
O sequestro de Patrícia Abravanel, filha de Silvio Santos, um dos crimes que mais tiveram atenção da mídia no país, completou 20 anos. Foram sete dias de cativeiro, dois investigadores da polícia mortos, além de um episódio cinematográfico de fuga e perseguição em ruas de Barueri, entre outros desdobramentos que mais parecem coisa de filme.
O sequestrador e mentor do crime, Fernando Dutra Pinto, de 22 anos, morreu quatro meses após ter sido preso, devido à uma parada cardiorrespiratória decorrente de pneumonia bacteriana, segundo a Secretaria de Estado da Segurança Pública. No entanto, as condições que antecedem a morte são relatadas como “crime de tortura” e “queima de arquivo” em relatório do Observatório das Violências Policiais e dos Direitos Humanos (OVP-SP).
Fernando agiu com o seu irmão mais novo, Esdra Dutra Pinto e outros suspeitos, que também foram presos. Esdra, hoje com 41 anos, cumpre o restante da pena de 30 anos em liberdade. De acordo com o “Extra”, ele tenta reconstruir a vida, voltou a morar em Itapevi, onde casou-se, teve um filho e frequenta a igreja evangélica e a academia, além de prestar serviços comunitários.

Os irmãos, que cresceram em Itapevi, abordaram Patrícia Abravanel, 23, na mansão de Silvio Santos no Morumbi, bairro nobre de São Paulo, em 21 de agosto de 2001. Eles a levaram para um cativeiro onde negociaram o valor do resgate durante uma semana. Guilherme Stoliar, sobrinho de Silvio Santos, revelou, ao Uol, que negociou com os sequestradores e fez o pagamento de R$ 500 mil para que a filha do Homem do Baú fosse libertada.

Patrícia foi libertada pelos criminosos no dia 28 de agosto, mas o caso estava longe de chegar ao fim. Esdra, outro comparsa e a mulher deste haviam sido presos, mas Fernando continuava foragido. O comparsa, conhecido como “Pirata”, foi detido em Cotia, numa estrada de terra próxima ao local onde teria sido o ponto de encontro para a entrega do resgate, no Km 39 da Raposo Tavares.
Perseguição e fuga em Barueri
No mesmo dia 28 de agosto, Fernando se hospedou no hotel L’Étoinle Residencial Service, em Alphaville, Barueri, onde se apresentou com outra identidade. De acordo com funcionários do hotel, após ele sair para fazer compras em um shopping, uma camareira encontrou armas e um saco cheiro de dinheiro em espécie no quarto e acionou os policiais. Segundo a polícia, além das armas, foram encontrados R$ 464 mil em espécie no quarto.
Assim que Fernando retornou ao flat e entrou no elevador, um investigador entrou com ele e teria dado a voz de prisão no 10° andar, onde havia outros dois policiais aguardando pelo sequestrador. Houve troca de tiros, dois policiais foram mortos e um ficou ferido no ombro. “Nós tentamos segurar ele de todo jeito para ele não pegar nas armas, só que ele era muito grande e foi arrastando até o elevador de serviço. Quando todo mundo caiu no chão, porque estava todo mundo grudado em luta corporal, foi quando ele conseguiu sacar a pistola”, relatou na época, Reginaldo Nardes, único policial sobrevivente do confronto no hotel, ao “Jornal Nacional”, da TV Globo.

Fernando desceu apenas um andar de elevador. No 9° andar, ele quebrou um vidro e continuou a fuga surpreendente pelo lado de fora do prédio, apoiado-se nas paredes para continuar a descer. Isso mesmo: ele desceu quase dez andares se apoiando em duas paredes na parte externa do edifício.
Dezenas de viaturas estavam mobilizadas atrás do sequestrador que, mesmo ferido, conseguiu escapar do hotel e trocou de carro duas vezes enquanto era perseguido pelas ruas de Barueri, até pegar um taxi.

Por volta das 19h daquela noite, a cidade passou a ser vasculhada pela Polícia Civil, Guardas Civis Municipais de Barueri, entre outras equipes policiais, mas, após pegar um taxi, Fernando conseguiu desaparecer sem deixar qualquer rastro.
Depois da filha, o pai
Dois dias depois, o que parecia ser improvável fora dos filmes de ação aconteceu: por volta das 7 horas, Fernando Dutra reapareceu na mansão de Silvio Santos, onde liberou a mulher e as filhas do apresentador e o fez refém. O sequestrador queria a ajuda do empresário e pediu, entre outras coisas, um helicóptero e atendimento médico, pois havia sido baleado durante o confronto com os policiais civis em Barueri. Outra exigência do criminoso era o distanciamento da Polícia Civil.
As negociações passaram a ser tocadas pela Polícia Militar, o que a Secretaria de Segurança Pública alegou ter sido um erro. Até a presença do então governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, foi solicitada por Fernando que, antes de se render, tomou banho na mansão e trocou de roupas. Nesse momento, o Brasil inteiro já havia parado para acompanhar o desfecho do caso.

