A pulguinha dançando iê-iê-iê
Partindo de memórias de uma época em que a informação era "palpável", o colunista Marcos Agostinho reflete sobre como a nostalgia se tornou uma poderosa ferramenta de manipulação política e alerta para os perigos da Inteligência Artificial no futuro.
A pulguinha dançando iê-iê-iê,
O pernilongo mordendo meu nenê,
E o dia inteiro a traça passa a roer,
Nessa festa eu preciso pôr um fim…
Virou moda o saudosismo entre as pessoas mais velhas como eu, nascido na década de sessenta e tal. Nem sei qual letra do alfabeto é a minha geração… Acho que é a “W”. Tenho amigos que chegam a chorar ao ouvir jingles de “reclames” comerciais de antanho. Sim, não é exagero! Dia desses, fiquei sabendo que até karaokê já fizeram com essas musiquinhas que dão saudade. Daí para lembrar do festival de férias da “Sessão da Tarde” com filmes de Elvis Presley e Jerry Lewis é um pulinho. Talvez alguns de vocês, jovens leitoras e leitores, não saibam do que estou falando. Sorry. Mas não é apenas a romântica nostalgia que leva às lágrimas a minha galera contemporânea que serve para lembrar tempos que não voltam mais.
Memórias do passado foram investidas de valor e usadas política e eleitoralmente de 2015 para cá de forma bem estudada. Mas está tão gostoso falar do passado, não é? Vamos continuar mais um pouco. Eu me lembro que, no campo da informação e do entretenimento, as coisas mudaram bastante também. Sou da era em que a informação era palpável, literalmente. A gente pegava a notícia com a mão. Revistas de variedades (Veja, Visão, Manchete, Isto É, Fatos e Fotos, Cruzeiro. Gente! Eu peguei o tempo da revista Cruzeiro!). Jornais os mais variados: Além da Folha de S. Paulo, que ainda circula, tinha o Estadão, que de tão diminuto, em conteúdo e formato, virou “estadinho”; Notícias Populares, Jornal da Tarde, Folha da Tarde…
No Brasil, mesmo nos espaços urbanos, essa prática de leitura escrita, sistemática e cotidiana, muitas vezes perde para o rádio e a TV. Nos arrabaldes, nas periferias então, nem se fala, ou melhor, se fala mais do que se lê. Por isso, lá pelo final dos anos oitenta, eu me sentia o máximo quando entrava no trem lendo jornal. E me sentia mais “o máximo” ainda quando eu voltava do centro de São Paulo, da Faculdade, num sábado à tarde. Quando eu entrava no trem, aquele mesmo do poema de Solano Trindade:
“Trem sujo da Leopoldina
correndo correndo
pra dizer
tem gente com fome”
Eu já vinha lendo o jornal do DIA SEGUINTE! Ah, moleque! A edição dos jornais de domingo fechava no sábado à tarde. A Folha de S. Paulo e o Estadão eram jornalões. A edição de domingo vinha repleta de suplementos com assuntos candentes que discutíamos no buteco a semana toda, e ali também, nos balcões, articulávamos a agenda cultural de cinema, teatro e shows – preferencialmente na faixa dos “digrátis”. Caderno de TV, os quadrinhos… aaahhh… O Chiclete com Banana, Os Piratas do Tietê, Geraldão… O rock, o reggae, o samba… no vinil! As fotos da capa dos discos, as “bolachas”, a contracapa, o encarte, o cheiro do papel, a tinta… os créditos e o quem é quem na fila do pão do mundo da música.
“Poxa, essa figura tocou com o Arrigo e o Itamar. Quem fez a foto dessa capa é a mesma pessoa que fez o disco tal e tal.”
E assim a gente ia curtindo cada pedacinho da obra de arte. A música é apenas parte das memórias do tempo em que a gente pegava o entretenimento com a mão. Uma forma diferente de consumir cultura, política e notícias.
