sexta-feira, 17 de julho de 2026
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Marcos Agostinho

Pós Bolsonaro será o “Novo Normal?”

Artigo de Marcos Agostinho: o Brasil vive no "novo normal" de escândalos e notícias que são esquecidas rapidamente. Leia a análise sobre o 'Pós Bolsonaro', a polarização e a política como um espetáculo.

Por Marcos Agostinho | Atualizado em: 28/11/2025 12:56 Siga-nos no Google News
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“No novo normal
Nunca são contas feitas
Acordaste informado
E ignorante te deitas
E amanhã pela manhã
Será que algo mudou
Tudo não passou de um pesadelo fugaz”
Novo normal – Sérgio Godinho

Era para ser um artigo sobre o mês da Consciência Negra, mas, como diz o manual não escrito das redações jornalísticas, a matéria caiu. Motivo? O “Gênio” do Bolsonaro, sua família e assessores, claro. No Brasil, quem decide com o que devemos nos comover, nos enraivecer, festejar, rir e chorar não somos nós. É uma força invisível – talvez formada por editores, algoritmos e o humor do Twitter – que, em segundos, joga no ventilador a próxima pauta quente e esquece a anterior como se fosse um meme velho.

Na montanha russa das emoções nacionais da semana “retrasada”, o país e o mundo ficaram chocados com a operação policial no Rio, onde mais de 130 pessoas foram assassinadas. Drama, revolta, manchetes sangrentas. Dias antes outra grande operação já experimentava o silêncio: a operação que prendeu a elite do PCC nos escritórios chiques da Faria Lima. O crime ficou gourmet, servindo café expresso e planilhas em Excel.

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Enquanto isso, lá fora, as taxas do Trump, que atingiram 50%, Lula já fez química com ele, elas já caíram. A guerra na Faixa de Gaza terminou – ou não terminou, quem sabe? Já não se fala mais nisso. Entre um conflito e outro, COP30 virou palco de protestos, acordos, incêndios e debates sobre o cardápio vegano dos líderes mundiais. E, claro, não faltou o banqueiro picareta em fuga (pleonasmo brasileiro, afinal, a honestidade financeira por aqui é tão exótica quanto o mundial do Palmeiras).

Falando em fuga: Bolsonaro, que agora sim merece ser chamado de Bozo, virou notícia permanente pela prisão… Por quanto tempo será notícia quente? Sem tempo para respirar, surge a indicação de um novo ministro para o STF – mas que já já ninguém mais lembra o nome dele nem da birra do Alcolumbre que ninguém mais se lembrará dele daqui um tempinho.

É tanta coisa acontecendo ao mesmo tempo que fica difícil decidir qual indignação vestir. O Brasil se tornou uma maratona de trending topics: algo grave se mistura com o fútil, e juntos eles batem na porta da nossa atenção antes de desaparecerem atrás do próximo escândalo. O país não tem tempo para luto, nem para festa. Tem pressa para o próximo “breaking news”.

O mundo em colapso e ainda há tempo para dar uma olhadinha na vida dos famosos e no futebol. Trump vai invadir a Venezuela? Cuba faliu mesmo? E o Schumacher, está vivo? A guerra do Congo vai atrapalhar o namoro da Virgínia e Vinicius? Palmeiras tem ou não tem mundial? Essas perguntas, todas igualmente urgentes (ou não), competem pelo espaço nas nossas timelines. O que importa hoje? Amanhã ninguém lembra.

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Celebremos nossa capacidade de esquecer rapidamente. O Brasil tem memória de peixe beta, mas coração de maratonista: corre atrás do próximo assunto, engole o anterior, e segue pulando de tragédia a meme, de indignação a piada, de “furo” a esquecida notícia.

Seria esse o tal de “novo normal” a rotina de escândalos, impeachments, memes, debates acalorados como os de torcedores de Corinthians x Palmeiras. Se antigamente se discutia futebol na segunda-feira e política na sexta, hoje tudo se mistura. “A política está igual ao Brasileirão, cada rodada uma surpresa”, escreveu um colunista que, segundo rumores, torcia para o time que estivesse ganhando. E assim, o Brasil trocou a estabilidade pelo entretenimento permanente. Bem-vindo ao Pós Bolsonaro, onde o absurdo é só o começo.

Quando Dilma Rousseff ouviu o apito final de seu governo, não foi por falta de avisos: “O país não será governado por pedaladas”, disse um deputado que, ironicamente, nunca aprendeu a andar de bicicleta. O impeachment foi mais do que política; foi espetáculo, foi Fla-Flu em Brasília. Os jornais estampavam: “Brasil vive novo capítulo de instabilidade” — como se o velho capítulo fosse calmo. Era o início de uma partida em que a direita saiu do banco e entrou no gramado com chuteiras de ponta.

