescimento na adoção de políticas de segurança da informação em estabelecimentos públicos de saúde. O percentual passou de 24% para 28%, chegando a 54% entre hospitais públicos com mais de 50 leitos.

Outro avanço foi registrado na capacitação das equipes. A proporção de órgãos da rede pública que realizaram treinamentos em segurança da informação dobrou, passando de 16%, em 2023, para 32%, em 2025.

Escolas ampliam políticas de proteção de dados

As escolas públicas também apresentaram avanços. A proporção de instituições com documentos contendo diretrizes de proteção de dados e segurança da informação passou de 37%, em 2020, para 54%, em 2025.

Ao mesmo tempo, a preocupação com a privacidade aparece como um dos obstáculos para a adoção de ferramentas digitais na gestão escolar. Entre os gestores de escolas públicas que não utilizavam programas, sistemas ou plataformas digitais, 39% apontaram a proteção de dados como um dos principais desafios.

Na rede municipal, o índice é de 36%, enquanto chega a 58% entre gestores das redes estaduais.

Para 25% dos gestores, a segurança dos dados também é um dos motivos para não utilizar dispositivos e plataformas educacionais digitais. Entre os problemas citados estão o risco de vazamento ou roubo de informações dos alunos, mencionado por 16%, e a falta de clareza nos termos de uso sobre o tratamento dos dados, apontada por 15%.

A formação dos profissionais também avançou. Segundo o levantamento, 73% dos gestores receberam orientações das redes de ensino sobre o tratamento de dados de alunos e profissionais. Além disso, 46% das escolas realizaram debates ou palestras sobre o tema, contra 32% em 2023.

Proteção de dados exige responsabilidade compartilhada

Para Renata Mielli, coordenadora do CGI.br, a responsabilidade pela proteção de dados não deve ser colocada exclusivamente sobre os usuários.

Embora seja importante que as pessoas tenham cuidado com as informações que compartilham na internet, empresas e órgãos públicos também precisam adotar medidas de segurança, transparência e governança.

A pesquisa reforça que a proteção de dados está diretamente relacionada aos direitos dos cidadãos em um ambiente cada vez mais digital. Com o aumento do uso de serviços online e de ferramentas de inteligência artificial, a segurança das informações pessoais passa a exigir não apenas maior atenção dos usuários, mas também responsabilidade das organizações que coletam, armazenam e utilizam esses dados.

Escrito por

Aline Ferrari

Aline Ferrari, estagiária na Redação do Visão Oeste, sob a supervisão da editora Jenifer Oliveira
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