Poucos têm muito, muitos têm pouco!
Alardeiam-se as dificuldades de viver no Brasil; a questão básica, no entanto, é o horizonte, a perspectiva de vida, a esperança para o futuro.
Os Estados Unidos — objeto de consumo da classe média brasileira branca — o American Way of Life, que significa política econômica que favorece o crescimento da riqueza dos mais ricos, a criação de multibilionários. A exacerbação do individualismo e consumismo incrementou um sistema de saúde e educacional privatizados, a custos altíssimos, restringindo o acesso dos mais pobres.
No Brasil, o Imposto de Renda, que deveria ser um instrumento de diminuição das diferenças gritantes de riqueza e renda, tem uma alíquota máxima de 27,5% — no passado chegou a 50% — equalizando todos na mesma contribuição, como se fossem iguais, reforçando a regressividade da sua estrutura tributária: quem ganha mais relativamente paga menos; de um lado, esbanjamento, gastos suntuosos; de outro, falta de tudo, perspectivas de mudança zero.
No campo macro, a disputa “inglória” de participação no orçamento público. A Constituição define percentual obrigatório destinado para a saúde e educação, “direitos básicos”. SUS, por exemplo. Motivo de campanha sistemática das elites, de seus economistas ortodoxos e da mídia dominante para acabar com a “camisa de força” do engessamento do orçamento. Simples assim: a elite e sua classe média têm seus convênios médicos e escolas particulares exclusivas. Por que se preocupar com o SUS ou escolas públicas? Aumentar o ganho da base da pirâmide? Nem pensar!
Ato ecumênico, em formatura, presidido pelo Bispo metodista Almir de Oliveira, em plena ditadura, apontou a contradição de se promover chás beneficentes para atendimento ao povo pobre, explorado pelos seus maridos empresários. Não sendo tão radical, mas que os ricos não querem abrir mão de nada, ah! Isso é vero!
Haja vista a enorme dificuldade para que taxas de imposto de renda sejam mais elevadas para os super-ricos. Afinal, prega-se a meritocracia. Meritocracia com base em quê? As condições de saída são as mesmas? Educação, saúde, oportunidades, tudo igual?
Não à toa, o Brasil tem o galardão de ser o último país relevante a “acabar” com a escravidão. A ladainha era de que o escravo não estava preparado para ser livre. Mesmo lero-lero, hoje, sobre o salário mínimo e a escala 6×1. O país não está preparado, por A + B, para continuar a aumentar o salário acima da inflação e, muito menos, para acabar com a escala 6×1. A crueldade e a falta de empatia são tão grandes que se propõe, no campo do atraso, congelar as aposentadorias. Cabe a pergunta: inclui os militares?
O governo de FHC, e depois Lula e Dilma, tiveram essa “ousadia”. O objetivo de FHC era levar o salário mínimo para o equivalente a 100 dólares. Hoje, quando escrevo, o dólar médio (PTAX), a R$ 5,10, seria 510 reais; Lula 1, 2, 3 e Dilma o elevaram, para tristeza da ortodoxia e da elite, a R$ 1.671,00, cerca de 327,64 dólares.
Registro histórico: Temer e Bolsonaro recusaram o aumento acima da inflação, com aplausos dos de sempre, o mercado.
Veja-se, por contraposição, os salários e regalias do Judiciário, os penduricalhos, a dificuldade de limitar seus ganhos ao teto constitucional. Mostra que a elite e seus servidores não têm pejo nem ficam ruborizados para garantir privilégios e regalias.
Pelo coeficiente de Gini, que mede a desigualdade de renda, o Brasil é o 6º mais desigual do mundo. Resultado do troféu brasileiro: 0,01% da população, os super-ricos, possuem 27% dos ativos financeiros; os 0,1% mais ricos, 45%; o 1% mais rico fica com 63%; já os 50% mais pobres, 2% (Correio Braziliense, 04/02/2024).

Este é o Brasil do sistema que querem perpetuar. Durma-se com um barulho desse!