Velocidade do pensamento não é inferioridade
A linguagem formal não pode ser confundida com essência intelectual.

Em nossa sociedade, o domínio do português formal ainda é utilizado, de maneira equivocada, como critério de inteligência e credibilidade. Erros gramaticais ou dificuldades momentâneas de expressão são, não raro, interpretados como sinais de incapacidade intelectual. Essa leitura simplista ignora aspectos fundamentais do funcionamento cognitivo humano.
Há pessoas cujo pensamento se desenvolve em alta velocidade. As ideias surgem de forma simultânea, intensa e associativa, enquanto a linguagem oral exige linearidade, pausa e organização. Esse descompasso entre pensar e falar não decorre da falta de conhecimento da língua, mas de um excesso de conteúdo mental que ultrapassa a capacidade imediata de expressão.
Estudos da psicologia cognitiva e da linguística já demonstraram que o pensamento não nasce pronto na linguagem. Autores como Lev Vygotsky explicam que a linguagem organiza o pensamento, e não o contrário. Assim, dificuldades na fala formal não significam ausência de inteligência, mas, muitas vezes, uma mente que opera em ritmo acelerado.
O problema se agrava quando a norma culta é usada como instrumento de exclusão social.
Julgar a trajetória, a competência ou o valor de alguém apenas pela forma como se expressa é desconsiderar sua história, suas conquistas e sua evolução. Trata-se de preconceito linguístico, que privilegia a forma e desvaloriza o conteúdo.
É inegável que a linguagem formal abre portas e deve ser aprimorada. Contudo, ela não pode ser confundida com essência intelectual. A forma é instrumento; o conteúdo é substância. Uma
sociedade mais justa exige menos julgamento estético da fala e mais atenção àquilo que realmente importa: a profundidade do pensamento e a capacidade de transformação das pessoas.
Referências: VYGOTSKY, L. S. Pensamento e Linguagem. São Paulo: Martins Fontes. BAGNO, M. Preconceito Linguístico: o que é, como se faz. São Paulo: Parábola Editorial