A estatística e eu!
Em relato pessoal, o economista Antônio Carlos Roxo revisita a eleição de 1982 em Osasco, detalha os bastidores da apuração voto a voto e narra como uma análise estatística previu a virada que levou Humberto Parro à Prefeitura.
Em 1982, funcionário do Seade, participei da chapa Luta Sindical de oposição no chamado Sindicato dos etc., ou Sindicatão, pois o que não cabia em outros ia pra lá.
A chapa surgiu na conjuntura de novos sindicalistas cujo grande líder, já então, era o Lula. Apesar do momento favorável, não foi vencedora, mas a luta não havia sido em vão. O grupo, mais ou menos homogêneo, com as eleições à porta (governador, deputados, senadores, prefeitos e vereadores, tudo no mesmo pacote), resolve participar das eleições alicerçado no capital político conquistado. Márcio Santilli, candidato a deputado federal, jovem que sucedia seu pai Santilli Sobrinho, do grupo autêntico do MDB, com postura combativa, passou pelo crivo do grupo. Material com as propostas principais assumidas pelo candidato: Democracia — estávamos ainda no regime ditatorial — Sustentabilidade, Direitos Humanos, melhor distribuição de renda. Período em que membros mais radicalizados do regime civil-militar jogavam bombas nas bancas para brecar a distribuição da chamada imprensa alternativa.
Entre as cidades em que Márcio tinha dobrada, a candidatura de Humberto Parro a prefeito em Osasco foi elogiada pelo jornalista Raimundo Pereira, que fora editor do Jornal Opinião e fundara o Movimento, dois jornais na mira do obscurantismo.
Com esse respaldo decisivo, eu e Sizue Imanishi, amigos e parceiros na Fundação Seade, não titubeamos: escolhemos Osasco e Parro. Logo, aquecidos pela campanha sindical, estávamos totalmente envolvidos na campanha, pobre de recursos, mas rica em entusiasmo.
Morávamos em São Paulo. Sizue, em seu fusca, me pegava às 4h30/5h da manhã para a distribuição do jornal feito em várias mãos; após, retornávamos para cumprir nossa jornada de trabalho. Sábado e domingo, direto nas feiras e bairros. A chapa de vereadores era robusta, com representação diversificada, trazendo um colorido especial.
O candidato a prefeito mais forte era o Rossi, em disputa solo. Na época existiam sublegendas; um partido podia indicar três candidatos. O MDB, cujo candidato a governador era Franco Montoro, lançara Parro, Bognar e Gabriel Figueiredo, atingindo várias camadas da sociedade.
Uma vez, de madrugada, encontramos um grupo de apoiadores do Rossi pregando cartazes em postes. Uma nossa ativista colocara o pôster de nosso candidato em cima do cartaz do Rossi. Dois brucutus adversários vieram furiosos emparedar nossa companheira. Coloquei-me em guarda (tinha começado a treinar karatê). Um deles tentava, de forma traiçoeira, ficar atrás; outro, um italiano com fama de briguento. Eis que chega uma mão salvadora e me retira da encrenca: era o hoje Francisco Cordeiro — Chiquinho no passado — chefe da campanha. Minha moral com a equipe foi “pro” alto (mal sabiam que tinha pouco mais de um mês de karatê).
Na apuração, que demorava cinco/seis dias, feita no Cobraseixos (clube dos trabalhadores do grupo Cobrasma), voto impresso, muito mais sujeito à manipulação na hora da contagem.
Logo em seu início, Parro, preocupado, questionou que nossa fiscalização estava sem organização. Indaga-me Chiquinho: — “Você faz?” E eu, que nunca tinha acompanhado uma apuração de tal porte, não titubeei: — “Sim!” Encostei-me em uma escada de madeira e passei a receber as atas, sem nenhuma estrutura. Ao fim do segundo dia, Parro surge desolado.
— “Que é isto?”
— “Esta já perdi!”
— “Como?”
— “É só olhar o movimento, tenho experiência!”
— “Você não entende nada de estatística! Lembre-se: trabalho no Seade.” Ao terminar a apuração de hoje, vamos para o comitê e, com os votos já apurados, terei dados suficientes para estimar o resultado. (Para quem não sabe, o Seade — Fundação Sistema Estadual de Análise de Dados — é o IBGE de São Paulo). E assim foi feito.
Um parêntese: Bognar morava no Jardim das Flores, e as primeiras urnas apuradas se concentravam no bairro e no entorno. Naturalmente, sua votação localizada explodiu. Em decorrência do desconhecimento estatístico e da empolgação do momento, a situação da apuração no Jardim das Flores era extrapolada para o conjunto do município, como se todo o território votasse igualmente; assim, a cidade e o meio político já consideravam Bognar eleito.

Material que usei na apuração; de urna do Jardim das Flores / Foto: Arquivo Pessoal
Ao examinar o mapa dos votos já apurados, eu os separava por colégio/bairro e extrapolava para cada bairro específico. Quer melhor amostra que o próprio voto? Pois é intenção realizada. De madrugada, exausto e alegre: — “Parro, você vai ganhar, mais ou menos 1.000 votos de diferença!” Não acreditando e arregalando os olhos: — “Você tem certeza?” E eu, convicto: — “Rasgo meu diploma.”
Não sei como, no dia seguinte, os fiscais que antes tinham, se tanto, pão com mortadela e água, passaram a ter queijo, presunto, frutas e suco.
No terceiro dia, para dar mais força e ânimo ao pessoal, apresentei uma fórmula matemática transcendental, tipo álgebra geométrica ou geometria algébrica — sei lá! —, informando que estatísticos, a partir daquele modelo, concluíram a virada do jogo.
Continuei atualizando os dados reais, agora com mesa, lápis, borracha, calculadora e sanduíche a rodo. Parro, de vez em quando, se informava: — “Perdendo, mas a diferença diminuindo.”
No derradeiro dia de apuração, entraram as urnas do Novo Osasco, Helena Maria e Vila São José, se bem estou lembrado, e a virada, para surpresa da cidade, aconteceu. Rossi foi o mais votado, com 52.175 votos. Mas, como o MDB tinha três candidatos, a soma de seus votos o superava: Parro, 25.861; Bognar, 24.832; e Gabriel Figueiredo, 11.670 votos. Parro, o mais votado dos três, eleito prefeito.
Já imaginaram a quantidade de teorias da conspiração para explicar o “inusitado” para o senso comum?
Na festa popular em comemoração pela vitória, na antiga churrascaria Paulínia, ao ver a multidão multicolorida, com predominância de negros, senti uma emoção infinita: o povão ganhara a eleição!
Empossado, veio o convite: assessor para Participação Popular. Convenhamos, naquele tempo, vir com essa proposta estava léguas à frente de seu tempo.
Esperando a liberação do Seade para o novo compromisso, estive na Prefeitura para rever os companheiros de jornada e, ao encontrar Margarida Neponuceno, perguntei como estava o processo de organização do governo. Resposta enfática: — “Trabalhando muito, muito mesmo, mas valeu a pena, tá bom demais!”