sexta-feira, 17 de julho de 2026
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Opinião

Violências de gênero persistem e se reinventam na era digital

Trabalhando na Secretaria da Mulher e acompanhando de perto as ações do grupo de trabalho do consórcio Cioeste, é impossível não se deparar diariamente com a gravidade da violência contra as mulheres.

Por Solange R. Aroeira | Atualizado em: 12/03/2026 08:50 Siga-nos no Google News
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Trabalhando na Secretaria da Mulher e acompanhando de perto as ações do grupo de trabalho do consórcio Cioeste, é impossível não se deparar diariamente com a gravidade da violência contra as mulheres. O tema deixa de ser apenas estatística e passa a ter rostos, histórias e urgência. Ainda assim, os números ajudam a dimensionar o problema: dados do Ministério da Justiça indicam que, em 2025, foram registrados 1.530 casos de feminicídio no país — uma média de 4,2 por dia. Cada registro revela não só a persistência dessa violência, mas também o tamanho do desafio enfrentado por quem atua na proteção e na garantia de direitos.

A violência contra mulheres segue como uma das mais recorrentes violações de direitos humanos no Brasil e no mundo. Mesmo com avanços legais e maior visibilidade pública, o fenômeno mantém raízes estruturais e assume novas formas, especialmente em ambientes digitais, exigindo atualização constante das políticas de enfrentamento e do debate social.

Especialistas definem a violência de gênero como aquela praticada em razão do gênero, identidade de gênero ou orientação sexual, ligada a relações históricas de desigualdade de poder. No caso das mulheres, esse cenário é sustentado por estruturas sociais que naturalizam a desigualdade e toleram práticas de controle, dominação e exclusão. O problema é atravessado por fatores como raça, classe social, idade e deficiência, ampliando vulnerabilidades.

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Lei Maria da Penha ampliou compreensão das violências

No Brasil, a Lei Maria da Penha (Lei nº 11.340/2006) consolidou o entendimento de que a violência doméstica e familiar vai além da agressão física. A legislação reconhece cinco formas principais de violência contra a mulher: física, psicológica, sexual, patrimonial e moral. Essas manifestações costumam ocorrer de forma combinada, criando ciclos difíceis de interromper.

O feminicídio representa o extremo desse processo. Trata-se do assassinato de mulheres motivado pela condição de gênero, geralmente precedido por episódios de violência e ameaças que nem sempre recebem resposta social ou institucional adequada.

Machismo e misoginia ganham novas linguagens

Conceitos como machismo, sexismo e misoginia continuam centrais para compreender o fenômeno. Eles operam como sistemas de crenças e práticas que reforçam a superioridade masculina e legitimam desigualdades. Na contemporaneidade, esses discursos passaram a circular com força nas redes sociais e fóruns online.

Movimentos como os chamados “red pills” e grupos autodenominados “incels” exemplificam esse cenário. Embora apresentem narrativas que se dizem racionais ou baseadas em frustrações individuais, esses espaços frequentemente reproduzem discursos de hostilidade contra mulheres e resistência a avanços em direitos de gênero, ampliando riscos sociais e tensionando a convivência democrática.

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Enfrentamento exige ações integradas

O combate à violência de gênero depende de estratégias que vão além da punição.

Educação para igualdade, fortalecimento de políticas públicas, atuação articulada entre saúde, assistência social e segurança, além do enfrentamento de discursos de ódio no ambiente digital, são apontados como caminhos essenciais.

Também integram essa rede instrumentos legais, simbólicos e tecnológicos que ampliam a proteção às mulheres:

  • Sinal Vermelho: gesto silencioso de pedido de ajuda em espaços públicos, como farmácias e repartições.
  • Sinal com as mãos: código visual utilizado quando a vítima não pode falar.
  • Banco Vermelho: ação educativa instalada em espaços públicos para conscientização sobre feminicídio.
  • Botão do Pânico: dispositivo que aciona forças de segurança em situações de risco.
  • Tornozeleira eletrônica: monitoramento do agressor com definição de zonas de afastamento.
  • Medidas protetivas: ordens judiciais como afastamento do agressor, proibição de contato e suspensão do porte de armas.
  • Aplicativos de proteção: ferramentas digitais para pedidos de socorro, envio de localização e acesso à rede de apoio.

Tornar esses mecanismos amplamente conhecidos é fundamental para romper o silêncio e fortalecer a rede de proteção. A violência de gênero não é um problema individual, mas um fenômeno social e estrutural — e seu enfrentamento exige mobilização coletiva, acesso à informação qualificada e políticas públicas contínuas, articuladas e efetivas.

Minha mãe sempre dizia que uma andorinha só não faz verão. É um chamado à ação conjunta: dar as mãos, seguir adiante, denunciar, falar, criar espaços de escuta, articulação e produção de conhecimento. É assim que se constrói uma mudança real — com presença, coragem e ação coletiva.

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Autor

  • Solange R. Aroeira é psicóloga, pedagoga e Secretária das Mulheres, Direitos Humanos e Neurodiversidade em Cotia-SP. Especialista em neurodiversidade e educação especial, atua há mais de 15 anos nas áreas clínica, educacional e de recursos humanos. Palestrante e autora do livro "Como viramos estrelinhas: Finitude", dedica-se a promover ações estratégicas para inclusão social e cidadania plena. Redes sociais: @solangearoeira

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