sexta-feira, 30 de outubro de 2026
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Opinião

Quem nomeia, quem é nomeado

A loucura, o feminino e a transformação das palavras

Por Solange R. Aroeira | Atualizado em: 30/10/2026 13:11 Siga-nos no Google News
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Uma discussão que vai além de um nome

Nos últimos meses, temos falado muito sobre a violência contra as mulheres. Não por acaso: o aumento dos casos de feminicídio e a gravidade dos dados colocam essa realidade no centro do debate público. É necessário falar, denunciar, prevenir e, sobretudo, agir. O silêncio nunca foi uma alternativa.

Nesse cenário, porém, percebo que o debate sobre a violência contra as mulheres, por vezes, ganha mais espaço do que o próprio trabalho realizado diariamente para enfrentá-la.

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Na Secretaria, desenvolvemos ações concretas para transformar essa realidade. Entre elas estão o programa Lar em Paz, voltado à intervenção socioeducativa e formativa para homens, e a iniciativa Mulheres Informadas, Mulheres Protegidas, que promove informação, conscientização e prevenção dos diversos tipos de violência contra mulheres e meninas. As atividades são realizadas com estudantes adolescentes e jovens do ensino Médio, além de algumas turmas da Educação de Jovens e Adultos (EJA). São ações que exigem planejamento, articulação, diálogo e, principalmente, compromisso com a vida e a dignidade das mulheres.

Recentemente, entretanto, o debate público voltou-se para outra questão: a escolha do nome de um parque em homenagem a uma mulher já falecida, conhecida por muitas pessoas da comunidade e da cidade pelo apelido de “Ana Louca”. É sobre essa Ana, uma pessoa concreta, com uma história própria, que proponho refletir.

A discussão provocou manifestações e trouxe à tona uma questão que merece ser tratada com seriedade. Quando questionamos o nome de uma mulher, estamos falando apenas de uma denominação, de uma homenagem ou de uma memória afetiva da comunidade? Ou também precisamos refletir sobre a maneira como as mulheres são nomeadas, interpretadas e lembradas ao longo da história?

Proponho esta reflexão não para desconsiderar o peso das palavras e dos estigmas, mas para ampliar nosso olhar, compreender os diferentes contextos e reconhecer que, por trás de um nome, existe uma história que precisamos conhecer antes de formular julgamentos.

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Quando a “loucura” se torna uma forma de desqualificação

Na linguagem cotidiana, expressões como “louca”, “doida”, “histérica” e “surtada” aparecem em situações muito diferentes: podem ser usadas em brincadeiras, em relações de intimidade ou como formas explícitas de desprezo. Quando dirigidas às mulheres, também podem carregar uma história de expectativas sociais sobre como elas deveriam se comportar.

Em diferentes períodos, mulheres que contrariavam convenções, expressavam indignação ou ocupavam espaços de poder foram descritas como excessivas, descontroladas ou histéricas. O problema não está em negar a existência de sofrimento psíquico, mas em utilizar uma palavra para desconsiderar a fala de alguém, desviando a discussão de seus argumentos para uma suposta inadequação pessoal.

Michel Foucault, ao estudar a história da loucura e as relações entre saber, poder e normalização, oferece ferramentas para questionar quem define o que é considerado normal e como certas classificações se consolidam socialmente. Simone de Beauvoir, por sua vez, ajuda a pensar como as expectativas sobre o feminino são construídas historicamente e influenciam a maneira como as mulheres são percebidas.

Isso não significa que toda utilização da palavra “louca” tenha necessariamente intenção ofensiva. Significa que o contexto importa: uma expressão pode parecer banal para quem a pronuncia e produzir outro efeito em quem a recebe.

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A história também tem suas “loucas” e seus “loucos”

Um exemplo histórico é o de Dona Maria I, rainha de Portugal e mãe de D. João VI, que ficou conhecida no Brasil como “Maria, a Louca”. Sua trajetória como soberana e as circunstâncias de seu adoecimento são temas históricos complexos; ainda assim, esse rótulo tornou-se uma marca conhecida de sua memória. É importante lembrar que seu título era rainha de Portugal não apenas “Dona Maria”.

Há também um exemplo masculino: Carlos VI, rei da França, conhecido historicamente como “o Rei Louco” por episódios de adoecimento que afetaram seu reinado. Portanto, para evitar confusão, o nome correto é Carlos VI, rei da França, e não apenas “Rei Carlos”. Os dois casos ocorreram em contextos distintos e não devem ser tratados como equivalentes, mas ajudam a pensar como uma característica pode acabar resumindo a memória de uma vida inteira.

No caso de Dona Maria I, podemos investigar como a representação de sua saúde se relacionou com a memória de uma mulher que ocupou o trono. No de Carlos VI, podemos observar como o adoecimento de um monarca foi associado à autoridade política e à estabilidade do reino. Em ambos os casos, é importante distinguir os registros históricos das interpretações posteriores.

Quando uma pessoa passa a ser lembrada sobretudo por um rótulo, o que acontece com as demais dimensões de sua história? A palavra passa a ocupar o lugar da trajetória? Essa é uma pergunta relevante, desde que não presumamos que todos os apelidos tenham a mesma origem ou produzam os mesmos efeitos.

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O poder de nomear e a possibilidade de ressignificar

Pierre Bourdieu, ao desenvolver o conceito de poder simbólico, ajuda a compreender como as palavras classificam, atribuem valor e podem reproduzir relações sociais de maneira pouco visível. Algumas denominações conferem prestígio; outras produzem estigma. Muitas são repetidas durante tanto tempo que deixam de ser questionadas.