No clássico da polarização Esquerda x Direita, de um lado, Luiz Inácio Lula da Silva, “o operário que venceu o sistema”; do outro, Jair Bolsonaro, “o capitão que prometeu acabar com tudo isso aí”. Lula ignorando as quedas diz — “Não há nada que me derrube”! — enquanto Bolsonaro, com seu estilo inconfundível, declara: “O Brasil acima de tudo, Deus acima de todos, e eu acima do VAR”. É o duelo dos titãs, cada um com sua torcida organizada e hashtags próprias, porque no Brasil, até a polarização tem torcida uniformizada.

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Usando o futebol como metáfora, na política Lula é Corinthians: sofre, resiste, nunca cai de verdade. Bolsonaro, por sua vez, é Palmeiras: aposta no ataque, diz que nunca caiu, mesmo quando tropeça nas próprias pernas. Os estádios viraram palanques, as torcidas viraram militâncias. “Aqui é Corinthians, aqui é povo!” grita a esquerda, enquanto a direita responde: “Porco é tradição, conservadorismo é raiz!” E o juiz? Esse ninguém sabe para quem apita.

No vestiário da direita, o bolsonarismo tenta se reinventar. “Já é muito tempo de PT, parece uma eternidade”, diz um deputado que só descobre que é oposição quando muda o governo. Enquanto isso, os escândalos pipocam como bolas na hora do aquecimento. O “novo normal” é a busca desesperada por narrativas: “Não foi corrupção, foi só um cartão amarelo mal aplicado”. Mas o placar já não é tão generoso, e a torcida começa a pedir substituição. O Bolsonarismo está em crise e nem o VAR pode salvar.

Lula volta ao campo como aquele craque que nunca se aposenta de verdade. “O Brasil tem jeito, e eu sou a prova viva disso”, diz, enquanto dribla adversários e ex-amigos. Para a esquerda, é como o Corinthians voltando da Série B; para a direita, é o retorno do adversário que nunca deveria ter saído do jogo. Ironia das ironias: quem prometeu acabar com “tudo isso aí” agora vê que “isso aí” é mais difícil de vencer do que imaginava.

Nos bastidores, as pautas sociais jogam suas próprias partidas. “Nunca se falou tanto de diversidade, mas nunca se cedeu tão pouco”, diz uma ativista que já perdeu a conta dos debates em mesa de bar. A política abraça causas como quem faz gol de empate aos 45 do segundo tempo: é bonito, emociona mas pode ser apenas um gol de honra na goleada. Porque no “novo normal”, cada bandeira é também um escudo.

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O futuro? Segue indefinido, como a escalação do Corinthians ou o mundial do Palmeiras. “Próxima eleição será a mais importante da história”, juram os analistas desde 1989. As alianças se formam, desformam, reformam, como técnicos em crise. Lula faz aceno à centro-direita, Bolsonaro busca pelo menos voltar à prisão domiciliar. E o eleitor, esse torcedor fiel, já aprendeu a gritar “olé” para ambos.

“O país está dividido”, dizem os jornais, como se alguma vez tivesse sido inteiro. Esse autor que vos escreve, se sente um maestro desse jogo, onde as partituras são as tabelas de pesquisa, fazendo uma “tabelinha” entre presente e futuro, que observa dos camarotes a bola rolando, torcida gritando, embalada pela narração (ou narrativa?) dos locutores e comentaristas. Porque no fim, o Brasil segue fiel ao seu “novo normal”: sempre pronto para o próximo clássico, seja no gramado ou no plenário.

 

Autor

  • Marcos Agostinho nasceu em Carapicuíba em 1966, cidade que seus avós escolheram para morar em 1945, vindos de Diamantina-MG. Cientista político e sociólogo com 35 anos de experiência, há 25 anos dirige o Instituto MAS, especializado em pesquisa de mercado, satisfação de clientes, avaliação de políticas públicas e, especialmente, pesquisas eleitorais. Autor do livro "Garimpeiro do Futuro", compartilha sua trajetória e reflexões sobre o setor de pesquisas no Brasil, incluindo os desafios enfrentados como empresário negro. Zela pelo nome, herança familiar e marca de sua credibilidade profissional.

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Uma resposta para “Pós Bolsonaro será o “Novo Normal?””

  1. Volnei disse:

    Perfeito retrato da montanha russa da overdose de informações e desinformações da sociedade liquida! E o Palmeiras tem mundial rsrsrs

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