sexta-feira, 17 de julho de 2026
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Marcos Agostinho

“VOCÊ NÃO PASSA DE UMA MULHER”

Em novo artigo, Marcos Agostinho reflete sobre paternidade, machismo e heranças ancestrais, revisitando a canção de Martinho da Vila e a história de sua avó Don'Anna para desconstruir padrões neste Agosto Lilás — mês de conscientização e combate à violência contra a mulher.

Por Marcos Agostinho | Atualizado em: 29/08/2025 13:44 Siga-nos no Google News
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”Olha a moça inteligente
Que tem no batente o trabalho mental
QI elevado e pós-graduada
Psicanalizada, intelectual
Vive à procura de um mito
Pois não se adapta a um tipo qualquer
Já fiz seu retrato, apesar do estudo
Você não passa de uma mulher (viu, mulher?)
Você não passa de uma mulher (ah, mulher)
Você não passa de uma mulher”
Martinho da Vila

Não sei exatamente quando começou, mas passou a ser algo constante em minha vida. Quando eu vi, já estava instalado esse desejo, como se fosse um vício. Passei a compreender aqueles que têm hobbies excêntricos e/ou que são colecionadores de alguma coisa. Acho até que é uma espécie de T.O.C. Da mesma forma que hoje me vejo sendo taxado de tolo, ridículo, aos olhos de quem passa por mim em trajetos de 5, 10, 15 quilômetros nas corridas em manhãs frias de domingo.

O interesse por saber de onde vim e valorizar ainda mais a pergunta que se fazia antigamente, “… C’é fi di quem?!”, também passou a ser mais forte e constante. Saber do que sou “feito” e o que há em mim que herdei deles e delas de antes, passou a ser quase uma obsessão. Das boas e alegres. Buscar registros fotográficos, textos, cartas e contar com o auxílio das novas tecnologias tem permitido recuperar imagens e sons que nos ajudam a preencher hiatos e lacunas de memória que nos fogem com o tempo, ou que não nos foram contadas.

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O afã em garimpar preciosidades e soprar a poeira de relíquias desperta em alguns admiração, em outros espanto ou mesmo deliberado desprezo.

Que diabos estaria esse cara querendo com isso? Alguém pode estar perguntando, talvez.

Sem perder o foco e apenas me apegando aos sinais do caminho, procuro estar entre os que, em muitas medidas, são semelhantes. “Diga com quem andas que te direi quem tu és!”. Tenho procurado andar junto a quem preserva, cultiva e reinventa suas memórias, que encontra satisfação na beleza das conversas e “perde” tempo nos detalhes e coincidências que nos conectam e nos redefinem. Num olhar, numa palavra, ensinamento para a vida. Aqueles e aquelas que sonham com o “dom da ressuscitação” e fazem com que aquilo que está apagado ou esquecido, mesmo que ainda presente, seja acordado, remexido, realocado, reinventado. REEXISTA.

No fundo é isso o que importa. O que temos dentro. Do que somos feitos. Da compreensão do que somos constituídos. Tenho um amigo que gosta de usar o conceito de “repertório” para definir o que temos dentro de nós como estratégias de vida. Qual é nosso repertório? É desse ponto que parto para falar de “paternidade preta” que está umbilicalmente ligada à minha garimpagem à procura de responder a uma pergunta que tenho feito a mim mesmo:

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“O que está acontecendo com os homens?”

Na busca do que está dentro de nós, em maio de 2007, meus tios, primos e eu constituímos uma comissão de festa para celebrar um reencontro de integrantes da família — consanguínea e estendida: ALMOÇO DA MÃE PRETA. Evento maravilhoso que ficará para nossa história. No ano de 2015 houve um segundo encontro tão grandioso quanto o primeiro, e nos propiciou registros fantásticos. Empolgado que fiquei com a organização da primeira edição, sugeri que se criasse uma associação cultural para mantermos acesa essa alegria, que pudesse trazer e catalogar nossas memórias, escrever livros, fazer exposições… Montei estatuto, fizemos pesquisa junto aos presentes para saber o que eles achavam e tudo o mais. Até sugeri o nome do meu avô para a Associação: ASSOCIAÇÃO CULTURAL JOÃO OVÍDIO DA SILVA. Fizemos até faixa.