Queima de arquivo?
A morte de Fernando, ocorrida em janeiro de 2002, quatro meses após o sequestro, ainda é cercada de mistério. Os advogados do sequestrador tentaram provar que ele havia sido envenenado e espancado na prisão, mas as acusações não foram comprovadas oficialmente. Um documento do Observatório das Violências Policiais e dos Direitos Humanos acusa a Secretaria de Segurança Pública de omissão ao “crime de tortura” supostamente cometido contra Fernando Dutra.
“A morte ‘suspeita’ de Fernando Dutra Pinto, que já havia ocupado grande espaço na mídia quando protagonizou um sequestro de gente famosa, deixou todas as indicações de que se tratava de uma ‘queima de arquivo’, ou seja, do assassinato de alguém que sabia demais sobre a atuação dos policiais civis envolvidos”, diz o texto, em referência ao episódio do hotel em Alphaville, Barueri, onde o sequestrador se hospedou com o dinheiro do resgate e dois policiais foram mortos.
O relatório diz que Fernando negou ter sido autor dos disparos que mataram os investigadores. Ainda de acordo com o texto, o sequestrador alegou que os policiais que o abordaram no hotel estavam vivos até o momento em que ele fugiu do local. Ele teria dito ainda que chegou a atirar contra os policiais, mas não matou ninguém. “Estranhamente, um dos [policiais] mortos tinha em seu bolso três cheques no valor total de R$ 23,3 mil. Com efeito, sabe-se que o homem de TV [Silvio Santos] pagou R$ 500 mil e Fernando declarou que gastou apenas R$ 1 mil. Mas a polícia recuperou apenas R$ 464 mil. Além disso, no local foram encontradas manchas de sangue que não correspondiam nem ao tipo de sangue dos três investigadores, nem ao de Fernando”, continua o documento do Observatório das Violências Policiais.

A Corregedoria de Polícia abriu um inquérito para apurar as acusações. No entanto, o órgão teve de abandonar as investigações, que foram transferidas ao Departamento de Homicídios e de Proteção à Pessoa (DHPP). “Em seguida o delegado desse departamento, foi proibido de falar sobre as investigações: ordem do [então] Secretário de Segurança Pública, Marco Vinicio Petrelluzzi”, diz o texto.
O documento diz que Fernando ficou preso na mesma cela que o irmão Esdra, que teria relatado que o irmão foi espancado em dezembro de 2001. “Fernando apanhou de quatro carcereiros com barras de ferro. Em seguida, foi abandonado sem qualquer tratamento; e na véspera da morte de Fernando, quando ele já sentia dificuldade de respirar, não foi levado ao hospital por falta de escolta”, teria dito Esdra em depoimento.
Na autópsia, foi constatado que o pulmão do sequestrador havia sido infectado pela bactéria Staphylococcus aureus. “Isso se explica pois, após as lesões, ele permaneceu com uma ferida profunda aberta nas costas de 8 a 10 cm e foi submetido a banhos frios constantes durante a noite, na ‘cela de castigo’”, diz o Observatório de Violências Policiais.
Pais dos sequestradores processam o Estado
Antônio Sebastião Pinto e Anésia Dutra Pinto, pais dos irmãos sequestradores criados em Itapevi, acionaram a Justiça contra o Estado por danos morais supostamente causados a Fernando na cadeia, além de solicitarem uma pensão e o reembolso pelas despesas com o enterro.
A Justiça entendeu que o sequestrador estava sob custódia da SSP, que deveria garantir sua vida, e concedeu sentença favorável quanto aos danos morais. No entanto, após 20 anos, a indenização estimada em R$ 100 mil mais R$ 1,4 mil gastos com o sepultamento de Fernando Dutra Pinto não chegou aos pais do sequestrador. “Isso caiu na dívida do Estado e, enquanto podem protelar, vão protelando. Não temos nem ideia de quanto já está essa indenização porque tem juros e correção monetária”, afirmou o advogado da família, Vitor Fachinetti, ao “Extra”.