Exposição em São Paulo homenageia padre Júlio Lancellotti e pessoas em situação de rua
Mostra reúne fotografias produzidas desde 2020 e registros do trabalho do padre Júlio Lancellotti e da Pastoral do Povo da Rua
Uma exposição em São Paulo reúne mais de 100 fotografias para retratar a relação entre a população em situação de rua, a sociedade e o trabalho desenvolvido pelo padre Júlio Lancellotti e pela Pastoral do Povo da Rua. A mostra “A Alfabetização do Olhar – um ato de amor e responsabilidade” está em cartaz na Lacerdine Galeria de Arte, no bairro de Higienópolis.
Idealizada pelo artista plástico e curador Geraldo Lacerdine, a exposição parte da percepção de que pessoas em situação de rua muitas vezes são ignoradas ou tratadas com distanciamento no cotidiano. A proposta é estimular uma mudança na maneira como esses cidadãos são vistos, aproximando o público das histórias e experiências retratadas.
Além das fotografias, a mostra reúne textos, instalações, vídeos e prêmios e reconhecimentos recebidos pelo padre Júlio ao longo de sua trajetória.
Pessoas em situação de rua são protagonistas
Segundo Geraldo Lacerdine, a participação do padre Júlio na exposição esteve condicionada ao protagonismo das pessoas em situação de rua. O curador conta que, ao receber a proposta de homenagem, o religioso pediu que a mostra tivesse como centro justamente a população atendida pela Pastoral do Povo da Rua.
“Se vocês querem fazer uma homenagem a mim e ao meu trabalho, façam uma exposição em que as pessoas na situação de rua sejam o centro, e não eu”, relatou Lacerdine.
A partir dessa orientação, a exposição apresenta diferentes perspectivas sobre o trabalho realizado pelo padre Júlio. Algumas imagens destacam ações humanitárias e a atuação do religioso, enquanto outras direcionam o olhar para as próprias pessoas em situação de rua, mostrando situações de vulnerabilidade, mas também momentos de alegria, convivência e dignidade.
Fotografias registram trabalho desde a pandemia
As fotografias reunidas na exposição são assinadas pelos fotógrafos Daniel Camargo Kfouri, Fernando Jenzen, Tr3ze e Victor Angelo Caldini. Os registros acompanham o trabalho desenvolvido pelo padre Júlio e pela Pastoral do Povo da Rua desde o período da pandemia de Covid-19, em 2020.
Para o padre Júlio, a proposta da exposição está relacionada justamente à maneira como a sociedade enxerga as pessoas que vivem nas ruas. Em declaração à Agência Brasil, ele afirmou que a chamada “alfabetização do olhar” busca fazer com que o público reconheça essas pessoas não como figuras idealizadas ou estereotipadas, mas como seres humanos com diferentes histórias e experiências.
Imagens buscam aproximar público e fotografados
Além da fotografia documental tradicional, que mantém uma certa distância entre o observador e a cena registrada, a exposição utiliza recursos para criar uma sensação de proximidade entre quem visita a mostra e as pessoas retratadas.
Um dos exemplos reúne três fotografias de mulheres em situação de rua sorrindo diante das câmeras. A disposição das imagens cria uma relação visual mais próxima entre as mulheres e o público, reforçando a proposta de aproximar o visitante daqueles que normalmente podem passar despercebidos no cotidiano.
Segundo padre Júlio, as fotografias não foram produzidas a partir de poses artificiais. Os registros são resultado de períodos de convivência entre os fotógrafos e as pessoas acompanhadas pela Pastoral.
“As fotos não são posadas ou artificiais. Elas capturam momentos espontâneos resultantes de um longo período de convivência e conhecimento mútuo entre os fotógrafos e as pessoas retratadas”, afirmou.
Fotógrafos relatam relação de confiança
O fotógrafo Tr3ze também destaca a importância da convivência para a produção dos registros. Segundo ele, fotografar pessoas em situação de rua exige aproximação e construção de confiança.
O profissional conta que começou a fazer os registros durante as filas de distribuição de pães e, com o tempo, passou a estabelecer contato com as pessoas fotografadas.
De acordo com Tr3ze, algumas pessoas inicialmente demonstram receio de serem fotografadas por medo de que as imagens sejam utilizadas para denunciá-las ou encaminhadas às autoridades. Com a convivência, porém, a relação pode mudar.
O fotógrafo também afirma que muitas pessoas em situação de rua demonstram interesse em conversar e serem ouvidas, especialmente diante da invisibilidade social que enfrentam.
Exposição propõe mudança na forma de olhar
A proposta da mostra é utilizar a fotografia e outras formas de expressão artística para aproximar o público de uma realidade que muitas vezes é ignorada nas cidades.
Ao colocar as pessoas em situação de rua no centro da exposição, “A Alfabetização do Olhar – um ato de amor e responsabilidade” busca apresentar diferentes dimensões dessas trajetórias, indo além de imagens associadas exclusivamente à vulnerabilidade.
A exposição reúne registros do trabalho do padre Júlio Lancellotti e da Pastoral do Povo da Rua, mas também procura direcionar a atenção dos visitantes para as pessoas que estão presentes nessas histórias.
Com a Agência Brasil