**Alerta de gatilho: a matéria a seguir aborda assuntos como suicídio e vício em jogos de azar
Um jovem de 25 anos, morador do litoral paulista, fugiu de casa após se afundar em uma dívida que ultrapassa os R$ 800 mil para manter o vício em apostas e jogos de azar online. O caso foi exibido em reportagem do “Balanço Geral”, da Record TV.
Segundo a irmã do rapaz, que não teve a identidade revelada, ele começou a pegar dinheiro emprestado com amigos, colegas de trabalho e parentes há cerca de três anos. Só a irmã dele chegou a emprestar R$ 15 mil. Diante das cobranças constantes dos credores, o rapaz saiu de casa e quase não mantém contato com a família.
A irmã vive angustiada e teme o que pode acontecer: “Estou com medo de sair, meus filhos estão com medo de ir para a escola. Ele [o irmão] falava que pegava o valor emprestado com um amigo, mas não sei quem é, se é outra pessoa, se é agiota”, relatou à reportagem.
O caso do morador do litoral de São Paulo não é isolado. A reportagem citou também o triste desfecho de uma vendedora autônoma viciada em apostas online, que tirou a própria vida no Ceará, em dezembro de 2023, ao perceber que não conseguiria pagar a dívida milionária que contraiu com o vício.
“A soma depositada nos jogos ultrapassa os 1 milhão de reais. Ela também vendeu a nossa casa e, provavelmente, o sítio da nossa família”, revelou uma parente da vendedora ao “Balanço Geral”. Assista à reportagem completa aqui.
Mais de 22 milhões de brasileiros utilizam apps de apostas online, diz pesquisa
Um levantamento realizado pela Anbima (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais) em parceria com o Datafolha revelou que 22% dos brasileiros consideram as bets como um tipo de investimento.
A pesquisa mostrou ainda que 40% consideram as apostas como uma chance de ganhar dinheiro rápido em momentos de necessidade e que 22,4 milhões de brasileiros usam aplicativos de apostas online, o que corresponde a 14% da população nacional.
O público apostador, segundo a pesquisa, encontra-se nas classes A, B e C e é majoritariamente formado por homens (63%) da geração Z, jovens nascidos entre 1997 e 2010, seguido por millennials – nascidos entre 1981 e 1996.
Outro levantamento divulgado no ano passado pelo Instituto Locomotiva sobre apostas esportivas e focado nas classes C, D e E, apontou que gastos com restaurantes, bares e delivery são as principais fontes para as apostas e que o dinheiro usado nos jogos online costumava ser aplicado na poupança.
Vício em apostas online tipo “jogos do tigrinho”
Assim como revela a pesquisa citada acima, é possível afirmar que é comum ver pessoas, principalmente jovens, envolvidos em jogos e apostas online. O problema começa quando a diversão se torna um vício, levando a pessoa a usar toda a renda, fazer empréstimos e pedir dinheiro emprestado com parentes e amigos, como foi o caso do morador do litoral de São Paulo.
O vício em jogos de azar, também chamado de ludopatia, é reconhecido pela OMS (Organização Mundial da Saúde) como doença desde 2018 e precisa de tratamento.
A psicóloga clínica e neuropsicóloga Érika Almeida explicou, em entrevista ao Visão Oeste, que não são todos os apostadores que desenvolvem vícios, mas que pode haver uma predisposição – não necessariamente genética – assim como no caso do álcool ou no uso de outras substâncias, em algumas condições.
“Havendo a predisposição, ao jogar a pessoa recebe uma dose de dopamina, substância neurológica que proporciona sensação imediata de prazer. Com o passar do tempo, o nível de produção de dopamina diminui, levando a pessoa a jogar por mais tempo e fazer apostas mais altas para alcançar a mesma sensação do início. Nesta fase, as apostas se tornam mais agressivas, com valores maiores, buscando pela dopamina. Paralelamente se inicia a produção de adrenalina pelo risco causado. Ou seja, a aposta começa a promover sensação de prazer mais medo e mais prazer novamente, fazendo com que o ciclo se repita continuamente em busca dessa sensação”, destacou a profissional.
Confira a íntegra da entrevista com a neuropsicóloga:
Quando a diversão começa a se tornar um vício?
