A sociedade brasileira vive um momento preocupante e triste. É aterrador perceber que, quase 130 anos depois da Lei Áurea, negros ainda são amarrados a postes e espancados. A justificativa é de que, agora, são os bandidos. Como se um crime justificasse o outro.
O jornal Extra, do Rio de Janeiro, publicou em 8 de julho de 2015, uma capa histórica, propondo justamente essa reflexão. Com uma gravura de um escravo sendo açoitado num tronco e uma foto do assaltante maranhense morto depois de ser amarrado a um poste, o veículo provocou: “Os 200 anos entre as duas cenas acima servem de reflexão: evoluímos ou regredimos?”
Quem participa ou se sente representado por um linchamento destila violência sem controle
A própria imagem responde a pergunta. O conceito de tribunal de justiça, criado 600 anos antes de Cristo, na Grécia Antiga, tentava separar o ser humano, consciente e racional, dos demais animais. O próprio conceito de Justiça trata de dar a um suposto criminoso a oportunidade de provar-se inocente. Ou, pelo menos, oferece-lhe a chance de uma punição proporcional ao crime. Por isso delegou-se ao Estado a tarefa de organizar um julgamento e punir. Não se trata de avaliar uma situação a partir da ótica emotiva e tendenciosa de um indivíduo.
No Brasil não há pena de morte. Pelo menos, não na Lei. Mas turbas ensandecidas não estão nem aí para a lei. Inclusive quando, em não raros casos, levam ao linchamento e até à morte um inocente. Há muitos exemplos bem atuais.
Sim, regredimos. Todo bandido merece punição, mas aqui se trata de outra coisa. Justiçamento é raiva, descontrole. Quem hoje participa ou se sente representado por um linchamento destila e explode sua própria violência, sem controle. E isso não tem nada a ver, realmente, com o crime cometido pelo justiçado. É só mais violência alimentando violência.