quinta-feira, 04 de junho de 2026
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Edson Pinto

Delivery 2: diversificar é sobreviver

Em novo artigo sobre o tema, Edson Pinto analisa "riscos de depender de uma plataforma e os perigos dos contratos de exclusividade".

Por Edson Pinto | Atualizado em: 04/09/2025 20:01
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Não entregue o controle do seu negócio: riscos de depender de uma plataforma e os perigos dos contratos de exclusividade

No Brasil, o mercado de delivery cresceu exponencialmente nos últimos anos, uma tendência que foi acelerada pela pandemia, mudanças nos hábitos de consumo e avanços tecnológicos. A projeção é ambiciosa: segundo a Statista, o setor movimentará US$ 21,18 bilhões em 2025, podendo atingir US$ 27,81 bilhões até 2029. Esse potencial é atraente para os empresários, mas também esconde armadilhas que podem comprometer a saúde financeira e operacional dos estabelecimentos.

Entre os perigos mais evidentes está a dependência de uma única plataforma de delivery. Atualmente, o iFood domina o mercado brasileiro com 55 milhões de usuários e taxas que podem chegar a 27% por pedido. Embora a chegada de concorrentes como Rappi, 99Food e a recém-anunciada Keeta traga esperança de maior competitividade, ainda é prematuro considerar que o mercado será equilibrado rapidamente. Muitas empresas continuam reféns de políticas impostas unilateralmente pela atual líder de mercado, o que pode colocar em risco a sustentabilidade de seus negócios.

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O Perigo de Colocar Todos os Ovos na Mesma Cesta

A dependência de uma única plataforma de delivery, como o iFood, significa dar a essa empresa o poder de definir as “regras do jogo”. Essas regras — taxas, algoritmos de busca e promoções — podem mudar a qualquer momento, muitas vezes sem aviso. Em casos extremos, empresários relatam que essas mudanças súbitas podem inviabilizar operações financeiras já ajustadas no limite. Esse cenário cria uma vulnerabilidade significativa no planejamento e na execução dos negócios.

Mais grave, a concentração operacional em uma plataforma pode levar a falência de um restaurante ou bar quando essas mudanças ocorrem. Diversos relatos apontam que o iFood não apenas cobra taxas elevadas, mas também se recusa a negociar ou mediar conflitos de maneira justa. Em um ambiente onde o delivery corresponde a uma parcela cada vez maior do faturamento — em alguns casos, superior a 50% —, essa prática pode ser fatal para pequenos e médios estabelecimentos.

Cuidado com Contratos de Exclusividade

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Outro problema que muitos empresários acabam negligenciando é o contrato de exclusividade. Para garantir mais visibilidade nas principais plataformas, restaurantes frequentemente assinam acordos que os impedem de operar em outros serviços. No entanto, há consequências severas para romper essas cláusulas, com multas que podem ser proibitivas.

O Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) já manifestou preocupação com o uso de contratos de exclusividade por empresas como o iFood. Considerados prejudiciais à concorrência e à diversidade de mercado, esses contratos prendem empresários a condições comerciais que muitas vezes não podem ser reavaliadas ao longo do tempo. Assim, mesmo que novas plataformas ofereçam melhores condições e até mesmo pagamento pela exclusividade, os estabelecimentos podem estar presos a acordos desfavoráveis.

Caminhos para a Autonomia

Diante dessa realidade, é crucial que os empresários fortaleçam a autonomia de seus negócios. Como presidente do SinHoRes Osasco, Alphaville e Região, oriento nossos representados a repensarem suas estratégias de delivery, adotando práticas que diminuam a dependência de plataformas externas. Recomendo, por exemplo, que os estabelecimentos centralizem até 70% de seus pedidos em sistemas próprios de entrega, deixando apenas 30% para as grandes plataformas.

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A criação de um aplicativo ou canal interno de delivery ajuda a reduzir custos operacionais, aumentar a margem de lucro e estabelecer um relacionamento direto com o cliente, e usar as plataformas apenas como estratégia de marketing e não de vendas.

Concorrência em Ascensão

O surgimento de concorrentes como Rappi, 99Food e Keeta é animador, mas deve ser visto com cautela e precisamos ainda de algum tempo par avaliar a forma de atuação das novas entrantes. No momento, algumas dessas empresas oferecem isenções temporárias de taxas e outras condições atraentes para captar usuários e parceiros, mas nada impede que essas práticas mudem futuramente. Por isso, ao optar por novas plataformas, analise os contratos cuidadosamente, evite exclusividades e mantenha uma gestão equilibrada entre diferentes canais de venda.

A Luta Por Regulamentação

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Outro tema que não pode ser ignorado é a regulamentação das plataformas digitais no Brasil. Enquanto entidades do setor de alimentação, como a Fhoresp – Federação de Hotéis e Restaurantes do Estado de São Paulo, pedem urgentemente normativas mais rígidas para as chamadas Big Techs, é evidente que a falta de regras claras favorece práticas abusivas. Taxas excessivas, manipulação de algoritmos para beneficiar determinados estabelecimentos e até mesmo concorrência desleal com o cadastro de negócios informais são questões que poderiam ser mitigadas com uma legislação bem estruturada.

Conclusão

Ao entregar o controle das operações de delivery a terceiros, especialmente quando somado a contratos de exclusividade, os empresários colocam suas próprias empresas em risco. O delivery é um recurso indispensável hoje, mas é igualmente essencial diversificar estratégias e investir em autonomia operacional.

Portanto, se há um conselho que devemos seguir é olhar para o delivery como uma extensão do seu negócio, e não como uma “ponte inescapável” para alcançar o consumidor. Seja com um aplicativo próprio, cooperativas ou com novas plataformas, a autonomia é o caminho mais seguro para garantir a sustentabilidade — e o futuro — de bares e restaurantes.

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Autor

  • Edson Pinto é Presidente do SinHoRes Osasco - Alphaville e Região e Diretor Executivo da Federação de Hotéis, Bares e Restaurantes do Estado de São Paulo - FHORESP. É Mestre em Direito pela PUC-SP.

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