Lá pelas tantas, enquanto observávamos o povo chegando antes do almoço, tomando uma cerveja e “esquentando um sol” de outono, minha Man’Analu me pergunta:

…e Don’Anna?!

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Sim, Don’Anna! Esposa de João Ovídio, minha avó paterna. Ambos formaram um dos primeiros casais vindos de São João da Chapada, distrito de Diamantina (MG), para Carapicuíba (SP) com seus 8 filhos! No mínimo, o nome da Associação Cultural deveria ser: ASSOCIAÇÃO CULTURAL JOÃO OVÍDIO E DON’ANNA DA SILVA.

Qual foi o mecanismo que me fez apagar minha avó dessa cena? Ou, por que se era para homenagear a “MÃE PRETA” não demos o nome dela à ASSOCIAÇÃO, o que seria mais coerente? Por que não foi considerado esse “detalhe”? Sem ela, ele não seria “o Cara”, o pioneiro de um ramo familiar que veio depois deles abrirem os caminhos. Mais ainda, descobri que a maioria dos que vieram de Minas para São Paulo eram da linhagem de minha avó. Era ela quem ajeitava a casa para receber as pessoas nos primeiros tempos, quem tecia a rede para as coisas irem acontecendo, devagar. E dizem que ela gostava muito de cantar e cozinhar.

Em 2007 eu já era — como desde mais cedo fui — militante antirracismo, com pensamentos mais à esquerda, que considera os direitos humanos importantes para a sociedade… sociólogo… blá blá blá, e mesmo assim tive um pensamento e ação machista. O pior de tudo é que esse meu comportamento não foi nada percebido ou, pior: muito tolerado! Esse “esquecimento” ou falta de atenção para com a importância de minha avó, personagem fundante de um grupo familiar forte e núcleo fundamental do que cientificamente se pode comprovar como um quilombo urbano, de lá para cá tem balizado meu pensar a respeito do que há em mim que ainda compõe meu “repertório de macho escroto”.

Ao revisitar a história de Don’Anna e a ela atribuir o devido valor, o lumiar de uma vela cada vez mais acende no meu caminho, no foco de ser um “pai-preto-de-menina-preta”. E por que utilizar esse marcador de gênero e raça nessa paternidade? Para começo de conversa, temos três pilares que sustentam o estereótipo ocidental do homem preto: sexualmente ativo, abandonador e violento. E como outros adereços a enfeitar essa “imagem”, tais como: alcoolista, vagabundo, preguiçoso… E podendo também ser visto como o “negão-churrasco-futebol-e-samba”, subserviente por natureza, ou o “negro único/meritocrático”, “o negão que deu certo” e tudo mais o que pode vir acompanhado desses adjetivos. Eu é que não vou dar mole para carimbarem minha imagem dessa forma.

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E então, como “pai preto”, vou fazer uma leitura do que representa essa imagem com as quais a branquitude sistematicamente nos rotula. Minha filha, ao completar agora em agosto os seus 11 anos, recebeu de presente uma cartinha que escrevi. Nela, reafirmo meu egoísmo de transformar essa paternidade em cura. Me surpreendi com a obviedade de que não preciso gritar ou falar cobras e lagartos para repreender, cobrar compromissos ou buscar corrigir rotas.

Ela é menina, preciso ser mais delicado nas palavras. Não posso ser bruto tampouco violento nas minhas palavras!

Hummm… olha aí: mas quer dizer que com meu filho que agora tem 22 anos eu podia, porque ele é homem e “aguenta porrada”?

