A hora é agora!
Há momentos na vida de uma empresa, de uma pessoa ou de uma comunidade em que suas decisões impactam sua trajetória, pois há um custo de voltar atrás
Há momentos na vida de uma empresa, de uma pessoa ou de uma comunidade em que suas decisões impactam sua trajetória, pois há um custo de voltar atrás. É o que os economistas denominam ponto de bifurcação. A destruição de uma floresta leva de 40 a 50 anos para se recuperar.
Um país também enfrenta tais momentos decisivos. Algumas eleições definem o futuro do país. Nessas eleições, mais uma vez, temos uma decisão crucial. A própria democracia está em jogo, assim como a existência autônoma do Brasil. O momento é delicado, a eleição está ali na frente, e os dois candidatos mais competitivos têm compromissos diametralmente diferentes.
Um opta, como estratégia, por atrelar o país às decisões dos Estados Unidos, vinculando nosso futuro a uma potência estrangeira, deixando de ter voz ativa em seu destino e utilizando o que temos de capital, como terras raras e petróleo, como moeda de troca.
Já o atual presidente enfatiza a estatura internacional do país, o que permite ter voz própria, não ser quintal de ninguém.
O candidato da família Bolsonaro entrega-se aos desígnios de Trump, Marco Rubio e cupinchas, naturalizando o absurdo ao incluir a participação dos EUA no processo de transição do governo, se ganhar as eleições. Pagaremos muito caro por isso, povo e país.
No governo passado, o Bolsonaro pai, em reunião ministerial gravada, questionava o inquérito sobre as rachadinhas do filho – contratar pessoas, em geral fantasmas, para o gabinete parlamentar, ficando com parte substancial do salário – e foi radical para livrá-lo da cadeia. Se precisasse demitir o delegado responsável pelo inquérito, ou o delegado-geral da Polícia Federal, ou o próprio ministro da Justiça, então Sérgio Moro, o faria. Ainda demonstrando o caráter já ditatorial, afirmava sem pudor: “minha polícia, meu exército”.
Lula nunca usou tais termos, por saber que as Forças Armadas são do país, não de uma pessoa ou governo. No escândalo do INSS, quando o nome do filho apareceu, disse que esperava que não houvesse envolvimento e que, caso fosse provado, ele enfrentasse as consequências.
As privatizações como programa de governo do Bolsonaro filho remetem à venda da Embraer para a Boeing. Em 2019, Bolsonaro pai, presidente, apesar de o governo brasileiro ter uma Golden Share, ação que lhe dava poder de veto no negócio, não o fez. A Embraer foi vendida, e os mercadistas eufóricos “provaram” que seria uma tacada de mestre. E uma das joias da coroa foi parar no portfólio da Boeing. Como Deus é mesmo brasileiro e não estava “dormindo”, a Boeing, em dificuldades, desfez o negócio. Não sem antes montar uma agência de aliciamento de engenheiros em São José dos Campos, sede da Embraer. A Embraer nacional desabrochou de vez, desenvolvendo novas tecnologias, ampliando sua presença global, inovando com pesquisas avançadas para o lançamento do carro voador. Ainda se espera dos mercadistas privatistas algum tipo de mea-culpa.
E os vices? Geraldo Alckmin, o vice dos sonhos, por sua honradez e postura ilibada, Lula nunca se preocupou com alguma artimanha contra seu governo vinda do vice. Quando do tarifaço, foi o principal negociador brasileiro.
Alfredo Gaspar, o vice de Flávio Bolsonaro, denunciado por crime sexual contra vulnerável, indicado por Eduardo Bolsonaro para substituí-lo como relator da CPMI do INSS. Descobriram-se suas relações com o advogado Willer Tomaz, acusado de estar envolvido exatamente na fraude do INSS, além de ser um dos proprietários, junto com Vorcaro, do avião usado por Flávio Bolsonaro e família. Imagine tal personagem, em uma necessidade, vir a ser presidente.
O governo Lula apresentou amplo projeto de combate ao crime organizado, integrativo entre as polícias estaduais e a Polícia Federal, incluindo o aparato de inteligência. Proposta aprovada, embora desfigurada no Congresso, com menos recursos e incumbências para a Polícia Federal.