Os jogos de apostas online começam a se tornar um vício quando o jogador passa a valorizar a sensação proporcionada pela aposta e não pelo jogo em si. Ou seja, em um curto período de tempo, a pessoa oscila entre o ganha e perde, fazendo que haja um aumento na adrenalina para uma nova aposta já que o padrão do jogo não é previsível. Nesse momento, surge o pensamento de “só mais uma rodada”.
Quais os primeiros sinais que uma pessoa viciada em apostas online apresenta?
Os primeiros sinais podem variar conforme a personalidade da pessoa, então o que deve ser avaliado é a mudança de comportamento, geralmente negativas, como mentir para amigos e familiares sobre o tempo de uso no aplicativo, valores apostados ou até mesmo o isolamento social com a intenção de não justificar as atitudes causadas pelo vício. Em alguns casos, estes comportamentos vêm acompanhados com a sensação de culpa ou vergonha.
Existem muitos influenciadores que divulgam esse tipo de jogo. Enquanto outros já chegaram a expor nas redes sociais o valor que deixaram de faturar por recusar contratos com as plataformas de apostas online. Qual o seu ponto de vista a respeito da divulgação, muitas vezes desenfreada, que promete ganho fácil e rápido? Como isso mexe com o indivíduo?
Os espectadores de influencers são, em sua maioria, pessoas de baixa renda que podem idealizar o estilo de vida luxuoso desses divulgadores ou ter acesso a uma realidade distante da atual. Não coincidentemente, muitos usuários são as pessoas com problemas financeiros que acreditam com a promessa de quantia de dinheiro muito fácil.
Isso demonstra que os jogos de apostas também representam um problema socioeconômico, necessitando de medidas legislativas para evitar que tais promessas não iludam financeiramente os mais vulneráveis de uma realidade social com poucos recursos e opções de renda extra.
Quando é o momento de procurar ajuda?
É fundamental que informações sobre os problemas de saúde mental associados a esse tipo de jogo sejam constantemente divulgadas, assim como ocorre com programas de combate ao tabagismo, por exemplo, para conscientizar os usuários e implementar leis que limitem o uso. Isso porque o passo mais importante para buscar ajuda é o primeiro: a própria pessoa reconhecer que necessita de suporte, pois sozinha pode ser difícil se distanciar desse hábito que pode ter se tornado um vício.
Quanto mais rápido a pessoa perceber que determinadas atitudes não estão sendo saudáveis, como por exemplo deixar de pagar alguma conta ou pedir dinheiro emprestado em troca de ter mais chances de aposta, os prejuízos sendo eles físico, mental e financeiro serão menores.
Quais as formas de buscar esse apoio, onde?
A psicoterapia é um recurso essencial no início do tratamento, pois é nesse espaço que a pessoa pode entender os gatilhos e sensações proporcionadas pelos jogos de apostas, para a partir desse contato, criar recursos para lidar com tais emoções e enfrentamento de determinadas situações com o vício.
Dependendo do nível de envolvimento com o jogo, pode ser necessário o uso de medicamentos psiquiátricos sob supervisão médica. Além disso, criar um novo estilo de vida é essencial para que novos desejos surjam dentro do tempo dedicado para o jogo.
Atualmente, também há grupos de apoio, como o “Jogadores Anônimos” que ajudam e unem pessoas em busca de parar de jogar tanto jogos de apostas como qualquer outro jogo de azar, é um recurso significativo para um espaço com outras pessoas que estão no mesmo processo e por isso, um espaço sem julgamento.
E quando a pessoa não sabe que está tão envolvida, o que as pessoas à volta podem fazer para ajudar?
Se a pessoa for acima de 18 anos ou financeiramente independente, tentar dialogar é sempre válido, apresentando comparações de como ela era e como se tornou após o uso excessivo dos aplicativos. Se a situação envolver um adolescente, além da conversa com acolhimento, o controle financeiro seguido da busca por ajuda profissional para entender a real situação pode trazer boas orientações para os pais ou cuidadores.
*Érika Almeida é bacharel em psicologia pela Universidade Anhembi Morumbi e pós-graduada em Neuropsicologia (CRP 06/144615). Conheça mais sobre a profissional acessando o site psibilidades.com.br ou o perfil no Instagram @psi.bilidades.
IMPORTANTE: O CVV (Centro de Valorização da Vida) realiza apoio emocional e prevenção do suicídio, atendendo voluntária e gratuitamente todas as pessoas que querem e precisam conversar, sob total sigilo por telefone (188), email e chat 24 horas todos os dias. Mais informações: www.cvv.org.br.