Obrigado, Eduardo Bolsonaro!
Em novo artigo, o sociólogo Marcos Agostinho analisa o cenário político brasileiro rumo a 2026, destacando como os erros da direita, liderada por Eduardo Bolsonaro, acabam fortalecendo Lula e a esquerda.
Obrigado por tudo quanto
Você me fez por nada(…)
(…)Tudo isso é uma questão de querer
Reconhecer
Que quem sabe tudo
nada há de ser(…)
Muito obrigado
Muito obrigado
Muito obrigado
Por tudo que eu tenho passado
A disputa eleitoral de 2026 no Brasil se desenha sob o signo da complexidade, marcada por diferentes definições de “verdade” que permeiam o debate político e social. Para analisar esse contexto, é essencial distinguir entre três tipos de verdade: a verdade factual (aquilo que pode ser verificado objetivamente), a verdade narrativa (construída a partir de interpretações e discursos) e a verdade emocional (aquilo que ressoa com crenças e sentimentos). No cenário brasileiro, essas definições se confundem e se confrontam, influenciando a percepção da população e a estratégia dos atores políticos.
O Brasil vive, aliás sempre viveu, uma polarização onde direita e esquerda se consolidam como polos opostos, mas também subdivididos internamente. Uma ala da direita, marcada por lideranças como Eduardo Bolsonaro, busca manter sua base mobilizada, apesar de erros estratégicos e divisões. Por outro lado, a esquerda, capitaneada por Lula, enfrenta críticas por sua dificuldade em dialogar com setores mais amplos da sociedade e por sua fragmentação interna e baixa capacidade de mobilização. A polarização não é apenas ideológica; ela se manifesta em conflitos reais que atravessam famílias, redes sociais e até mesmo manifestações públicas.
Enquanto observador engajado, é impossível ignorar as limitações e contradições da esquerda brasileira. Apesar de sua histórica defesa dos direitos sociais, parte da esquerda peca por excessos de dogmatismo discursivo que não orna com a realidade e se distancia das demandas concretas das periferias e dos indecisos no momento da eleição. A autocrítica que Lula já começa a fazer é fundamental para o fortalecimento do campo progressista, sob pena de perder relevância diante de uma sociedade cada vez mais fragmentada.
Os acontecimentos recentes envolvendo Eduardo Bolsonaro, como suas declarações polêmicas e articulações junto a grupos conservadores, reacenderam debates sobre o papel da direita na disputa eleitoral. Lula, por sua vez, tenta resgatar o carisma das campanhas anteriores, apostando na mobilização das bases tradicionais e periféricas ao tentar trazer Guilherme Boulos para o governo. Esses líderes, com suas estratégias e erros, influenciam diretamente o clima da corrida eleitoral, tornando o cenário ainda mais imprevisível.
Em primeiro lugar, acredito que o PT deveria fazer uma campanha solidária para arrecadar fundos e erguer uma estátua em homenagem a Eduardo Bolsonaro, pois ele ajudou Lula e a esquerda a se reerguerem. Sem ele e suas estratégias salvacionistas para impedir a prisão do pai, as coisas estariam bem “russas”.
Afora os aspectos positivos ou negativos sazonais da economia, que refletem na aprovação do governo Lula e na intenção de voto, o fenômeno da “taxação do Trump” foi determinante para consolidar o atual presidente à frente na corrida eleitoral. No entanto, com tudo que está acontecendo, a distância entre o primeiro e o segundo colocado ainda é pequena.
Mesmo com todas as agruras do governo Bolsonaro, tentativa de golpe e possibilidade real de prisão, a direita ainda vê Bolsonaro como referência, mesmo com Eduardo Bolsonaro jogando contra o próprio gol.
A síndrome de “Dick Vigarista” acomete a família Bolsonaro e seus asseclas. Assim como no desenho “Corrida Maluca”, mesmo liderando a corrida, param para armar ciladas aos adversários. Em 2022, Lula talvez perderia a eleição se o grupo bolsonarista não tivesse atirado nos próprios pés, se Roberto Jefferson tivesse deixado de atirar em agentes da PF e Carla Zambelli não se incomodasse com a provocação de um militante petista e corresse atrás dele com uma arma em punho. A autossabotagem foi determinante para a derrota de Jair Bolsonaro.
O julgamento da trama golpista e a proximidade da possível prisão de Bolsonaro precipitaram a ação de Eduardo Bolsonaro, que resultou na taxação de produtos brasileiros pelo governo americano. Mais que um discurso nacionalista, Eduardo entregou de bandeja a camisa da seleção brasileira para a esquerda.