A vida pregressa do candidato Flávio Bolsonaro, por sua vez, é um belo cardápio. Empregou em seu gabinete, como fantasmas, a mãe e a mulher de Adriano da Nóbrega, miliciano e matador de aluguel, líder do Escritório do Crime, condecorando-o com a maior honraria – Medalha Tiradentes – pelos “serviços prestados”, com a comenda sendo entregue pelo então deputado na cadeia onde o agraciado estava preso. Adriano foi executado na Bahia, com seus celulares convenientemente expurgados.
Nesse mesmo passo, surgiu recentemente, na Revista Piauí, a informação de que Robson Calixto Fonseca, o Peixe, intermediou emenda de R$ 199.999,79 de Flávio Bolsonaro para “entidade” vinculada aos irmãos Frazão, condenados como mandantes das mortes de Marielle e Anderson. Peixe também condenado como elo entre os mandantes (irmãos Frazão) e os executores Ronnie Lessa e Élcio de Queiroz.
Quanto ao Banco Master, foi durante este governo que o Banco Central decretou sua liquidação extrajudicial e, apesar de a oposição buscar pelo em ovo, nada se encontrou contra Lula. Já seu início se deu no governo Bolsonaro.
Ao estourar o escândalo, Flávio Bolsonaro apareceu com a camiseta “O Pix é do Bolsonaro, o Master é do Lula”. Logo em seguida, foi escancarado seu envolvimento com o Master. Amizade sólida com Vorcaro: “Sou seu irmão!!! Pra vida toda!!” (FSP, 27/09/26). O compadrio, caso eleito, terá que ser pago, por exemplo, encerrando a liquidação do Master. Eduardo Bolsonaro, refugiado nos Estados Unidos, propôs trocar o nosso Pix pelo Zelle americano.
O guru de toda a extrema direita, Olavo de Carvalho, é claro: “Quando o seu adversário luta por uma causa justa, dê a ela o nome de alguma coisa feia e combata esta última sem jamais mencionar a primeira.”
O desastre ecológico, dos indígenas e quilombolas do primeiro Bolsonaro, e a mudança visível do enfoque sobre o meio ambiente e as mudanças climáticas do atual governo são diferenciais significativos sobre o compromisso de ambos com a questão ambiental.
Qual compromisso da família Bolsonaro com a democracia, depois do 8 de janeiro, tentativa de golpe, tramada e anunciada peremptoriamente durante o mandato? Se Bolsonaro tivesse ganhado a eleição passada, com certeza estaríamos em uma ditadura.
No outro lado, temos um presidente que, antes de se eleger, perdeu várias eleições, saindo delas sofrido, mas respeitando os resultados. Em seus mandatos, seguiu à risca o compromisso constitucional de 1988, artigo 1º: “Todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente, nos termos desta Constituição”.
Como ficam os autointitulados patriotas, com suas manifestações explícitas de aplauso a Trump, mesmo após os tarifaços prejudicarem a economia e as empresas nacionais, e gestados por Eduardo Bolsonaro, mantido pela grana de Vorcaro? O candidato, assumindo sua esdrúxula viralatice, sugeriu aos EUA invadir o espaço nacional para implodir barcos na Baía da Guanabara.
Lula, por sua vez, é reconhecido internacionalmente como um guerreiro da nossa autonomia, contra o colonialismo e o imperialismo. Nos episódios de intervencionismo de Trump, agiu e age com altivez, defendendo a independência brasileira.
Na área econômica, a primeira iniciativa do Bolsonaro filho, caso eleito, será, copiando a Argentina, eliminar a recuperação do poder de compra do salário mínimo e achatar o salário dos aposentados.
Pode-se criticar Lula pela condução econômica, com juros na estratosfera, o grande problema do governo. Mas o que o distingue fundamentalmente do seu adversário é que, por ser trabalhador, torneiro mecânico de profissão, seu compromisso fundamental é com os mais humildes; o adversário, sinceramente, não sabe o que é isso!
Sendo o Brasil um dos países mais desiguais do mundo, o governo Lula colocou o povo no orçamento; para seu oponente, seguindo a cartilha elitista, o povo não cabe no orçamento.