Nas reflexões a respeito das transformações necessárias em mim para exercer uma paternidade saudável, vejo que resvalo no repertório machista que estabelece essa permissividade na qual aos homens é negada a possibilidade de ser “frágil”.

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Questionar traços mais duros na minha garimpagem de paternidade de menina tem me levado a questionar também o que sinalizar a meu filho em termos de silenciamento de sentimentos. Tenho dito a mim mesmo: não existe fórmula e vou aprendendo a ser pai a cada dia, foi assim que disse à Luiza. Ela terá que aprender a ser adolescente, a mãe dela aprenderá a ser uma mulher madura, seu irmão a ser adulto e eu daqui a um ano carimbo o passaporte de idoso. Aprender a ser um pai com autoridade, porém sem ser autoritário. Um desafio, ser firme sem ser grosseiro ou “violento”. Argumentar, convencer ou determinar sem impor. São aprendizagens de todos os dias.

Não fujo da responsabilidade e consciência de ser, além de um dos pilares, também uma espécie de “STF” quando se trata de paternidade. Aquele que dá a “última palavra”. Mas não está na “constituição” que o “magistrado” precisa usar força física ou verborragia com decibéis acima. Não serei eu a cair na armadilha daquilo com o que querem nos qualificar para nos desqualificar. Tampouco quero reforçar estereótipos e comportamentos machistas e, consequentemente, incivilizados, à minha filha preta! Ela não pode naturalizar a comunicação violenta. Ela tem que saber que sua avó Neide e sua Bisavó Don’Anna, por um período, tomaram a iniciativa de mudar os rumos de suas vidas e levantar a voz diante de seus maridos, arrastando os filhos na “cacunda”, por não aceitar o repertório machista, calcado na violência física e demais, no subjugo e no apagamento cotidiano com amparo na sociedade e na legislação. Uma estrutura hierárquica e valorativa que não levava (ainda não leva!) em conta a opinião e a relevância da mulher.

Ao “esquecer” não reconhecer ou enxergar a agência poderosa, o protagonismo mesmo de minha avó paterna, reconheci em mim essa parte de uma herança que não aceito. Compreender os efeitos dessa (de)formação machista de haveres, fazeres e saberes não anula a enormidade de tantos outros adjetivos que foram movimentados à minha volta e definido como Homem. Creio que até ajuda a compreender na encruzilhada da vida os conflitos enfrentados pelos pais pretos que os levaram à grande epidemia de alcoolismo e outras mazelas como válvulas de escape.

E quando assisto à TV (todos os dias) vejo as notícias sobre feminicídios cometidos das mais variadas formas, territórios, classes sociais, raças e cores. Arma branca ou nem tanto, pau, pedra, atropelamento, veneno, …”tiro, porrada e bomba” e maus tratos nem um pouco sutis, em especial quando as mulheres dão um basta e o cara “não aceita o fim do relacionamento”.

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Se te agarro com outro te mato
Te mando algumas flores e depois escapo”

Sucesso na voz do hoje cult e outrora brega Sidney Magal, as letras dessa música “líder das paradas de sucesso” quase 50 anos atrás, não apenas embalavam corações apaixonados, mas cadáveres de mulheres que morriam em nome da “legítima defesa da honra”, tese jurídica de defesa considerada inconstitucional pelo Superior Tribunal Federal, pasmem, apenas no ano de 2023! Esse argumento que buscava justificar crimes de violência doméstica — como feminicídios — alegando que o agressor agiu para defender sua honra após o comportamento da vítima, como um adultério.

