É pavê ou pá comê?
O tio virou um radical, a neta uma ativista, e a avó só queria paz. Marcos Agostinho usa uma reunião de família para ilustrar sua visão sobre polarização no Brasil.
A gente não quer só comer
A gente quer comer e quer fazer amor
A gente não quer só comer
A gente quer prazer pra aliviar a dor
A gente não quer só dinheiro
A gente quer dinheiro e felicidade
A gente não quer só dinheiro
A gente quer inteiro e não pela metade
Bebida é água
Comida é pasto
— E aí, pessoal? Essa reunião é de cúpula ou de cópula?!
Foi assim, com essa frase, que o tio Mário chegou em casa naquele domingo de sol. Depois de um longo tempo afastado da família e de reuniões sociais, ele reapareceu.
Ninguém entendeu muito bem o que aconteceu com ele nem sua mudança de comportamento, mas todos se lembram de que tudo começou com a greve dos caminhoneiros, em maio de 2018. O Tio Mário, que sempre fora alegre, começou a se transformar: ficou meio “raivoso”. Uma “revolta” que não era dele. Mais adiante, bem perto das eleições para Presidente, ele piorou. A festa de Natal e Ano Novo naquele ano foi um inferno!
Vovó, sentada em um canto da sala, como sempre, só rezava para que tudo ficasse bem. Devota de tudo que é santo, há pouco tempo passou a flertar também com os “evangélicos”, sobretudo no período da pandemia. Sim, foi difícil, mas ela venceu. Grupo de risco “master” para tudo quanto é coisa, muito mais do que seus santos pudessem dar conta. Certamente é por isso que nunca abandona também os caboclos e pretos-velhos, muito menos seus orixás. Contou com todos eles para sair ilesa da Covid. Superou obstáculos, aprendeu a usar o Pix, a fazer chamada de vídeo, a jogar palavras cruzadas no celular… “Fiquei moderna!”, ela dizia.
E rezou, rezou, rezou muuuuuuito por seu filho Mário, porque ele não acreditava que a pandemia fosse algo tão grave e defendia que ninguém devia ficar em casa. Preocupava-se com todos os filhos e filhas, mas Mário consumiu a maior parte de sua devoção e fé em Deus e em Nosso Senhor Jesus Cristo. Mário sempre foi o que a sobrinhada chamava de “tio chato”. Até as filhas e os filhos concordam. Vez ou outra, quando o viam chegando, alguém soltava aquela perguntinha de 5ª série: “Vocês conhecem o Mário? Que Mário?!”.
Mário é aquele que interrompe uma conversa que nem é com ele, que faz piada na hora errada e sempre de péssimo gosto. É o moralista que sempre tem razão — só que não! —, que fala alto e cuspindo, que tem um comportamento grosseiro com a esposa e as filhas… Mas, até aí, “tudo bem”! Ele era só um chato e grosseiro. Não passava disso.
Ultimamente, Mário estava falando muito de política. Vovó não gostava de política. Não entendia essa coisa tão complicada.
— … mas ainda mais quando misturam essas continhas de números, com tantos por cento disso e tantos por cento daquilo… Taxação… O pobre é que sempre se ferra!
Não entendia por que tanta gente brigava por causa de política, e ainda mais por causa de políticos. Ouvia seu filho dizer: “Eu não tenho político de estimação!”. De estimação, vovó tinha apenas seu cachorro, o Nazôr, tão velho e entediado que nem tinha mais vontade de rosnar para o tio Mário, que o chamava de “saco de pulgas”.
Na pandemia, Mário veio morar com ela. Para cuidar dela? Não, não era. Sua esposa, seu filho e suas duas filhas eram quem não aguentava mais o pai em casa. Confinamento? Já era demais! Quando a vacina chegou, ele quis impedir a mãe de tomar. Disse que ela ia virar jacaré. Ele próprio pegou Covid. Foi feio. Quase morreu. Vovó rezava. Deu certo: ele se curou. Mas outra doença o atacou, e esse é o motivo pelo qual ele agora usa uma tornozeleira. Mas não quero adiantar a história.
Vovó já não tem muitas amigas. Muitas morreram de Covid. Ela ficou muito triste. Nem queria viver mais. Perdeu uma filha enfermeira e um neto motoboy em um acidente de moto. Não gostava quando o filho ria e imitava as pessoas com falta de ar, dizendo que usar máscara era frescura. Mário só piorava e azedava ainda mais o ambiente.
Suas filhas e, sobretudo, as netas, resolveram não dar mais trégua para o tio: passaram a combater tudo o que ele dizia no grupo de WhatsApp da família. Ele, agora, deu para chamar insistentemente a mãe para cultos numa igreja onde o pessoal entrava marchando igual a um quartel. Minha avó um dia foi, só para não desagradá-lo e para que ele parasse de chamar, mas não gostou. Ela queria só rezar, confraternizar, “repor” as amizades perdidas. Não queria ver uma igreja e um pastor iguaizinhos ao Mário, falando mal de tudo e de todos, falando mais em demônio, capeta e satanás do que em Deus e Jesus Cristo.
Vovó não entendia mais nada. Nem quando uma de suas netas tentou lhe explicar uma notícia que viu na televisão, em um desses programas policiais, sobre o “Complexo de Israel”. Ela entendeu que há um traficante que é evangélico e que não deixa mais rezar missa nem o pessoal dos terreiros de umbanda e candomblé fazer seus rituais. E que esse traficante coloca a bandeira de Israel nos pontos principais das favelas para demarcar território. Ué… mas o pastor da igreja aonde o Tio Mário a levou estava enrolado numa bandeira dessas e não é traficante; muito pelo contrário, tem uma entidade que cuida de pessoas com vícios em drogas… “Não estou entendendo mais nada”, ela dizia.
