sexta-feira, 17 de julho de 2026
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Opinião

Violência escolar: quando o silêncio também machuca

"Apesar do discurso de inclusão, ainda há um abismo entre o que se promete e o que se pratica. Alunos em situação de vulnerabilidade social, com deficiência, neurodivergência ou pertencentes a minorias étnicas e de gênero, muitas vezes, não encontram espaço real de pertencimento", escreve Solange Aroeira em sua coluna no Visão Oeste.

Por Solange R. Aroeira | Atualizado em: 04/09/2025 20:10 Siga-nos no Google News
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Estamos prestes a finalizar o primeiro semestre do ano letivo, e não faltam notícias nas mídias convencionais e nas redes sociais sobre a violência na escola, da escola e para a escola.

Participei, no ano passado, de um programa de televisão em que tentei explicar que não falamos apenas da violência na escola, mas das diversas formas de violência que a atravessam.

Todo começo de aula é assim: o som do sinal marca o início de mais um dia letivo. No corredor, vozes agitadas, mochilas arrastadas, professores tentando manter a ordem. Mas, por trás da rotina escolar, muitas vezes ecoa um barulho que não se ouve — o da violência invisível que circula pelos muros da escola.

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Ela não se limita a agressões físicas. Está nos olhares que excluem, nas palavras que ferem, nas regras que oprimem, e até mesmo nas estruturas que falham em proteger. A escola é o reflexo de nossa sociedade — querendo você ou não, vou ser direta.

Afinal, são nossos filhos e netos que enviamos conscientemente para a escola, com o intuito de que adquiram conhecimento e aprendam a se organizar em grupo, ou seja, socializar. Ou haveria outros motivos?

Você pode até não concordar com a ideia apresentada neste texto, mas a educação (e, por extensão, a escola) é um reflexo da estrutura social, pois transmite os valores coletivos de uma sociedade.

Sendo a escola o reflexo da sociedade, uma vez que é para todos, podemos afirmar que nossa sociedade está, a cada dia, mais…

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… Fragmentada?

A escola acolhe todos os sujeitos — com suas histórias, culturas, lutas e desigualdades — e espelha, de forma nítida, os desafios que enfrentamos como sociedade. Quando vemos o preconceito atravessar as relações dentro da sala de aula, quando crianças e adolescentes naturalizam a exclusão, quando há silenciamento de vozes dissidentes, isso tudo revela uma sociedade ainda marcada por divisões profundas.

… Desigual?

Apesar do discurso de inclusão, ainda há um abismo entre o que se promete e o que se pratica. Alunos em situação de vulnerabilidade social, com deficiência, neurodivergência ou pertencentes a minorias étnicas e de gênero, muitas vezes, não encontram espaço real de pertencimento. A escola universaliza o acesso, mas ainda caminha lentamente na garantia da permanência com equidade e dignidade.

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… Intolerante?

Em um tempo em que a diversidade se torna cada vez mais visível e reivindica reconhecimento, cresce também o discurso de ódio e a dificuldade em lidar com o diferente. A escola, como espaço plural, torna-se campo de disputas. Se nela surgem as primeiras manifestações de empatia e respeito, também podem emergir os primeiros traços de discriminação — o que reflete o nível de intolerância que se espalha no tecido social.

… Desafiada?

A escola carrega o peso de corrigir injustiças históricas e, ao mesmo tempo, preparar para um futuro incerto. Espera-se que forme cidadãos críticos, éticos e comprometidos com o bem comum. Mas como fazer isso em contextos de precarização, violência e desvalorização? A sociedade deposita na escola uma expectativa imensa — muitas vezes sem oferecer as condições necessárias para que ela cumpra seu papel transformador.

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A violência escolar, infelizmente, não é um fenômeno novo. O que muitos ainda não compreendem é que ela assume múltiplas faces. Especialistas a dividem em três dimensões fundamentais: violência na escola, da escola e para a escola.

Violência na escola: entre alunos, entre paredes

Essa é a face mais conhecida. Acontece dentro dos muros escolares, entre alunos, professores e funcionários. São os casos de bullying, agressões verbais e físicas, ameaças, furtos e vandalismo. É a violência visível, noticiada, gravada em celulares. Mas ela também pode ser sutil, como o isolamento social imposto a um aluno neurodivergente ou os xingamentos disfarçados de “brincadeira”.

Violência da escola: quando a instituição também fere

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Pouco se fala, mas a própria escola pode ser agente de violência. Quando uma professora grita com os alunos diariamente, quando um estudante é punido por se expressar, ou quando a gestão silencia denúncias de racismo ou capacitismo, temos o que os estudiosos chamam de violência institucional. A violência da escola se manifesta por meio de práticas pedagógicas excludentes, discursos autoritários, negação do direito à escuta e à diferença. É quando a escola, que deveria ser espaço de acolhimento e emancipação, se torna um ambiente de opressão e medo.

Violência para a escola: o abandono das políticas públicas

Já a violência para a escola é aquela que vem de fora para dentro. É o reflexo do abandono estatal, da falta de investimento em educação, da precarização das condições de trabalho dos professores, da ausência de políticas públicas para lidar com a diversidade, a pobreza e a saúde mental. É quando a escola recebe alunos em sofrimento sem apoio, sem profissionais de suporte como assistentes sociais e psicólogos. É quando vemos docentes e gestores adoecendo sem estrutura, e a falta de itens básicos como merenda, papel, salários dignos e segurança. Essa violência atinge a escola como instituição e, indiretamente, todos os que fazem parte dela.

Combater a violência escolar — em todas as suas formas — é um desafio que exige sensibilidade, formação contínua, articulação comunitária e políticas públicas consistentes.

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Mas, sobretudo, exige vontade de transformação. Porque a escola, antes de tudo, deve ser um espaço de dignidade. E dignidade não se ensina com palavras. Ensina-se com exemplo.

Combater a violência em todo o contexto escolar exige mais do que câmeras e punições. Requer um olhar sensível, políticas públicas eficazes, formação continuada para educadores, escuta ativa dos estudantes e envolvimento das famílias. Precisamos de escolas que sejam democráticas, inclusivas e seguras — não só fisicamente, mas emocional e simbolicamente. É tempo de entender que o problema não está apenas “no aluno difícil” ou “na falta de limites”.

A violência escolar é um reflexo das desigualdades sociais, do racismo estrutural, do capacitismo, do machismo e da negação da diversidade. É um espelho do que somos — e também daquilo que podemos transformar.

O primeiro passo? Falar sobre isso. Quebrar o silêncio que também machuca.

 

Autor

  • Solange R. Aroeira é psicóloga, pedagoga e Secretária das Mulheres, Direitos Humanos e Neurodiversidade em Cotia-SP. Especialista em neurodiversidade e educação especial, atua há mais de 15 anos nas áreas clínica, educacional e de recursos humanos. Palestrante e autora do livro "Como viramos estrelinhas: Finitude", dedica-se a promover ações estratégicas para inclusão social e cidadania plena. Redes sociais: @solangearoeira

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