Traços machistas acometem a todos, em maior ou menor grau. E na tentativa de debelar os efeitos daquilo que aprendemos e do que nos adoece, tem levado o “mercado” a criar produtos específicos àqueles que buscam soluções para essa “crise de identidade” ou beco sem saída, ou quase, em que nos encontramos. Há opções para todos os gostos: de “legendários” vestindo roupas da cor laranja gritando “Arruuuu! Arruuuuu!” enquanto sobem e descem morros, a “rodas de conversa”, regadas a harmonização de vinhos e leituras de textos para desconstruir masculinidades tóxicas. Sejam mais à esquerda ou mais à direita, os “machos”, pelo menos os de classe média, estão tentando entender o que está acontecendo.

Parafraseio o Poeta G.O.G quando nos mostra que a saída está nos ensinamentos e nas tecnologias ancestrais, periféricas, quase sempre pretas. Tenho aprendido e reconhecido nos quintais e cozinhas das mães pretas, nas casas de famílias como a minha, onde nos bons almoços e reuniões as crianças eram as que comiam primeiro e sentadas no chão, bagunçando, no coletivo, e só a partir de uma certa idade se sentavam na mesa, com modos: sente com modos, coma com modos rsrs. Os homens paravam o jogo de dominó e comiam em seguida. As mulheres comiam por último e arrumavam a cozinha toooooda.

Nossa formação é recheada desse tipo de ‘microrregras’ machistas as quais eu tive a sorte de ver, na prática, serem questionadas por minha mãe e minha avó paterna. Minha mãe me preparou uma aula de educação sexual que valeu pelo resto da vida e já transmiti a meu filho:

Quem faz filho é o homem. Ponto. Se não quiser fazer filho é só, VOCÊ, se cuidar. Se eu souber que você fez filho por aí e não cuidou, racho sua cabeça e você não tem mais mãe!

Não é só questão de falar, mas sim questão de viver a ancestralidade e tê-la como matriz, guia, para voltar para si mesmo no ralo dos dias. Ancestralidade no sentido de voltar para casa, voltar para dentro e daí encontrar as saídas, as soluções, filtrar e separar o joio do trigo.

Minha mãe e minha avó paterna Don’Anna contribuíram em muito para que hoje eu desfrute do privilégio de contar com essa noção de feminismo negro na real, e trilhar um caminho sem atrocidades cometidas contra as mulheres. Quando, para menosprezar minha mãe, meu pai cantava os versos da música “você não passa de uma mulher”, famosa na voz de Martinho da Vila, ela respondia com Benito di Paula, que cantava em sua música “como dizia o velho mestre”:

“É, acaba a valentia de um homem
Quando a mulher que ele ama, vai embora
É, tanta coisa muda nessa hora
Que o mais valente dos homens chora…”

Nos dias de hoje as violências são mais percebidas e repercutidas e têm base nas relações de poder exercida do homem sobre a mulher, bem como a do branco sobre o negro, do sulista sobre o nordestino e assim por diante. Buscar esse entendimento de meu papel como homem, pai e marido preto, me deixa cada vez mais longe do “fundo do poço”… O poço da Igreja Matriz de Carapicuíba, a Paróquia Nossa Senhora Aparecida (Igreja Amarela) onde meu avô João Ovídio se atirou e deu um basta em sua vida ao descobrir o valor de Don’Anna Maria dos Reis da Silva, isso após a passagem dela para o outro plano.

Ao final desse Agosto Lilás — Mês de conscientização e combate à violência contra a mulher — Um salve para as mulheres!

 

Autor

  • Marcos Agostinho nasceu em Carapicuíba em 1966, cidade que seus avós escolheram para morar em 1945, vindos de Diamantina-MG. Cientista político e sociólogo com 35 anos de experiência, há 25 anos dirige o Instituto MAS, especializado em pesquisa de mercado, satisfação de clientes, avaliação de políticas públicas e, especialmente, pesquisas eleitorais. Autor do livro "Garimpeiro do Futuro", compartilha sua trajetória e reflexões sobre o setor de pesquisas no Brasil, incluindo os desafios enfrentados como empresário negro. Zela pelo nome, herança familiar e marca de sua credibilidade profissional.

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