Outra plataforma. Nem melhor nem pior, outra forma. De todo modo, nós íamos buscar o conteúdo. Ele não chegava fácil em nossas mãos, e o mundo girava em outro ritmo, baseado nessa velocidade de sabermos sobre as coisas.
Sem TV a cabo ou streaming, nem mesmo o telefone fixo era popularizado, e o celular só “pegou” no final de 1990, convivendo com os simpáticos pagers. Da internet discada até o cabeamento óptico e outros baratos, chega a IA, assim chamada a Inteligência Artificial.
Na IA, o que mais tem de real nessa parada está no chavão: “tudo está indo muito rápido”. E, sim, para muitas pessoas, assim como eu, isso vai sufocando. Engasgamos com tanta informação, de tão rápidas, tão vastas e, ao mesmo tempo, tão fragmentadas, segmentadas e tão rapidamente atualizadas, ratificadas, retificadas, verificadas, desmentidas, (re)validadas… e os golpes, e os joguinhos, e as bets… rápido, fácil, rápido.
Não! Não tenho saudade do exercício que fazia antes. Vejam: sair de casa, andar um tanto a pé até a estação de trem de Carapicuíba, esperar, embarcar, depois pegar ônibus para então chegar ao escritório do IBGE na capital. Uau. Subir até a biblioteca, requisitar o anuário do último Censo Demográfico para então obter os dados de determinada cidade — o que é chave para estabelecer o universo e extrair daí a amostra de uma pesquisa.
Entre sair e voltar para casa com uma folha xerocopiada contendo os dados, levava, com sorte, tuuuudo correndo bem, umas cinco horas, ida e volta. Atualmente, para fazer a mesma operação, levo entre 4 e 5 minutos. Incomparável. Não sinto saudade desse rolê! Numa conta rápida, consigo alcançar o mesmo objetivo cerca de 50 a 60 vezes mais rápido. Quero!
Na era do tudo mais rápido, do cada vez mais artificial, reviver o passado romântico e dizer que “naquele tempo era melhor” tornou-se uma marca para o time dos “tiozinhos”. A escassez de intimidade com a tecnologia digital me parece ser diametralmente oposta à presença de uma educação familiar (de sangue e estendida) e de uma vida social mais “regrada”, onde o termo da palavra “conservador” ornava com o próprio tempo, mais lento, que parecia durar mais para passar e que, portanto, conservava por mais tempo os “valores sociais” que vão se transformando cotidianamente.
A mudança de comportamentos é tão rápida quanto a validade da “última versão número tal” de um modelo de celular. A pandemia de Covid suscitou rupturas, que se somam a um curso natural das transformações que ocorrem na sociedade, nas mais variadas esferas.
Maliciosamente, na esteira desses rolos de filme de reclames e lembranças de infância e adolescência, estrategistas e “marqueteiros” perceberam a possibilidade de buscar memórias e ativar o imaginário dos “tiozões/tiozinhos” que acreditam que “naquele tempo era melhor” para chegar eleitoralmente a corações e mentes. Vamos observar? Redes sociais, postagens, grupos, correntes… sendo movimentadas para divulgar “memes” de nostalgia de todas as formas, para captar adeptos, para se fortalecer as correntes políticas mais “conservadoras”.
Quem não se lembra de carrinho de rolimã e dos machucados advindos das falhas arquitetônicas dos bólidos de madeira, do traçado do circuito ou da inoperância na condução que acarretavam experiências de “quase morte”? Quem nunca arrancou a “tampa do dedão” no asfalto que atire a primeira pedra! Pedrada?!! Sim! Já vi amigos com a cabeça rachada por certeiras estilingadas. Na periferia, na década de 60, 70… como tratávamos os machucados? Bálsamo com sal, cinza de carvão, teia de aranha, pó de café… Mais adiante, na década de 80, já usávamos mais o Mertiolate, daquele que, ao colocar, doía mais que o ferimento. Ardia muuuuito. Com o acabar, ou “cucabá”, como diziam as pessoas mais velhas, já aqui pelos anos 2000, foi lançada uma versão desse remédio que não ardia mais, porém com a mesma eficácia. Fruto da tecnologia, que acompanha os tempos, a evolução da ciência e, consequentemente, as mudanças sociais.