Além disso, ajudou Malafaia a revelar seu vocabulário chulo e a falsa liderança entre evangélicos. De quebra, tirou de Tarcísio de Freitas a “medalha de imbrochável” concedida por Bolsonaro. Se é apenas chantagem, ainda não sabemos, mas Tarcísio, o mais próximo de ser ungido pela “Faria Lima”, mostra-se desanimado para enfrentar Lula cada vez mais fortalecido. A direita, apesar de sua força nas redes e na pauta de costumes, comete erros estratégicos que podem custar caro nas urnas.
Nos anos 80, Jô Soares fazia um quadro humorístico com o bordão “tira o tubo”, quando um personagem, recém-saído do coma, não acreditava nas notícias do Brasil. Se um general tivesse entrado em coma antes da posse de Bolsonaro e acordasse agora, ficaria perplexo: Lula solto e presidente, Bolsonaro quase preso e inelegível. Um ex-presidiário presidente e um ex-presidente presidiário… Tudo em seis anos!
O jogo para Lula não está ganho, mas as notícias surpreendem, considerando que há 90 dias o maior problema do governo era a comunicação. Trocaram o ministro, mas os resultados não apareciam. Medidas que pareciam boas viravam desastre por falta de sincronia e viravam alvo fácil de deputados jovens influencers da direita.
Se tanta reviravolta acontece no Brasil, não será surpresa se o cenário mudar até as eleições. O recuo de Tarcísio pode ser apenas chantagem para que outros pré-candidatos desistam em prol de sua candidatura, ou um reconhecimento do estrago pelo alinhamento radical no 7 de setembro.
A química Lula x Trump pode ser uma vitória ou uma humilhação mundial, mas Lula ainda lidera as pesquisas, mesmo que caia. Uma coisa é governo, outra é candidato. A desaprovação do governo supera a aprovação, o que impede Lula de deslanchar nas pesquisas. Isso se deve à falta de dinheiro no bolso da “classe colaboradora” e ao baixo faturamento de MEIs – o quilo do contra-filé está incompatível com o saldo do Pix.
Além dos 42.200 bolsonaristas e 42.400 esquerdistas na Paulista, há milhões na Grande São Paulo que não estão nem aí para a disputa político-eleitoral. São esses e essas, sobretudo as eleitoras, que realmente decidem e formam o fiel da balança na polarização. Eles (elas!) engrossam a fatia dos indecisos ou indiferentes, e formam a verdadeira “base”.
A periferia, não só geográfica como econômica, composta pelos antigos “descamisados” de Collor, segue sendo a mesma. O PT, tempos atrás, realizou um estudo pela Fundação Perseu Abramo, no qual tive a honra de contribuir na tabulação de dados da pesquisa “CULTURA, POLÍTICA E ESPAÇO DE SOCIABILIDADE NAS PERIFERIAS: OLHARES DE COLETIVOS E MOVIMENTOS SOCIAIS”, parte do programa “Reconexões Periferias”. O objetivo é entender o que falta para uma nova conexão com a periferia, que hoje é diversa, heterogênea e acessível a outro tipo de discurso além do PT e outros partidos de esquerda.
Essa “base” ocupa um território disputado por lideranças religiosas, crime organizado e outros atores, que não estão passivamente gratos ou dispostos a retribuir em votos as conquistas do “Lula 3” ou as lembranças de prosperidade dos tempos da “Nova Classe C”. O verdadeiro “vale gás” foi o que Eduardo Bolsonaro deu a Lula, não o que Lula anuncia agora para conquistar as bases periféricas do eleitorado, especialmente as mulheres.
A mobilização política nas ruas é um termômetro do engajamento popular e a baixa adesão dos atos de esquerda quando realizada por lideranças tradicionais e sem a presença de Lula foi suprida pela participação dos artistas, como nas Diretas Já, e pode ser decisiva para ampliar o alcance das causas progressistas e sensibilizar setores historicamente alheios ao debate político. Em 2026, esse fenômeno tende a se acentuar, com a disputa por corações e mentes se estendendo muito além dos palanques.
A história política brasileira é marcada por episódios em que a mobilização artística foi crucial. A Campanha das Diretas, nos anos 1980, exemplifica como músicos, atores e intelectuais ajudaram a catalisar demandas populares e pressionar por mudanças institucionais. O paralelo com 2026 é inevitável: a legitimidade das ruas e o engajamento de figuras públicas continuam sendo ativos valiosos na disputa pelo voto e pela narrativa dominante. O jogo está só começando.