Vocês não são comunistas!
Prólogo: A imbecilidade, que campeia solta, transformou em praxe taxar de comunista todos que não rezam pela cartilha “bolsominion” e, pior, até com sucesso intimidatório.
(O tempora! O mores!)
Prólogo: A imbecilidade, que campeia solta, transformou em praxe taxar de comunista todos que não rezam pela cartilha “bolsominion” e, pior, até com sucesso intimidatório.
Em fins da década de 1980, participantes da diretoria da Coopergran, o Brasil em mudança, a ditadura recém-finalizada, conversávamos eu e João Joaquim – líder operário, militante ativo da ACO – Ação Católica Operária e do PT – sobre as perspectivas e desafios que a nova conjuntura trazia para o país, para a região e para Osasco em particular.
Durante o papo, João logo passou a identificar as pessoas com quem poderíamos contar na nova etapa da luta pela democracia, justiça social e emancipação popular. Deste modo, formou-se o núcleo inicial a ser contatado para a construção de uma frente, a FUP – Frente de Unidade Popular. Frente que se notabilizou por sua postura de ação ampla, abraçando causas diversas dentro do espírito unitário e participativo, respeitando-se as diferenças, desde que o ouvir significasse também o ser ouvido — o que nos une e não o que nos divide. Atividades várias, desde palestras e debates até apoio a candidatos de filiação partidária diversa.

Seleção do povo FUP /Arquivo Pessoal
Entre outras, foi realizado encontro entre o prêmio Nobel da Paz de 1980, o pacifista argentino Adolfo Perez Esquivel, e o salvadorenho Ernesto Zelayandia, da Comissão Política e Diplomática da FMLN – Frente Farabundo Martí de Libertação Nacional de El Salvador. Abaixo-assinado com propostas para a Constituinte de 1988 sobre Trabalho, Habitação e Transporte Coletivo.
Debates como a experiência da Frente Popular em Pernambuco, As Mulheres e a Luta Política, a Reforma Agrária, Conjuntura Atual e perspectivas da Luta de Classes.
Sobre as Forças Armadas, era taxativa: cabia a elas defender a Nação contra pressões e agressões externas. “Não cabe às Forças Armadas opinar ou interferir em questões internas do País”. General Antônio Carlos de Andrada Serpa, por sinal, palestrou com o tema “Os trabalhadores e a soberania”.
Luiz Carlos Prestes — o Cavaleiro da Esperança, líder da Coluna Prestes, que desafiara as oligarquias ocupando o Brasil profundo, denunciando sua miséria, preso em condições tamanhas entre 1935 e 1945 que seu advogado Sobral Pinto invocou a Lei de Proteção aos Animais em sua defesa — foi a personalidade de encerramento do ciclo de debates da FUP, com o tema “A Verdadeira História do Brasil”, denunciando o mito do homem gentil, mostrando as diversas revoltas populares e a crueldade em seu enfrentamento. Prestes, figura histórica do PCB – Partido Comunista Brasileiro, o Partidão – entrara em conflito com a sua direção, que exercia um modus operandi conciliatório. Em decorrência, fora expurgado do partido.
A sua participação incluiu encontro com lideranças populares na Coopergran e, depois, palestra no Ceneart (colégio de significado histórico, particularmente com seus operários-estudantes, núcleo da greve da Cobrasma em 1968).
Eu e sô Félix recebemos Prestes no aeroporto. Félix tinha sido estivador em Santos, personagem do livro de Jorge Amado — Subterrâneos da Liberdade — alto, beirando 1,90 m, forte, muito amável e militante do PCB, onde permanecera no racha com Prestes. Prestes, ao o ver, ficou lívido, entrou no carro já o “espinafrando” e ao comando partidário. O homenzarrão, que dava dois de Prestes, ficou na defensiva, em silêncio obsequioso — afinal, era o anfitrião, e Prestes, quase uma entidade. Lá pelas tantas, Prestes, exaltado, encerra o vitupério com “xingamento” cáustico e definitivo: Vocês não são comunistas!