Ouvia atentamente a neta, até que esta falou em “geopolítica”… Tinha a ver com a mistura de geografia e política. Desistiu de entender, já era demais para ela. Essa neta brigava muito com o tio Mário. Tudo por causa de bandeira. A neta gostava muito de uma bandeira toda colorida. Já estava ficando um pouco chata também. Sim, ela tinha razão em muitas coisas. Era justo o que pensava e dizia, mas falava as coisas do mesmo jeito que o tio. Uma vez, Mário apareceu sem avisar no aniversário dela.
Começou a falar com uma menina, amiga da neta, como se ela fosse homem, e essa amiga falou em “transicionar”, ué… A neta tem várias amizades assim. A cabeça da vovó ferve. Para ela, está tudo bem as pessoas serem o que são. Ela não se importa. Ela ama a neta, ama o Mário — se bem que o acha chato. Respeita o pastor e os amigos de Mário, e os amigos e as amigas da neta… mas o que confunde sua cabeça é quando a neta diz que não é nem “ela”, nem “ele”… é “elu”! Aaaaahh, tá… diz a vovó para a neta.
— Vó, não é amigo, é “amigue”!
Vovó só não gosta de briga, nem de violência… mas quando Deus quer, não tem jeito. Teve outro filho, soldado da PM, morto em um confronto com bandidos. Um neto seu foi morto por um policial de folga que o confundiu com um assaltante que tentou roubar sua moto. Ela não queria que o filho entrasse para a polícia. Sabia que seria perigoso. Mas se conformou mais com isso do que com a morte do neto. Um menino que trabalhava e estudava, não mexia com nada errado… Dos netos homens, era o mais certinho.
A violência, o perigo, as brigas… isso, quando se mistura com política, fica pior ainda. Na eleição de 2022, o Mário piorou. Já estava aposentado e foi aí que se ocupou mais da campanha para Presidente. Depois que seu candidato perdeu, resolveu se mudar para a porta de um quartel do Exército. Vixe. As filhas e sobrinhos começaram a rir dele quando o viram na televisão, marchando de verde e amarelo, rezando para um pneu pegando fogo… Sua esposa começou a passar vergonha quando ia ao mercadinho, na padaria. Não aguentou tudo isso e foi embora para a casa da irmã dela, em Santos. Seu sonho era morar na praia com o marido quando os dois se aposentassem. Foi sozinha.
Mário não ligou quando disseram que sua mulher havia partido. Estava preocupado com a “fraude nas eleições”. A tristeza dele contrastava com a alegria de sua sobrinha, que viu o “novo” presidente subir a rampa e tomar posse, ladeado de pessoas que seu “capitão” dizia ser tudo “mimimi”. Pegou mais roupas limpas, juntou-se ao pessoal da igreja e a outros que estavam na porta do quartel, e todos foram rumo a Brasília. Precisavam fazer alguma coisa.
— Vá com Deus, meu filho! Tome cuidado!
Não tomou.
No Dia das Mães deste ano, depois que Mário conseguiu a prisão domiciliar pelo que fizeram no 8 de janeiro de 2023, houve um esforço para reunir todo mundo em volta da vovó. Até a esposa de Mário veio. Logo ele, que não aceitava um ex-presidiário como presidente, agora está com uma tornozeleira eletrônica. E berra aos quatro cantos por justiça. Está triste, e isso preocupa a vovó, que também vê a neta, outrora tão empolgada e esperançosa com a posse do “novo” presidente, andar dizendo por aí que a volta dele valeu mais pela “consolidação da democracia”, pois parece que “largaram a mão” da galera que subiu a rampa. A neta diz que é porque, para governar, tem que se fazer alianças, e que as pautas que ela defende ofendem algumas bancadas e partidos que “apoiam” o governo.
O atraso nas bolsas de estudo, a falta de comida nos refeitórios, a falta de papel higiênico e sabão nos banheiros e tantos outros cortes de verbas na universidade em que ela comemorou tanto quando entrou, têm-na deixado triste. Aumentou o número de estudantes negros nas universidades, mas a verba é a mesma de antes, faltam recursos. Se a neta não entendia, vovó menos ainda!
Vovó assistia ao noticiário na sala e via sua neta se reanimar, pois parece que o “novo” Presidente brigou com os partidos que defendem os ricos.
— Quem sabe agora a ficha dele cai, né, vó?! Os ricos sempre foram contra os pobres, por isso é que falta dinheiro para a educação e para a saúde. Eles só pensam neles!
Vovó apenas ouvia.
— Por que se gasta tanto com guerra, aviões e bombas, em vez de usar todo esse dinheiro para acabar com a fome no mundo? Por que meu filho Mário se veste de verde e amarelo, se diz patriota, mas defende que o presidente dos Estados Unidos interfira na nossa justiça e na nossa política? Por que Mário ficou desse jeito?
— Eita, que agora o Trump entrou na jogada! Viu aí, mãe? Ele está dizendo que o meu capitão está sendo perseguido e injustiçado! O filho do meu presidente “é assim com os ‘homi’!”.
Vovó se ajeita no sofá, e a boca nada fala.
Vovó acha que os dois vão se frustrar de novo. Acha que o filho e a neta são apenas usados. “É… parece que vai começar tudo de novo!”.
Vovó vai comer sua sobremesa.
— …é para ver ou para comer?