Entretanto, a linguagem também é transformada pelas experiências. Um apelido pode ter origem pejorativa e permanecer associado à humilhação; em outras circunstâncias, pode adquirir sentidos de familiaridade, identidade ou afeto. Isso não acontece automaticamente e tampouco significa que todas as pessoas envolvidas o interpretem da mesma maneira.

Essa perspectiva ajuda a compreender como as nomeações participam da construção das identidades sociais e como seus sentidos podem ser repetidos ou contestados. A ressignificação não apaga necessariamente a história anterior de uma palavra: sentidos antigos e novos podem coexistir.

É nesse ponto que precisamos olhar com atenção para a história da nossa Ana. Como surgiu o apelido? Como era utilizado? O que representa para quem conviveu com ela? Sem conhecer esses elementos, seria precipitado afirmar que a denominação foi exclusivamente ofensiva ou, no extremo oposto, presumir que todos a recebiam com carinho.

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E quando o nome vai para um espaço público?

Dar o nome de uma pessoa a um parque não é apenas escolher uma palavra para uma placa; é também participar da construção da memória coletiva. Espaços públicos podem preservar histórias, reconhecer contribuições e expressar aspectos da identidade de uma comunidade.

Por isso, é legítimo discutir se um apelido é adequado para identificar oficialmente um espaço público. Também é importante investigar se ele representa uma história significativa para a comunidade e como a homenagem será compreendida por diferentes gerações. A história da pessoa, o sentido do apelido e a avaliação administrativa do nome são questões relacionadas, mas distintas.

Uma discussão madura pode acolher essas dimensões sem transformar a divergência em ataque pessoal. A decisão deve considerar a história que se pretende preservar, o significado público da homenagem e os critérios legais e administrativos aplicáveis.
As palavras mudam. A sociedade também.

Assim como há pessoas que já estudaram, procuraram se informar ou sentiram na própria pele o peso da discriminação, há também muitas que ainda não têm consciência do que uma mulher pode carregar quando é chamada de “louca”. Como seres pensantes, temos a possibilidade de contextualizar: compreender quando uma palavra é usada como ofensa, quando adquire outros sentidos e por que algumas nomeações merecem ser revistas.

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Talvez seja preciso deixar certos rótulos para trás para trazer a pessoa para a frente. Ana não foi apenas o apelido pelo qual ficou conhecida. Foi filha, fez parte de uma família e foi alguém que conviveu com sua comunidade. Sua trajetória não pode ser resumida a um comportamento observado pelos outros; como qualquer pessoa, teve vínculos, experiências e outras facetas que talvez nem todos conheçam.

Também cabe perguntar o que fizemos, como família, comunidade e sociedade, diante de alguém que talvez precisasse de cuidado e atendimento adequado. Não conhecemos todos os detalhes da história de Ana e, por isso, não cabe afirmar quem falhou ou quais cuidados foram oferecidos. Sua história, porém, nos convida a refletir sobre uma responsabilidade coletiva: quantas vezes o sofrimento de alguém vira apelido, quando poderia ser acolhido com escuta, cuidado e dignidade?

Podemos compreender uma tradição sem deixar de examiná-la criticamente. Podemos reconhecer o afeto presente em uma história sem presumir que ele elimina todas as ambiguidades de uma palavra. E podemos discutir a linguagem sem transformar toda divergência em uma disputa entre pessoas certas e erradas.

E você, leitor?

Já parou para pensar nas pessoas que conheceu na infância? Naquelas que eram consideradas diferentes, fora do que se esperava delas?
Onde estão essas pessoas hoje? Como foi a vida delas? Quais apelidos receberam e quantos desses nomes continuaram a acompanhá-las ao longo dos anos?

Talvez você se lembre de alguém: um colega da escola, alguém da vizinhança, uma pessoa que despertava curiosidade ou fazia rir. Talvez, naquela época, você não compreendesse o que havia por trás daquele comportamento. Talvez ninguém tenha se perguntado o que aquela pessoa sentia, de que precisava ou que história carregava.

O tempo passa, mas algumas palavras permanecem. Sem perceber, podemos continuar chamando alguém por um nome que lhe atribuímos no passado, sem perguntar se essa palavra ainda representa quem a pessoa é ou se algum dia conseguiu representá-la por inteiro.

A história de Ana nos convida a olhar para além do apelido: a imaginar a menina que um dia foi, a filha que fez parte de uma família e a pessoa que conviveu com uma comunidade. Como todos nós, ela teve uma história que não se resume àquilo que os outros enxergavam.

Não conhecemos todas as respostas sobre a trajetória de Ana. Mas podemos reconhecer que toda vida merece ser vista com humanidade e que o sofrimento, quando existe, precisa ser cuidado, não transformado em motivo de estigma.

Talvez a reflexão mais importante não seja decidir imediatamente quem está certo ou errado, mas revisitar nossa própria história e reconhecer a importância do cuidado com o outro.

Antes de qualquer apelido, existe uma pessoa. E, por trás de cada pessoa, há uma história que merece ser conhecida com respeito, sensibilidade e dignidade.

 

Autor

  • Solange R. Aroeira

    Solange R. Aroeira é psicóloga, pedagoga e Secretária das Mulheres, Direitos Humanos e Neurodiversidade em Cotia-SP. Especialista em neurodiversidade e educação especial, atua há mais de 15 anos nas áreas clínica, educacional e de recursos humanos. Palestrante e autora do livro "Como viramos estrelinhas: Finitude", dedica-se a promover ações estratégicas para inclusão social e cidadania plena. Redes sociais: @solangearoeira

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