E quem não se lembra quando, sub-repticiamente, memes começaram a aparecer sugerindo que: se determinado candidato ganhasse a eleição para Presidente do Brasil, o Mertiolate iria voltar a arder? O que se queria dizer com isso? A mente fértil de um sociólogo vai longe e tece relações entre uma coisa e outra, a juntar o “lé com o cré”, como dizia minha mãe. As mais inocentes lembranças de um tempo de ordem e de progresso, e de “homem com homem, mulher com mulher, faca sem ponta e galinha sem pé”, serviam como alegoria da volta de um tempo histórico que inclusive tinha como regime político no país a ditadura militar.
A comunicação e as plataformas de informações se transformam rapidamente, e não há como os processos eleitorais ficarem imunes ou alheios à sofisticação e mudanças tecnológicas. O que não muda é o objeto dos discursos. O público a ser conquistado para as urnas — antes de papel e agora de botão. O tiozinho e a tiazinha do WhatsApp permanecem. Mudam? A pessoa fervorosa que recebe uma fake news no grupo da igreja agora já está sendo treinada a consumir IA. Se antes ela recebia uma foto e um texto do cantor Roberto Carlos dizendo que era para votar em candidato “x”, agora ela vai receber um vídeo com o “próprio”, de viva voz, pedindo voto. A inteligência artificial avança a olhos vistos a cada dia.
O uso da IA nas eleições de 2026 no Brasil poderá ter vários efeitos. Os positivos são incertos, contudo os negativos estão garantidos. Serão inevitáveis os malefícios, haja vista os indícios da sofisticação das fake news. A desinformação e a manipulação que grassam nas eleições criam e disseminam informações falsas ou enganosas, dúbias, e influenciam a opinião pública. A criação de propagandas personalizadas com viés poderá influenciar a opinião do eleitorado, especialmente se for usada para veicular discursos e mensagens personalizadas, com artistas, influencers e por aí vai.
Não é à toa que as big techs tanto se esforçam para diminuir ou eliminar as proibições e punições aos que usam e abusam de conteúdos — e agora também de formatos — falsos nas plataformas. X, Insta e Face ocupam cada vez mais espaço nos processos eleitorais, pois dão lucro.
As correntes de pensamento político mais “conservadoras” frequentemente se utilizam de estratégias que evocam sentimentos nostálgicos e familiares para interagir ou manipular — verbete bastante usado nas campanhas eleitorais — o imaginário de eleitores.
A nostalgia é um sentimento poderoso que pode ser usado para criar uma conexão emocional ao evocar lembranças de um passado idealizado. Estratégias de extrema direita intentam gerar sensações de perda e desejo por um retorno a um tempo mais “seguro” e “estável”. Imagens e símbolos que evocam um passado, como a casa da avó ou brincadeiras de infância, podem suscitar um sentimento de familiaridade e conforto.
Temos, no cenário, possibilidades de conexão emocional com o “povo” e de oferecer uma oportunidade real para que se sintam mais próximos do político e de suas ideias. Essa corrente de pensamento enfatiza a importância de valores tradicionais, como a família, as religiões ocidentais e as autoridades. Ao evocar lembranças de uma educação mais rigorosa de pai e mãe, pode-se criar uma sensação onde reminiscências de um tempo em que esses valores eram mais respeitados, dentro das famílias classificadas como estruturadas e tradicionais.
Em tempo de IA, no campo das campanhas eleitorais, a roupagem ultramoderna de comunicação desconforta e confunde, diante das contradições que embaralham nossas cabeças e em que, em breve, não saberemos distinguir o que é verdade e o que é mentira. Nossa empreitada, a da “Geração W”, é não deixar morrer a criticidade do tempo em que pegávamos as informações com as mãos. Nesta festa, é preciso pôr um fim.